Reportagens

As vantagens e os desafios da vida de freelancer

Por opção ou não, trilham um caminho mais independente, com vantagens e desafios, com mais liberdade de escolha, mas com a incerteza de saberem se terão ou não trabalho nos tempos que se seguem.

Fomos conhecer profissionais na área dos eventos que executam a sua actividade de forma independente.

Há vantagens e desafios neste caminho e que podem variar de pessoa para pessoa. Uma maior gestão de tempo, mais liberdade de escolha dos projectos ou o poder de negociação dos valores podem ser alguns dos aspectos positivos que fazem frente ao risco de instabilidade, à incerteza de saber se haverá trabalho no futuro ou até à necessidade de constante adaptação a novas equipas, a novos contextos e formas de trabalhar, a cada projecto aceite.

A vida de freelancer não é simples e não estar sob a alçada de uma empresa, a juntar à realidade (e responsabilidade) dos recibos verdes, pode levantar algumas preocupações. A situação financeira é uma delas. E se, por um lado, pode ser vantajoso, por outro, há casos de freelancers que trabalham ao mesmo tempo noutras áreas para conseguirem algum equilíbrio e de outros que complementam o seu trabalho na área com a prestação de serviços. Cada caso é um caso.

Mas também não é um bicho de sete cabeças. É necessária uma boa gestão de tempo e de trabalho, que não é necessariamente em menor volume do que antes, e essa autonomia pode até ser um incentivo. E se há quem tenha sido obrigado pelas circunstâncias do mercado a tornar‑se freelancer, há com certeza casos em que essa é uma vontade ponderada e viável. Certo é que o empenho e a dedicação são os mesmos de sempre.

Agências, empresas ou clientes finais recorrem aos seus serviços, pela sua experiência, por conseguirem acrescentar valor à equipa e ao trabalho e pela capacidade que demonstram na concretização do que é pretendido. Os projectos podem chegar de várias formas – e variadas são também as durações dos mesmos: podem ser de um dia, como podem durar semanas ou meses. E dependendo do projecto, da participação dos freelancers no seu desenvolvimento e de outras variáveis, os orçamentos são normalmente definidos projecto a projecto.A Event Point colocou diversas questões a Vítor Senra, Marta D’Orey e Miguel Macedo, sobre as vantagens e os desafios da condição de freelancer.

Três freelancers em discurso directo

O fascínio pelo mundo dos eventos chegou cedo a Vítor Senra, que depois de organizar, com dois amigos, a sua primeira festa, com música, instalações fotográficas e de vídeo, soube que queria trabalhar no sector, contou à Event Point. Em 2014 foi trabalhar para o Brasil, na gestão de uma unidade hoteleira, e três anos depois regressou a Portugal onde trabalhou no Imaginarius – Festival Internacional de Teatro de Rua, a convite da agência Bússola e da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira. Trabalha como freelancer na produção de eventos, de diferentes formatos e para diversas empresas.

“A situação laboral em Portugal melhorou desde que parti para o Brasil em 2014, mas ainda assim acredito que há um grande percurso a ser feito. Os contratos que nos são apresentados por vezes não são tão vantajosos como a negociação de um freelancer; por outro lado, há sempre a questão da instabilidade, de uma procura constante por novos trabalhos, o que acaba por ser um pouco desgastante. Não obstante, tenho de admitir, tenho tido muita sorte com as pessoas com quem tenho trabalhado e, com um maior ou menor fluxo, os projectos vão aparecendo”, referiu Vítor Senra.

Marta D’Orey tem tido um percurso variado, com trabalho em diversas áreas ligadas à produção e comunicação. Da assistência à produção de espectáculos musicais e infantis na Lemon, passou para os eventos na Desafio Global e na Touchgroup, tendo ido à publicidade na McCann e, ainda ao lado do cliente, na Immochan. É freelancer há quase dois anos na área da produção – eventos, activação de marca, publicidade – e gestão de projectos.

E é freelancer por opção. “Por um lado, porque cheguei a um ponto da minha vida em que achei que poderia ‘arriscar’ e trabalhar por conta própria. Por outro, porque tenho a perfeita noção de que as agências têm um volume de trabalho inconstante e acho que faz cada vez mais sentido haver freelancers que possam dar apoio nos momentos de pico”, explicou à Event Point.

Miguel Macedo é freelancer por opção e acumula essa actividade com uma outra em full time. “O meu percurso esteve praticamente sempre ligado aos eventos, de forma geral, tendo desde cedo trabalhado na área do protocolo” – área que escolheu como preferencial.

Seis perguntas a...

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À esquerda na foto

Vítor Senra

Quais as vantagens e quais os desafios de ser freelancer no sector dos eventos em Portugal?

Creio que as vantagens se prendem com a questão do valor que podemos negociar por projecto. É vantajoso para quem contrata não ter de suportar custos como com um funcionário em regime de trabalho “normal”. Por outro lado, há sempre uma certa instabilidade que se cria pelas mesmas razões. O facto de não se saber com certeza se teremos trabalho nos próximos meses é algo que nos afecta sempre, nem que seja inconscientemente.

A situação de freelancer é para continuar no futuro? Como se convive com a instabilidade?

Não é uma realidade fácil de se viver, é um facto. Tem de existir estofo mental para se poder resistir à tentação de abandonar a situação de freelancer e arriscar num projecto que não seja de todo aliciante, só pelo simples facto de podermos ter um pouco mais de estabilidade financeira. Tenho tido sorte com as pessoas com quem me cruzei e com quem trabalho regularmente, e tenho também um grande apoio da minha família e da minha noiva, o que ajuda bastante. Mas é sempre uma questão em aberto. No futuro, uma proposta aliciante pode mudar novamente as regras do jogo. No momento, a minha preocupação é desempenhar o meu trabalho da melhor forma possível. Creio que é o único trunfo que temos para nos mantermos neste meio.

Como avalia os prazos de pagamento aos freelancers?

Não tenho razões de queixa. Já tive experiências de receber dias antes de finalizar o evento, outras no dia seguinte ao evento ou dez dias depois, mas se não me falha a memória nunca fiquei mais do que 15 dias à espera de um pagamento dos meus serviços.

De acordo com a sua experiência, os freelancers são contratados por quem? Agência, cliente, empresas de recrutamento?

Há um pouco de tudo. Já me candidatei a postos de trabalho, já fui convidado por empresas que me conheciam e também já aconteceu ser referenciado por pessoas com quem trabalhei em projectos anteriores para outras empresas que não me conheciam. Acredito que, sempre que fazemos o nosso melhor, a publicidade “boca a boca” acaba, mais tarde ou mais cedo, por nos ajudar em situações futuras.

Como é gerir as diferentes formas de as empresas trabalharem nos seus eventos?

Não é de todo uma situação fácil de gerir. Por vezes estamos habituados a uma certa rotina de trabalho e de repente já nos encontramos noutra realidade que em nada se parece com a anterior. Pessoas, eventos e formas de trabalhar diferentes. Não é fácil, mas com muita humildade e um certo jogo de cintura acabamos por encaixar nas novas equipas, ao mesmo tempo que podemos trazer certas valências e novas perspectivas que fomos adquirindo com outras equipas e outros eventos.

Como descreveria o actual momento do sector?

Olho para o sector dos eventos de uma forma bastante positiva. Creio que se vivem dias de grande fulgor, com ofertas muito variadas e elevados padrões de qualidade. Portugal tem um potencial enorme para explorar os eventos, com equipas extremamente competentes e criativas que, ano após ano, nos surpreendem com eventos para todos os públicos, que por sua vez se reflectem num reconhecimento internacional. Acredito que, devido à grande oferta de contratos “temporários”, nos quais os freelancers se enquadram, possa advir o risco de uma certa exploração dos mesmos face ao valor pago pelo trabalho desenvolvido. Isto tendo em conta que cada vez mais pessoas se encontram na mesma situação e às vezes, para “agarrarem” certos projectos, aceitam valores mais baixos do que a concorrência acabando por não valorizar a classe que trabalha neste regime.

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Marta D’Orey

Quais as vantagens e quais os desafios de ser freelancer no sector dos eventos em Portugal?

Os desafios são transversais a todos os freelancers, o risco da instabilidade e de haver alturas com menos trabalho, que tenho tido a sorte de ainda não ter tido. As vantagens passam por alguma gestão do tempo e dos horários, e a possibilidade de poder aceitar os projectos que mais me entusiasmam e de vez em quando recusar outros.

A situação de freelancer é para continuar no futuro? Como se convive com a instabilidade?

Enquanto fizer sentido, sim. Se um dia surgir um projecto desafiante que precise de mim a full time volto a mudar a minha vida com tranquilidade. Não sou extremista. Aprende‑se a viver com a instabilidade mantendo os projectos e as economias organizadas.

Como avalia os prazos de pagamento aos freelancers?

Os prazos definidos no início de cada projecto devem ser cumpridos, com qualquer fornecedor. Acho que actualmente os clientes estão mais respeitadores desses prazos.

De acordo com a sua experiência, os freelancers são contratados por quem? Agência, cliente, empresas de recrutamento?

Eu trabalho quase exclusivamente com agências, foi assim que quis estabelecer‑me no mercado desde início – como braço direito das agências e não como concorrente das mesmas. Os poucos projectos que fiz no cliente final foram situações excepcionais em que não se ia recorrer a agência, o cliente faria o evento sozinho ou com outro freelancer.

Como é gerir as diferentes formas de as empresas trabalharem nos seus eventos?

É uma questão de adaptação. Acima de tudo é estarmos disponíveis para aproximar a nossa forma de trabalhar ao que o cliente precisa de nós.

Como descreveria o actual momento do sector?

Sinto que está novamente em crescimento, com mais eventos, eventos maiores e mais exigentes, com boas agências para responder às necessidades dos clientes. É um sector desafiante, em que é esperado de nós sempre mais e melhor.

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Miguel Macedo

Quais as vantagens e quais os desafios de ser freelancer no sector dos eventos em Portugal?

Os desafios são enormes porque o país funciona numa escala pequena a todos os níveis. Daí as dificuldades serem grandes em função da existência reduzida de oportunidades de desenvolver o trabalho.

A situação de freelancer é para continuar no futuro? Como se convive com a instabilidade?

A minha área de freelancer será para manter. A instabilidade é combatida com outra actividade em full time.

Como avalia os prazos de pagamento aos freelancers?

Nunca tive razões de queixa. Talvez tenha sorte.

De acordo com a sua experiência, os freelancers são contratados por quem? Agência, cliente, empresas de recrutamento?

Cada vez mais pelos clientes finais.

Como é gerir as diferentes formas de as empresas trabalharem nos seus eventos?

O segredo está no nosso trabalho, que deve ser sempre com a maior qualidade possível.

Como descreveria o actual momento do sector?

Confuso, com alguns monopólios e muito centrado em Lisboa, mas isto tudo resulta do que disse anteriormente sobre a reduzida escala do nosso mercado de eventos.


 

Maria João Leite

Tags: Freelancers, Mercado, Eventos

06-11-2018