Freelancers nos eventos: cinco conclusões de um setor à procura de novas regras
07-10-2026
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Confiança, legislação, formação, voluntariado, discriminação, flexibilidade e profissionalização – temas que envolvem a condição de freelancer no setor dos eventos.
Este foi um dos tópicos abordados no Congresso da APECATE, que decorreu em Leiria, a 1 e 2 de outubro. O painel ‘Freelancers nos eventos – pessoas, modelos de trabalho e sustentabilidade da indústria’, moderado por Sónia Brochado (APECATE), reuniu Belén Valentín-Gamazo (ADEAPE), Álvaro Covões (APEFE), Diana Figueirôa Alves (advogada), Andreia Viegas (freelancer) e Pedro Ramos (RXF).
Do debate, sobressaíram cinco ideias.
O freelancer já é um profissional – mas o setor ainda nem sempre o trata como tal
Uma das primeiras questões levantadas foi a própria designação. Álvaro Covões referiu não gostar da palavra ‘freelancer’. Na sua perspetiva, a expressão mais adequada seria “empresário em nome individual ou empreendedor”, porque quem trabalha desta forma pode estar a fazer uma escolha profissional consciente.
A ideia foi reforçada pela experiência de Andreia Viegas. Ser freelancer, explicou, não significa necessariamente viver numa situação permanente de instabilidade. Pelo contrário, quando existe experiência e reconhecimento no mercado, pode significar ter capacidade para escolher projetos, empresas e horários. “Se o projeto me interessa, faço, se o projeto não me interessa, não faço. Se eu gostei de trabalhar com aquela empresa, trabalho, se eu não gostei de trabalhar com aquela empresa, não trabalho mais”, afirmou.
Para Andreia Viegas, essa liberdade é precisamente uma das maiores vantagens do modelo: “Hoje em dia, posso dar-me ao luxo de escolher empresas com as quais gosto realmente de trabalhar, projetos e desafios que eu gosto realmente de fazer.”
O debate mostrou, contudo, que esta realidade convive com uma perceção ainda muito ligada ao trabalho temporário ou estudantil. E é aqui que surge uma das grandes necessidades do setor: reconhecer que há pessoas que fazem dos eventos uma profissão e não apenas um trabalho enquanto estudam. Como resumiu Álvaro Covões: “O freelancer é empreendedor.”
A legislação tem dificuldade em acompanhar a natureza dos eventos
Se há um ponto que atravessou praticamente todo o painel foi a ideia de que o modelo laboral existente não responde bem às características específicas dos eventos. A atividade pode ter semanas de enorme intensidade e outras com muito menos trabalho. Pode ser necessário mobilizar profissionais durante dois ou três dias, ou mesmo apenas algumas horas. E pode ser necessário fazê-lo rapidamente.
Pedro Ramos deu um exemplo particularmente expressivo da realidade da sua empresa: “Nas semanas de maior pico que temos, nós entregamos 26 eventos por semana. Na semana seguinte podemos apenas fazer três ou quatro. Como é que nós fazemos isto?”.
É precisamente esta irregularidade que torna difícil encaixar a realidade dos eventos em modelos pensados para atividades mais previsíveis. Para Álvaro Covões, “nesta área da legislação laboral, nós vivemos ainda no século XX, parece que estamos em 1975.” E apontou uma consequência que considera paradoxal: ao mesmo tempo que se fala de falta de mão de obra, continua a ser difícil criar mecanismos simples para pequenos trabalhos pontuais. “Muitas vezes, há pequenos trabalhos nos eventos – nos eventos e noutros setores – que podem ser feitos por estudantes”, referiu.
Diana Figueirôa Alves colocou uma possibilidade diferente sobre a mesa: uma solução específica para o setor, através de uma convenção coletiva. “Penso que aqui passaria mesmo por criar uma convenção coletiva, aplicável ao setor”, defendeu.
Mas António Marques Vidal, presidente da APECATE, presente na plateia, alertou para outro problema: a própria natureza transversal dos eventos torna difícil encaixá-los numa única tutela ou numa única categoria. “Nós somos uma construção de diferentes saberes e diferentes estruturas e, no fim, conseguimos produzir um evento”, recordou.
A conclusão é, portanto, menos sobre escolher uma solução concreta e mais sobre reconhecer o problema: o setor precisa de um enquadramento que compreenda a sua natureza irregular, transversal e altamente dependente de trabalho pontual.
A profissionalização passa pela formação e pela confiança
Para Andreia Viegas, uma das medidas mais importantes para tornar a indústria mais profissional e sustentável seria a formação. A razão é simples: muitos jovens entram nesta atividade sem formação específica e podem receber briefings muito diferentes – dos grandes, onde a informação está toda disponível, aos que contêm apenas a data e o local. “Se eu for um estudante que acabei de chegar, muito provavelmente vou deixar a empresa mal, porque eu não vou saber o que fazer.”
A solução, defendeu, passaria por as próprias empresas assumirem a formação como uma parte da profissão: “Acho que era importante as empresas todas unirem-se e tomarem a decisão de que realmente isto é uma profissão, independentemente de estarmos o tempo inteiro ou não, e haver formação e conhecimento de todos.”
A experiência espanhola apresentada por Belén Valentín-Gamazo apontou precisamente para a valorização da experiência e da formação. “A profissionalização do setor passa fundamentalmente pela formação e pelo reconhecimento da experiência”, frisou.
Mas existe uma segunda dimensão da profissionalização: a confiança. Andreia Viegas começou o painel por identificar “falta de confiança por parte de algumas empresas” em relação aos freelancers. Pedro Ramos colocou a questão do outro lado: o desafio é conseguir transmitir a cultura da empresa a alguém que não está diariamente dentro da organização. “A nossa maior dificuldade é como é que nós transmitimos a cultura do nosso negócio para esse freelancer que não está aqui connosco todos os dias”, explicou.
A confiança, portanto, não é um detalhe. É uma ferramenta de trabalho. Pedro Ramos resumiu essa ideia ao explicar como são escolhidos os profissionais: “A seleção é feita sempre na base da confiança.” E essa confiança tem de funcionar nos dois sentidos: a empresa deve confiar no profissional, e o profissional deve sentir que, mesmo sendo freelancer, tem apoio da empresa quando está no terreno.
Voluntariado e trabalho profissional têm de ter fronteiras claras
O tema do voluntariado reuniu uma posição consensual. Para os participantes, o voluntariado pode ter lugar nos eventos, mas não pode servir para substituir trabalho profissional. Álvaro Covões foi direto: “É um absurdo. O voluntário tem que ser remunerado, está a fazer um trabalho como outro trabalhador qualquer.”
Belén Valentín-Gamazo estabeleceu a distinção através da finalidade: “Se aporta valor, deve ser remunerado.” E acrescentou que o voluntariado tem de estar baseado em uma causa.
Diana Figueirôa Alves concordou, considerando que, quando alguém pretende entrar na área, aprender e ganhar experiência, “faz mais sentido uma figura de um estagiário”. Nesse caso, existe uma relação formativa que permite equilibrar a aprendizagem e o trabalho.
O debate revelou ainda uma preocupação com a falta de clareza existente nesta matéria. Segundo Diana Figueirôa Alves, há situações em que a legislação é omissa, criando um “vazio jurídico”. Mas, para Belén Valentín-Gamazo, a fronteira conceptual é simples: “Os voluntários não trabalham. Os voluntários ajudam, apoiam ou participam. Mas não trabalham.”
Andreia Viegas trouxe para a discussão a realidade económica de muitos dos jovens que participam nestas atividades. “Nós somos freelancers, as pessoas maioritariamente estão a estudar, têm de fazer o seu dinheiro, têm contas para pagar”, afirmou. Por isso, a sustentabilidade humana dos eventos não pode depender de pessoas que aceitam trabalhar sem remuneração apenas para conseguir estar dentro de um festival ou de um evento. A questão não é acabar com o voluntariado. É não chamar voluntariado ao que, na realidade, é trabalho.
O futuro passa por flexibilidade, mas também por responsabilidade
A quinta conclusão junta praticamente todas as anteriores: o setor quer mais flexibilidade, mas não quer – ou não deve querer – menos responsabilidade. Essa responsabilidade começa pela segurança. Para Álvaro Covões, “uma empresa responsável, independentemente de tudo, tem que fazer os seus seguros. Faz parte.”
Diana Figueirôa Alves chamou a atenção para situações em que o trabalhador não está devidamente enquadrado ou protegido. “Corre tudo bem enquanto não há um problema”, afirmou. Mas, quando existe um acidente ou outro problema grave, as consequências podem ser muito diferentes.
A responsabilidade passa também pela forma como as pessoas são escolhidas. O painel discutiu situações em que determinados briefings estabelecem critérios relacionados com idade, género ou aparência. Belén Valentín-Gamazo defendeu uma mudança de mentalidade: “Se queremos aportar valor de verdade à indústria, nós temos que deixar o tema da idade, o tema do sexo. Tem que ir mais além.”
Andreia Viegas lembrou que a proteção tem de existir também perante comportamentos inadequados. Um freelancer deve saber que pode denunciar uma situação desconfortável sem recear perder oportunidades futuras. E, aqui, a confiança volta a ser fundamental e as empresas devem mostrar que o freelancer “faz parte da equipa, está a representar a empresa, que tem os mesmos apoios e a mesma segurança, e que pode partilhar o que quiser e o que for desconfortável”.
No fundo, “nós não podemos vender excelência e comprar a precariedade”, sublinhou Pedro Ramos. É essa a equação que o setor tem pela frente. Os eventos precisam de pessoas disponíveis para responder a picos de trabalho, profissionais altamente especializados e equipas que possam ser montadas e desmontadas em função de cada projeto. Os freelancers procuram autonomia, liberdade e capacidade de escolher os trabalhos em que querem participar. As empresas procuram confiança, qualidade e capacidade de resposta. O desafio está em fazer estas três necessidades coexistirem.
Para isso, o painel apontou vários caminhos: formação, maior flexibilidade na contratação, melhor informação sobre os diferentes modelos de trabalho, profissionalização, representação associativa e maior clareza sobre o voluntariado. O certo é que o atual modelo não parece estar a responder inteiramente à realidade da indústria.
Como resumiu Diana Figueirôa Alves, é necessário “saberem o que é que estão a optar”. Quem escolhe ser freelancer deve conhecer as vantagens e responsabilidades desse modelo. Quem contrata deve respeitar a autonomia de um prestador de serviços. E quem trabalha por conta de outrem deve ter os direitos correspondentes.
No fundo, a discussão não é apenas sobre freelancers. É sobre que tipo de indústria de eventos se quer construir: uma indústria capaz de ser flexível sem ser precária, profissional sem ser burocrática e competitiva sem deixar de proteger as pessoas que tornam cada evento possível.

