Entrevistas

Mário Ferreira: As regras de compliance são uma discriminação para destinos resort

A opinião é de Mário Ferreira, CEO do grupo Nau Hotels & Resorts. O grupo que tem hotéis em Lisboa, no Alentejo e no Algarve aposta no sector MICE, que já representa 15% da facturação total.

Qual é a estratégia do grupo relativamente ao sector MICE?

O grupo Nau Hotels & Resorts dispõe de 10 unidades hoteleiras, localizadas entre Lisboa, Montargil e o Algarve. Entre estas, quatro dispõem de salas para reuniões e eventos - o Palácio do Governador, em Lisboa, o Lago Montargil & Villas, no Alentejo, e o São Rafael Atlântico e o Salgados Palace & Congress Centre, na Herdade dos Salgados, ambos localizados em Albufeira.

A estratégia para o sector MICE é distinta para cada uma destas unidades, já que se situam em destinos diferentes, mas também pelas suas caraterísticas específicas, nomeadamente ao nível da capacidade de alojamento e das salas, outlets de F&B e outros.

Há, no entanto, alguns aspectos comuns na estratégia. Apresentamo-nos ao mercado MICE como um grupo hoteleiro de valências diversificadas nos principais eventos MICE internacionais e nacionais – feiras e workshops – e na comunicação junto de meios especializados. Produzimos informação detalhada sobre as valências e caraterísticas de cada unidade, que interessam a este segmento específico.

Também organizamos ao longo do ano visitas personalizadas a clientes nos principais mercados – sejam clientes finais, sejam intermediários como PCO’s, Event Organizers, DMC’s, agências de viagens especializadas ou Incentive Organizers – com os quais procuramos manter relações de confiança e de cooperação.

Adicionalmente, o Palácio do Governador, o São Rafael Atlântico e o Salgados Palace & Congress Centre estão afiliadas na Great Hotels of the World, uma das soft brands mais reconhecidas neste segmento específico.

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Palácio do Governador

Qual a tipologia de eventos que tem mais peso nos vossos hotéis? Congressos, reuniões, eventos particulares?

As nossas unidades têm acolhido todo o tipo de eventos. Recebemos desde congressos sectoriais, com especial incidência para as associações médicas e redes de mediadoras imobiliárias, a congressos e reuniões de empresas, de pequena, média e grande dimensão, mas também reuniões empresariais, comerciais e de team building, acções de incentivo empresarial, bem como, eventos de lançamentos de novos produtos, sobretudo para o sector automóvel. Por exemplo, nas nossas unidades já tivemos os lançamentos de novos modelos da Mercedes Benz, Volkswagen, Skoda, Infinity, BMW e Bugatti.

Também recebemos com frequência eventos particulares. Em média, têm lugar nas nossas unidades mais de 100 casamentos por ano.

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Lago Montargil & Villa

Quais são os principais mercados emissores em termos deste tipo de turismo?

Trabalhamos com mercados muito diversificados. Nos últimos anos destacam-se os mercados português, alemão, britânico e italiano.

Qual é o peso do sector MICE na facturação do grupo?

O sector MICE, incluindo grupos, representa cerca de 15% da faturação global.

Como se faz a gestão entre turismo de lazer e turismo de negócios?

É por vezes uma gestão complexa, até porque não raras vezes, temos que fazer coabitar clientes de golfe e de lazer balnear com eventos empresariais, o que coloca desafios difíceis de gerir.

A maior parte dos eventos empresariais tem lugar entre Janeiro e Maio, e de novo em Outubro e Novembro. Os preços são mais elevados na época alta de verão, de Junho a Setembro, o que afasta os clientes de escolherem estes meses para os seus eventos.

Ainda assim, por vezes coincidem, sendo necessário por parte da equipa de gestão de cada hotel avaliar devidamente as necessidades e impactos de um grupo/evento para os demais clientes, e preparar a organização em conformidade. Por conseguinte, essa avaliação tem que ser feita antes de aceitar o grupo/evento. Já nos aconteceu ter de recusar um grupo precisamente pelos impactos que poderia ter na operação regular e na satisfação dos demais clientes.

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Salgados Palace & Congress Centre

Como vê a evolução do Algarve enquanto destino de eventos?

O Algarve tem quase todas as condições para ser um destino MICE perfeito. Desde logo conta com cenários espectaculares oferecidos pelas praias, mas também campos de golfe, spas, para além de unidades hoteleiras excelentes para alojamento, F&B e salas de todas as dimensões, uma rede de infra-estrutura adequada, como estradas, aeroporto, frotas de autocarros e de rent-a-car, entre outras.

Apresenta contudo dois handicaps importantes. Por um lado, as ligações aéreas regulares com as capitais e grandes cidades europeias são insuficientes, em especial nas épocas baixa e shoulder, que é quando os eventos têm lugar. Ocorreu termos grandes eventos de lançamentos de novos modelos automóveis que movimentaram entre 20 e 40 mil passageiros em 3 meses, que só aconteceram porque foram organizadas autênticas pontes aéreas em voos charter. Com melhores ligações regulares, o Algarve seria um destino de eleição para o segmento MICE.

Por outro lado, o sector de atividade que mais congressos organiza anualmente é o sector médico e do medicamento. Mas as regras de compliance em vigor na União Europeia impedem as associações médicas de organizarem congressos em destinos resort – junto a praias, campos de golfe, spas e em hotéis de 5 estrelas. Ou por outra, até os podem organizar nesse tipo de destinos, mas não terão o apoio financeiro dos laboratórios de medicamentos devido às regras de compliance em vigor – os laboratórios não poderiam considerar como custos esses apoios. E sem esses apoios dos laboratórios, não há congressos médicos.

Não concordamos com estas regras. Dá-se o caso de Lisboa, Paris, Londres, Madrid, Barcelona, Roma, entre outras, serem cidades que todos querem visitar, de forte atractividade turística, mas porque existem universidades de medicina (embora não sejam destinos por natureza de praia ou golfe), podem receber congressos médicos internacionais, pois as regras de compliance não se aplicam.

Consideramos uma discriminação muito negativa para destinos resort, que o são verdadeiramente no Verão mas não no Inverno, quando os congressos têm lugar. Há trabalho a fazer para alterar ou suavizar essas regras de compliance em Bruxelas e as nossas autoridades turísticas sabem disso – pelo menos nós temos insistido neste ponto regularmente -, mas até hoje nada conseguiram fazer.

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São Rafael Atlântico

Tags: Nau Hotels & Resorts, MICE, Compliance

16-01-2019