Destinos

Depois da guerra, Sarajevo está aberta para eventos

A história de Bosko e Admira encapsula a tragédia que foi a guerra na Bósnia e Herzegovina. Bosko era sérvio, Admira muçulmana (bosniak), e antes do conflito viviam em Sarajevo, em paz e harmonia, unidos por um amor que nasceu nos tempos de escola.

A capital bósnia era uma cidade multicultural, tolerante e pacífica, traços reconhecidos aliás por quem a visitou antes da guerra. Com o estalar do confronto nos Balcãs, a família de Bosko fugiu para a Sérvia, mas ele não quis deixar Admira e ficou em Sarajevo. A 19 de Maio de 1993, o Romeu e Julieta de Sarajevo foram mortos por um sniper quando atravessavam a Ponte Vrbanja. Os seus corpos permaneceram no local durante sete dias e a sua história perpetuada em documentários e livros que relatam esta época negra da região.

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A “Sniper alley”, a zona onde estavam instalados os snipers em cima de edifícios, alvejando muitas vezes sem critério quem por lá circulava durante a guerra, incluíndo Bosko e Admira, não mudou assim tanto. A sensação ao passar lá é de que estamos a entrar num cenário de guerra. Prédios com marcas de balas e morteiros, uns sem varandas, outros sem janelas, muitos totalmente destruídos, poucos já remodelados. É desolador e ao mesmo tempo um murro no estômago. Só o cerco a Sarajevo, que durou quatro anos, terá matado mais de 12 mil pessoas e ferido 50 mil, 85% das quais civis. E isto não aconteceu assim há tanto tempo. As marcas permanecem todas lá.

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Médio Oriente meets Europa

Baščaršija é o centro histórico da cidade. E mal se chega aqui a atmosfera muda. É diferente de qualquer sítio da Europa. A sensação é de que estamos no médio oriente. As várias mesquitas, as ruas repletas de lojas a lembrar os bazares de Istambul ou Marraquexe, a mistura de etnias, o cheiro da shisha e das especiarias, torna a experiência verdadeiramente surpreendente. Na praça principal, onde rivalizam pessoas e pombos pelo controlo do espaço, a fonte histórica é o símbolo da cidade e o ponto de encontro de turistas e locais.

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Pertinho desta praça fica a mesquita Gazi Husrev-Beg, local preferido dos bósnios muçulmanos para rezar, e que, com os adereços próprios, é possível visitar. A poucos metros fica o museu judaico, situado numa antiga sinagoga do século XVI. O mais extraordinário edifício de Sarajevo, de arquitectura Austro-Húngara, é a Câmara Municipal, conhecida localmente como Vjecnica. Durante a guerra, o edifício foi atingido pela artilharia sérvia, e destruído, tendo-se perdido milhares de livros, obras de arte e documentos vários. Entretanto recuperado, detém uma impressionante exposição de fotografias que retratam a tumultuosa história de Sarajevo. Perto do rio, a Latin Bridge (Ponte Latina) é outro testemunho dessa história. Aqui foi assassinado o Arquiduque Franz Ferdinand, espoletando a 1ª Guerra Mundial.

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Já fora do centro da cidade, uma visita ao Museu do Túnel é essencial para perceber a complexidade que foi o cerco a Sarajevo. Aqui é possível percorrer alguns metros do túnel que durante a guerra permitia o transporte de alimentos, medicamentos, mas também armas para o interior da cidade. Fora de Sarajevo vale muito a pena a visita aos antigos equipamentos dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1984, que aqui se realizaram e que hoje são um testemunho da guerra civil.

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Há muito mais a conferir em Sarajevo, sendo sobretudo interessante falar com as pessoas, ouvir as suas histórias e perceber como olham para o futuro da região.

Sarajevo e a meetings industry

Teoricamente Sarajevo pode ser um destino muito interessante para eventos e congressos. Antes da guerra o turismo era muito forte na cidade, justamente porque reflectia uma multiculturalidade única na Europa. Ter sido anfitriã de um evento tão gigantesco como os Jogos Olímpicos é uma prova de que essa apetência para eventos existia antes do conflito. Hoje o turismo está a regressar à Bósnia e, por exemplo, Mostar é um dos maiores exemplos disso.

Na capital, que ocupa o lugar 299 no último ranking da ICCA, com oito eventos, há vários hotéis com espaços para congressos. O hotel Europa tem que ser destacado porque faz parte da história da cidade. Aqui ficaram instalados os jornalistas durante a guerra civil e as imagens do hotel – na altura Holiday Inn, correram mundo. Mas há vários outros hotéis de marcas como Marriott, Hills Congress, para citar apenas alguns dos que estão incluídos nesta lista. O calendário de feiras e eventos pode ser consultado aqui.

O aeroporto de Sarajevo foi renovado e recebeu em 2018 mais de um milhão de passageiro (1,046,635). Companhias aéreas como a Turkish Airlines, a Qatar, a Lufthansa, ou a Croatian Airlines, entre várias outras, são responsáveis pelo crescimento anual do aeroporto local.

Mas seja por ar, ou por terra, Sarajevo merece a sua visita. Não se vai arrepender. Em mim a cidade ficou tatuada na pele, e para sempre.


 

Texto e imagens: Cláudia Coutinho de Sousa


 


 

 


 

Tags: Sarajevo, Bósnia e Herzegovina

15-01-2019