Opinião

Uma questão com (pelo menos) 900 anos

Faz este ano 900 anos desde que Portugal foi referido pela primeira vez como um Reino.

Não deixa de ser interessante que o documento que fez essa menção – a Carta de Couto de Osseloa (1117) – tenha servido para instituir uma albergaria, com o objectivo de servir de abrigo e segurança a pessoas que, em grupo ou individualmente, eram assaltados e alguns até mortos quando passavam por essa zona do país (actual concelho de Albergaria‑a‑Velha). De facto, a segurança dos viandantes é tida como fundamental desde os tempos mais remotos da nossa existência enquanto entidade política autónoma. E este foi um problema que persistiu durante muito tempo: ainda no século XIX, uma viagem ao Minho era “feita ainda segundo pelos velhos processos, com malas, coldres e pistolas, botas de montar.” (in Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais).

Felizmente, hoje eu não preciso de pistola no coldre quando vou de Coimbra ao INL ou à Startup Braga. No entanto, não é menos verdade que as viagens a pé ou de bicicleta por zonas de baixa densidade continuam a ter os seus riscos: vemos grupos ou indivíduos a perder‑se e a precisar de socorros; continuamos também a encontrar percursos na natureza sem a necessária informação, sinalética, zonas de apoio/descanso. Por isso, estivemos presentes na Conferência Internacional EUROPARC 2017 a debater estes assuntos com decisores ao mais alto nível associados ao turismo sustentável, parques naturais e turismo em zonas de baixas intensidades. Deixámos claro como é anacrónico que, em pleno século XXI, com todos os sistemas de geolocalização e comunicação à distância haver grupos desaparecidos ou indivíduos acidentados em locais não identificados. E concluímos que há muito ainda a fazer neste domínio em Portugal, mas também na Europa.

É nesse sentido que nós (e um grande conjunto de instituições e empresas em Portugal!) estamos neste momento a fazer um levantamento de necessidades e a preparar um catálogo de serviços multidisciplinares muito distintos, que incluem soluções tecnológicas de segurança/geofencing para grupos e indivíduos; criação de trilhos e a sua homologação, criação e instalação de sinalética, mobiliário e estruturas de segurança; adaptação de percursos e disponibilização de equipamentos desportivos e de lazer para pessoas com mobilidade reduzida; criação de audioguias com audiodescrição; entre outros.

Estou absolutamente convicta de que este tipo de soluções contribuirá para colmatar a esmagadora maioria dos problemas que hoje existem para atividades ao ar livre em cenários de natureza. De facto, todo o tipo de produtos e serviços que contribuam para melhorar a segurança e o conforto de quem se desloca em trilhos ou em zonas inóspitas estão, no fundo, a responder a uma questão com (pelo menos) 900 anos: a da “boa hospitalidade”!

Maria Costeira, Managing Partner da Jiit.Travel


 

Tags: Sinalética, Segurança, Turismo

13-03-2018