AWC 2026: IA foi protagonista num congresso cheio de humanidade

Entrevista

16-06-2026

# tags: Algarve , Eventos , Congressos , Associações

O Associations World Congress (AWC) 2026 decorreu de 7 a 9 de junho no renovado Centro de Congressos de Lagoa, no Algarve.

A inteligência artificial dominou grande parte das sessões, mas o balanço desta edição do AWC acabou por revelar uma mensagem mais ampla: a tecnologia pode transformar o setor, mas é a dimensão humana que vai continuar a definir o sucesso dos eventos e das associações.

Em jeito de balanço, Linda Pereira, CEO da CPL Events e anfitriã do AWC, começou por referir que esta edição do evento deu a conhecer um destino menos óbvio para a indústria associativa, demonstrando que é possível conciliar trabalho, aprendizagem e experiência. A responsável defende que os destinos podem acrescentar valor à experiência dos participantes.


Assim, promovendo um destino que procura combater a sazonalidade e afirmar-se junto do setor, a aposta em Lagoa foi bem-sucedida: “as salas estiveram sempre cheias” ao longo do congresso e, ao mesmo tempo, os participantes tiveram a oportunidade de contactar com a cultura e autenticidade locais.

Linda Pereira conta que o aspeto mais elogiado foi o carácter humano do encontro. "O que estão mais a elogiar é que foi um evento humano", afirmou, sublinhando que, numa altura em que os eventos são cada vez mais tecnológicos, os participantes continuam a valorizar "a humanidade, o contacto, os sorrisos, a alimentação, a proximidade entre as pessoas, o acolhimento, a música, a cultura imbuída em todo o evento". "Este setor é sobre relacionamentos das pessoas com pessoas e nós abrimos o coração e eles gostaram do que viram", resumiu. O balanço é, por isso, "muito positivo" e a expectativa é que cada um dos participantes volte com “500 amigos."


Também Damian Hutt, diretor executivo da Association of Association Executives, que organiza o congresso, fez uma avaliação muito positiva do evento, destacando tanto os conteúdos como a experiência proporcionada pelo destino anfitrião. "Absolutamente fantástico", frisou sobre esta edição, salientando que as alterações introduzidas no formato "funcionaram mesmo muito bem". Destacou ainda a hospitalidade, considerando que "as pessoas, os anfitriões portugueses, são absolutamente incríveis".

Preparar as lideranças associativas para os desafios futuros


A inteligência artificial assumiu um papel central ao longo dos trabalhos. Linda Pereira recordou que o congresso tem uma vocação essencialmente educativa e procura preparar as lideranças associativas para os desafios futuros. “No âmbito das associações, os eventos são a comunicação com os seus membros; portanto, aqui falou-se muito da inteligência artificial não substituir os humanos, mas ser um instrumento de trabalho.”

Além da tecnologia, houve espaço para sessões “sobre como organizar um evento eficaz e humano, como redesenhar os nossos eventos para as futuras gerações” – as que vão liderar e que não gostam de estar sentadas numa sala, aponta – e ainda refletir sobre modelos de liderança num contexto global “desagregado, confuso e conflituoso”.


Para Linda Pereira, uma das principais conclusões foi a importância crescente do próprio destino no sucesso dos eventos. "O destino passa a ser, hoje em dia, um figurante também no evento", afirmou, defendendo que as escolhas devem considerar o impacto e o legado deixado nas comunidades anfitriãs. Devem ser ainda procurados destinos que ofereçam excelência também na organização dos eventos. “O evento tem de ser educacional e emocional. De facto, aqui juntámos as duas e mostramos o que é possível fazer num país como Portugal.”

Inteligência artificial: de ferramenta a parceiro


Damian Hutt partilhou a ideia de que a inteligência artificial deixou de poder ser ignorada pelas associações, que precisam de decidir em que medida vão usar esta ferramenta e qual a sua estratégia. Alertou que muitas organizações continuam resistentes, mas a realidade é que os seus membros já a utilizam diariamente. Por isso, "não podem ignorá-la", frisou.

Recuperando uma ideia apresentada pelo orador principal, Rui Maranhão, explicou que, "na verdade, estamos a passar de uma ferramenta para um parceiro". E, na sua perspetiva, a IA deve ser encarada sobretudo como uma oportunidade. “Com a IA, é possível criar mais valor para os membros, criar novos serviços e novos produtos. E isso é algo em que as associações precisam de pensar”, referiu. Caso contrário, advertiu, as associações correm o risco de ficar para trás face a outros players do mercado.


Contudo, o responsável defende que a adoção destas tecnologias pelas associações deve ser acompanhada por estratégia, políticas claras e formação adequada. "Sem dúvida, têm de começar a gerir a utilização da IA de forma controlada, para que os seus colaboradores utilizem um sistema adotado por toda a organização", afirmou Damian Hutt, acrescentando que as organizações precisam de definir regras sobre a utilização destas ferramentas e garantir que todos recebem formação específica.

Embora o congresso tenha dedicado muita atenção à IA, Damian Hutt recorda que outros temas foram abordados no evento: como questões relacionadas com conferências híbridas. “Muitas associações têm de deixar de se contentar com 5% a 10% de participação dos seus membros no seu evento principal e pensar em como podem chegar aos restantes 90% ou mais. Tivemos uma apresentação fantástica sobre eventos híbridos e discutimos isso em detalhe”, sublinhou.

“Não é mais tecnologia, é mais humanidade”


Questionada sobre o futuro, Linda Pereira mostrou-se particularmente otimista. "Não estou, nem nunca estive minimamente preocupada." Pelo contrário, acredita que, quanto mais digital for o mundo, maior vai ser a “necessidade de interagirmos com pessoas que pensam como nós, que agem como nós, que tenham as mesmas visões que nós”, e, consequentemente, mais relevante se vai tornar o setor dos eventos.


“Todas as previsões indicam que este setor vai crescer à volta de 19% até 2035”, indica. Contudo, “vai transformar-se” e, por isso, “é importante estarmos à frente e preparados para as transformações”. Nesse sentido, considera que o papel do congresso passa por ajudar as associações a prepararem-se para a mudança, equipando-as “para se transformarem sem dor" e ajudando-as a ultrapassar os medos associados à inteligência artificial.

Lembra os receios relacionados com a revolução industrial, os computadores ou os telemóveis, e que “a humanidade continua a superar-se”. Mas, ressalva, agora é necessário preparamo-nos, já que, desta vez, “as máquinas pensam e nós temos de andar mais rápido que as máquinas”.


Apesar das transformações tecnológicas em curso, Linda Pereira mantém a convicção de que o fator humano vai continuar a prevalecer. "Nós temos que correr à frente das transformações", afirmou, deixando uma última certeza sobre o caminho a seguir: "Não é mais tecnologia, é mais humanidade."

 

*A jornalista viajou a convite do Associations World Congress 2026

Associations World Congress 2026

© Maria João Leite Redação