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Brasil: percepções e realidades

O Campeonato do Mundo de futebol no Brasil traz ao de cima o melhor e o pior do país, potenciado por percepções que são ou legados do passado ou construídas hoje. Em tudo isto, a FIFA tem uma responsabilidade também, porque subjacente a toda a retórica sobre levar a beleza do jogo às massas, está a necessidade de ganhos comerciais através da divulgação maciça do logotipo e a marca.

São postas em evidência algumas contradições antigas e novos aspectos que as pessoas ignoram a seu próprio risco. Dependendo dos mercados com que se trabalhe, as atitudes e ansiedades serão também diferentes. Por trás disto está a educação e, nesse ponto, a responsabilidade é partilhada por muitos. Relativamente à segurança, por exemplo, existe uma crença enraizada de que o Brasil não é seguro. Estamos a falar de segurança pessoal ou da questão mais ampla dos fornecedores brasileiros serem capazes de cumprir padrões internacionais - o seu evento estará assegurado com eles? O prefeito do Rio tem feito muito para melhorar as comunidades (antigas favelas), que agora estão devidamente policiadas, envolvendo os moradores locais, mas há ainda mais a ser feito. Os pequenos delitos aqui não são mais graves do que o que se encontra noutros lugares. Lembremo-nos que Praga ainda é uma das capitais de carteiristas do mundo – bastante distanciada das praias de Copacabana ou Ipanema.

Onde há ansiedade é no facto de o Inglês não ser amplamente falado. A menos que se fale Português do Brasil (há uma diferença), deparar-se-á com dificuldades, porque no Rio ou em São Paulo, ao contrário da maioria de outras grandes cidades globais, não é fácil de encontrar quem fale inglês. O que acontecerá caso seja preciso perguntar o caminho ou pedir ajuda? Mesmo o amigável polícia não servirá de nada.

Segurança tem um significado muito diferente para americanos e britânicos. Assim, quando recentemente um DMC brasileiro recebeu um pedido de informação de uma importante marca de carros de luxo, ao enviar uma proposta substancial, foi decepcionante descobrir que o departamento de segurança do cliente disse que o Brasil era uma área proibida. Levanta-se a questão de por que razão o intermediário, que se propõe a conhecer bem o cliente, não informou das áreas proibidas antes que o trabalho fosse iniciado. É também algo desconcertante que uma marca de risco no mercado dos EUA não seja considerada de igual modo no Reino Unido, onde o mesmo cliente, através de outro intermediário, já confirmou um evento para a mesma marca. Então, tratam-se de marcas de risco ou da percepção e compreensão locais? É necessário fazer mais na nossa indústria para educar sobre as realidades dos destinos, de outra forma todos nós corremos o risco de não sair de casa, e de até isso poder ser perigoso.

Depois, há a questão do preço e o que é considerado caro ou justo. Aqui, temos novamente dois factores convergentes que, no caso particular do Rio, estão a subir os preços e não a baixá-los. Quando a FIFA chegou à cidade, os preços inflaccionaram, e isso aconteceria em qualquer lugar em que este ou outros eventos globais fossem realizados. Por um lado, você tem o ovo de ouro e, por outro, uma falta de investimento que resulta num alojamento limitado, já que nenhum hotel de cinco estrelas foi construído (no Rio em particular, já que esse é o "Brasil icónico") para satisfazer a procura normal, muito menos para este pico. Os preços sobem e os fornecedores endividam-se com condições utópicas que alguns irão conseguir pagar, mas muitos outros não. Assim, é necessário ter os pés bem assentes na terra, já que os hóspedes não os colocarão nos hotéis. Os preços altos estão a começar a suavizar e hoje é comum encontrar hotéis em São Paulo que reduzem as taxas antes de ser solicitado. Os mais sábios compreendem que a realidade não vai ocupar camas, e que uma taxa normal é melhor do que nenhuma.

O Brasil é também um país vasto, a maior área geográfica onde que o torneio já foi disputado. As distâncias são grandes e a única forma realista de viajar é de avião. Mesmo as duas cidades mais próximas do Rio de Janeiro e São Paulo estão a 480 Kms de distância e mesmo a conduzir durante a noite, quando a auto-estrada tem menos trânsito, são entre seis a sete horas de carro. Manaus – bem, aqui demoraria dias e não horas (são cerca de quatro horas de vôo de São Paulo). Como este é o modo normal de os brasileiros viajarem, imagine-se o desafio de muitas mais pessoas a tentar viajar ao mesmo tempo, sobretudo não existindo uma alternativa realista.

Há também aqueles que pretendem fazê-lo com um orçamento baixo e com passagens aéreas da Europa, à volta dos 2000€, o que deixa pouca margem para os fãs mais fervorosos. É aqui que um bom apoio local pode valer todo um cesto de ovos de ouro. O Brasil vai oferecer um Campeonato do Mundo fantástico em termos de ambiente circundante porque o futebol faz parte do ADN deste país. A cultura e a língua não vão mudar, daí a importância do apoio local e linguístico. Não se trata apenas de falar Português, trata-se de quem se conhece, porque é dessa forma que se estabelece a confiança. Valorizam-se os relacionamentos presenciais, não apenas um aperto de mão e um sorriso.

Há muito em jogo. O Brasil será julgado no cenário mundial e caso obtenha um bom desempenho, então os Jogos Olímpicos serão vistos sob uma perspectiva diferente. Se não, então ainda mais formação será necessária, o que poderá ser um preço muito alto para o retorno do investimento. No final, a FIFA e o COI [Comité Olímpico internacional] seguirão o seu caminho e é o cenário pós-evento que irá determinar o futuro e dar a percepção de se ter (ou não) feito a escolha acertada.

 

John Hooker é Director Executivo da JHCP Limited e sócio fundador de The Collection-Destinations no Brasil.