O perfil híbrido que está a redefinir as agências de eventos
31-08-2026
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Num setor cada vez mais complexo, tecnológico e orientado para a experiência, as agências de eventos procuram profissionais capazes de cruzar criatividade, pensamento estratégico e rigor operacional.
Ana Simão, da Expanding, Miguel Assis, da Voqin’, e Tiago Tarracha, da Nervo, partilham como estão a evoluir as competências-chave e os desafios na gestão de talento.
Mais do que organizar, criar experiências com impacto
“Hoje, saber organizar bem já não diferencia ninguém, felizmente, isso passou a ser o mínimo esperado”, afirma Miguel Assis, da Voqin'. “A diferença está em quem consegue criar experiências que ficam nas pessoas. E isso exige muito mais do que capacidade técnica. Exige inteligência emocional, empatia e capacidade de leitura de contexto.”
Na Nervo, Tiago Tarracha sublinha a crescente valorização de “profissionais híbridos”. Se, por um lado, na produção são essenciais competências como “planeamento rigoroso, domínio técnico, gestão de orçamento, negociação com fornecedores e a literacia tecnológica”, por outro, nas equipas criativas, destaca-se “um pensamento conceptual forte, capacidade de storytelling, leitura cultural e a sensibilidade para tendências”.
Além disso, Tiago Tarracha lembra que “há algo que nem sempre aparece nos currículos e que é absolutamente essencial: é preciso gostar verdadeiramente disto”, uma vez que, trabalhar em eventos, é viver com “adrenalina”, “ritmo intenso” e “imprevisibilidade controlada”, onde o “‘eu’ só funciona dentro de um ‘nós’”.
Ana Simão
Já Ana Simão, da Expanding, aponta para o equilíbrio entre técnica e dimensão humana: “Hoje, mais do que competências isoladas, valorizamos perfis equilibrados entre capacidade técnica e maturidade humana.” E reforça: “Eventos são contextos intensos, em constante mudança, e quem faz a diferença é quem mantém foco, empatia, espírito colaborativo e capacidade de decisão mesmo sob pressão.”
Sustentabilidade, dados e tecnologia
Novas competências como sustentabilidade, cibersegurança, gestão de dados ou avaliação de impacto deixaram de ser opcionais. “Hoje já não faz sentido falar destas áreas como ‘novas’. São simplesmente parte do jogo”, defende Miguel Assis.
“Sustentabilidade não pode ser um gesto simbólico, dados não servem apenas para reporting e tecnologia não pode ser usada só porque é possível.” Segundo o responsável da Voqin’, “o verdadeiro valor está na capacidade de integrar tudo isto de forma inteligente na experiência, usar dados para desenhar momentos mais relevantes, usar tecnologia para aproximar pessoas e garantir que cada decisão tem um impacto consciente”. Nesse sentido, a agência de eventos está a investir em inovação para desenhar e personalizar experiências.
Para Tiago Tarracha, a mudança é clara: “Estas áreas deixaram de ser complementares e passaram a ser estruturais.” E exemplifica: “A sustentabilidade, por exemplo, já não é um argumento reputacional; é um critério de decisão.” Sobre dados, acrescenta: “A capacidade de traduzir experiência em métricas concretas e insights acionáveis tornou-se parte do valor que entregamos às marcas.”
A cibersegurança é outro eixo crítico: “Num contexto cada vez mais híbrido, com plataformas digitais, registos online, dados de participantes e integrações tecnológicas, a proteção da informação é um fator crítico de confiança. Não é apenas uma questão técnica, é uma responsabilidade estratégica”, afirma o CEO da Nervo.
Também Ana Simão reforça esta ideia de que as “novas” competências são hoje essenciais. E sublinha o impacto direto nos projetos: “A sustentabilidade, por exemplo, já faz parte do processo de decisão desde a fase de conceito, influenciando escolhas técnicas, logísticas e de materiais” e “a gestão de dados e a avaliação de impacto tornaram-se fundamentais para medir resultados e acrescentar valor aos clientes.”
A tecnologia assumiu ainda mais importância com a evolução dos eventos híbridos e digitais, lembra a managing partner da Expanding, que realça que, “mesmo que nem todos os profissionais sejam especialistas, ter consciência e literacia nestes temas é hoje indispensável.”
Equilíbrio entre criatividade, análise e tecnologia
Na prática, o equilíbrio entre criatividade, análise e tecnologia tornou-se um modelo de trabalho. “Para nós, esse equilíbrio não é um exercício – é um ponto de partida”, explica Miguel Assis. “Tudo começa com uma pergunta muito simples: o que queremos que as pessoas sintam?” A partir dessa pergunta, “a criatividade ganha direção, a análise traz clareza e a tecnologia permite escalar e personalizar.” Sempre no sentido de “criar experiências que fazem sentido e que ficam.”
Miguel Assis
Já na Expanding, a resposta está na estrutura multidisciplinar: “Esse equilíbrio resulta da nossa estrutura interna multidisciplinar, que integra produção, arquitetura, engenharia e design”, refere Ana Simão. “A criatividade surge sempre alinhada com objetivos claros, sustentada por análise, viabilidade técnica e controlo rigoroso da execução”, detalha a responsável, realçando que “a tecnologia entra como ferramenta para potenciar a experiência e garantir eficiência.” O segredo do sucesso de “produzir eventos criativos, tecnicamente sólidos e bem executados” é o trabalho colaborativo entre as diferentes áreas.
Na Nervo, também partem de uma pergunta, ou um “racional estratégico”. “Qual é o papel da experiência na construção da marca?”. A partir das respostas a esta indagação, é desenvolvido um conceito criativo e consideradas as dimensões tecnológicas e operacionais. O processo é feito de forma colaborativa: “Produção, gestão de projeto, criatividade e pensamento tecnológico trabalham lado a lado desde o início. Não existem silos”, afirma Tiago Tarracha.
O acesso a diferentes competências dentro do ecossistema do grupo – WYgroup – permite “pensar um evento não apenas como momento físico, mas como parte de um ecossistema de comunicação mais amplo”. Social media, branding, CRM, relações públicas, inteligência artificial, desenvolvimento tecnológico são algumas das valências do grupo, que podem ser exploradas nos diferentes projetos.
Recrutamento: mais do que currículos
Na atração de talento, as três visões convergem na importância da atitude e da forma de pensar.
Na Expanding valoriza-se o percurso académico e profissional, mas, mais do que isso, dá-se importância à experiência prática : “O setor dos eventos aprende-se sobretudo no terreno.” Ana Simão regista: “a experiência prática, a capacidade de adaptação e a forma como cada pessoa reage aos desafios do dia a dia dizem-nos muito mais do que um currículo isolado”. E por isso, o mais relevante no recrutamento “é a atitude: a curiosidade, a motivação, a vontade de aprender e de crescer dentro da equipa.”
“Mais do que procurar percursos perfeitos, procuramos formas de pensar”, afirma Miguel Assis. “Interessa-nos perceber como alguém pega num briefing e o transforma numa ideia.”
Na Nervo, “valorizamos percursos diversos, porque acreditamos que a riqueza criativa nasce da diversidade de olhares”, explica Tiago Tarracha. “Competências como storytelling, experiência do utilizador ou gestão de dados não se avaliam apenas no CV, avaliam-se na forma como a pessoa pensa”, explica Tiago Tarracha.
Tiago Tarracha
E se formações e certificações são relevantes, há um critério diferenciador: “o capital cultural e humano”. “As provas que correm, os filmes que veem no cinema, as peças de teatro a que assistem, os concertos que vibram, as exposições que absorvem, as causas que apoiam. Tudo isso são soft skills fundamentais. São referências. São sensibilidades. São matéria-prima criativa.”
O desafio do talento: encontrar e reter
Encontrar talento continua a ser um dos maiores desafios. “O mais difícil continua a ser encontrar equilíbrio numa só pessoa”, admite Miguel Assis. “Perfis que consigam ser criativos, mas também estratégicos, que pensem, mas que também executem, que tenham sensibilidade, mas também rigor”.
Tiago Tarracha concorda: “As competências mais difíceis de encontrar continuam a ser as verdadeiramente híbridas.” E alerta para a exigência do setor: “A indústria dos eventos é exigente. Implica intensidade, responsabilidade e uma grande capacidade de adaptação.”
Na Expanding, o foco está também na retenção: “Hoje, o desafio não está apenas em atrair talento, mas em desenvolvê-lo e mantê-lo motivado”, refere Ana Simão. “Num setor tão exigente como o dos eventos, as pessoas ficam quando sentem que estão a evoluir e a gerar impacto.”
© Cláudia Coutinho de Sousa Redação
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