Miguel Guedes: “O Coliseu está inscrito no coração das pessoas”

Entrevista

25-06-2026

# tags: Espetáculos , Venues , Eventos , Eventos corporativos

Entre a música, a comunicação social, o direito e a gestão cultural, o percurso de Miguel Guedes sempre se fez de vários caminhos em simultâneo.

Conhecido do público como vocalista dos Blind Zero, é hoje também o presidente da direção do Coliseu do Porto Ageas, uma das mais emblemáticas salas de espetáculos do país. Desde que assumiu o cargo, em 2022, encontrou uma instituição com desafios estruturais urgentes, decisões estratégicas por tomar e um futuro em aberto. Nesta entrevista, fala do caminho que o levou até ao Coliseu, da pressão dos primeiros anos, da decisão de evitar a concessão do edifício e da ambição de reforçar o papel do Coliseu como casa de espetáculos, espaço de encontro da cidade e também palco para novos eventos culturais, turísticos e corporativos.

Qual foi o seu percurso até à chegada ao Coliseu do Porto? Quais foram os marcos mais importantes?

É um caminho que é relativamente difícil de resumir, não é um caminho único. De alguma forma, apesar de serem muitas as atividades onde eu me vou envolvendo, acho que há uma ideia de transporte daquilo que eu sou para tudo o que faço. Já na universidade, tive uma espécie de estudo múltiplo, diversas disciplinas que não foram só Direito. Muitas coisas que tinham tudo a ver com cultura, com cinema, com centros cinematográficos, na rádio da Universidade de Coimbra, obviamente com uma banda que estava também a despontar, os Blind Zero. E, portanto, tudo começou a correr em simultâneo. Quando acaba o curso, percebi que não queria fazer tribunal, mas gostaria de estar ligado à propriedade intelectual. Os Blind Zero também estavam a acontecer, de uma forma até absolutamente pujante.

Foi uma altura absorvente, imagino…

Muito absorvente. O que na altura mostrava é que eu tinha, também, a capacidade de sofrer, porque não era fácil estar a estudar enquanto estava a fazer concertos [risos].

Quando saio [da Universidade] e começo a trabalhar na GDA [Gestão dos Direitos dos Artistas], esse é o meu percurso durante muito tempo, ligado aos Direitos Conexos, à propriedade intelectual, também a uma marca de cobrança de Direitos Conexos em todo o país. E é claro que fui trabalhando na comunicação social, com temas muito diversos, mas, sobretudo, ligados à política e ao desporto, e, concretamente, ao futebol, enquanto adepto do FC Porto. Escrevi no Público, também enquanto analista um bocadinho mais independente, durante muitos anos, mas foi este mix, sempre muito intenso, que me levou a determinada altura a receber o convite para estar no Coliseu, por parte de Rui Moreira, na altura presidente da Câmara Municipal do Porto, que me convidou para este desafio. O que transformou ainda mais a minha vida.

Embora não tivesse deixado de fazer nada do que estava a fazer, o Coliseu tem sido um pedaço de tempo total da minha vida. É como se, de repente, esta árvore fosse mesmo uma floresta, mas é uma floresta que abracei com enorme carinho, também com espírito de missão, procurando devolver um bocadinho ao Coliseu - e, portanto, à cidade - o que o Coliseu me deu sempre, a mim e a tantas gerações de portugueses que têm aqui vindo engrandecer-se há quase 85 anos.

Quais foram as ferramentas mais importantes que essas experiências todas lhe deram?

Acho que há sempre um desenvolvimento de paixão em todas as áreas. Acho que em nenhum momento senti, particularmente no Coliseu, que acordasse para trabalhar sem motivo. É profundamente apaixonante e desafiante e também sofrido, sobretudo no primeiro e no segundo anos, onde muitas decisões tinham de ser tomadas.

Acho que estes múltiplos trabalhos, estas múltiplas vontades, deram-me alguma capacidade de velocidade e de resistência à pressão. Julgo que perdemos muito tempo a pensar em fazer. Sou mais de acelerar os processos de concretização, mesmo que, por vezes, com isso, possamos não ter que fazer tão bem.

Mas o Coliseu vivia, nesse primeiro ano, uma enorme necessidade, do meu ponto de vista, de se posicionar rapidamente, em tempo recorde, num outro patamar. Sem o qual, nesta altura, julgo que já estaria nas mãos de outras pessoas, concessionado para fazer as obras de que tanto precisa e que vai fazer. Acredito também que, pelo facto de trabalhar com muitas pessoas em várias áreas, tenha mais portas abertas, que me permitiram falar rapidamente, quase em tempo de vertigem, com todas as pessoas com que era necessário falar para salvar o Coliseu daquilo que era um destino que parecia traçado, que era ser concessionado para, acredito, depois nunca mais voltar.

É possível resumir quais foram os principais desafios que identificou logo nesse arranque?

O Coliseu, um edifício na altura com 82 anos de existência, agora já quase com 85, sofria de patologias evidentes, do ponto de vista estrutural, que indicavam a necessidade absoluta de fazer obras estruturais, sem as quais nós não estaríamos aqui e o Coliseu já não estaria aberto. E, como tal, era preciso tomar uma decisão. Ou bem que o Coliseu do Porto era concessionado a uma entidade que ficaria com a sua concessão durante 20 ou 30 anos e estaria obrigada a fazer as obras de que o Coliseu necessita; ou então era o Coliseu que continuava com o destino nas próprias mãos e conseguia fazer as obras de que tanto necessitava.

Tive que estudar as duas plataformas em simultâneo. Estava a tentar encontrar os melhores exemplos de concessões a nível europeu, que me permitissem ter um caderno de encargos o mais rico e o mais capaz de, mesmo concessionando, continuar a manter algum interesse público no Coliseu e obrigar o concessionário, no fundo, a cumprir aquilo que nós chamaríamos um patamar de interesse público, de fazer espetáculos de todos os estilos, de todas as proveniências, que mantivesse esta utilidade pública do Coliseu. E que não permitisse que o Coliseu, já agora, fosse utilizado para outros fins, que não os de uma casa de espetáculos. E esse era um desafio suficientemente difícil, mas facilmente se percebe que a nossa opção sempre foi outra. Quando digo a nossa, é a minha e a de todas as pessoas que encaravam a concessão como uma possibilidade, mas a paixão era outra, era manter o Coliseu nas mãos da cidade, da região, da área metropolitana, com este sistema de governança. As pessoas confundem o Coliseu com uma entidade pública - que não é, mas quase. O Coliseu é do Porto, é do norte. O Coliseu, que terá sido a causa do último grande motim e revolução na cidade, onde as pessoas, há 30 anos - e nós comemoramos isso no ano passado -, se juntaram na Rua Passos Manuel para o salvar das mãos de uma congregação religiosa, que queria tomar o Coliseu para outros fins. E, por isso, todos nós tínhamos a noção de que era fundamental tentarmos, até ao final, que o Coliseu não fosse concessionado.



Esse foi então o grande desafio…

Este grande desafio podia sintetizar-se na necessidade de que todos os responsáveis assumissem a sua responsabilidade perante o Coliseu. O Coliseu, durante anos, durante décadas foi votado ao esquecimento, foi sendo o joguete político arremessado por diversas entidades na cidade e no país, mas nunca foi olhado com o interesse e com a obrigação pública de cuidado que deveria ter tido. E nós tínhamos este prazo limite e, felizmente, conseguimos evitar a concessão, inscrevendo as obras do Coliseu, no 2030, in extremis. Isso terá sido um dos dias mais bonitos da minha vida. Significava que esse grande objetivo tinha sido cumprido. Foi muito intenso.

Depois, olhar para as pessoas, que continuam a ser um conjunto muito curto de trabalhadores para a dimensão desta casa, mas que também estava com a vida profissional completamente estagnada há cerca de 13 anos e olhar para as pessoas, requalificá-las do ponto de vista salarial e de trabalho, foi também uma questão fundamental. Acabar com essa paralisia de um Coliseu que vivia completamente a sobreviver e sem conseguir respirar. Felizmente que isso se conseguiu também nestes três anos.

Depois, fazer obras, começando desde logo pelo telhado, que era o grande problema. Conseguimos mudar o telhado em tempo recorde. Era uma aspiração do Coliseu, pelo menos há uma década.

Depois, ainda, criar um serviço educativo. Essa foi, se calhar, a única condição que coloquei para aqui estar, porque achei que era impensável que uma instituição com quase 85 anos não tivesse um serviço educativo de referência, que também devolvesse às pessoas e à cidade grande parte daquilo que elas lhe trouxeram ao habitarem-no durante esses 85 anos. Era uma questão de responsabilidade social e também de reposicionamento do Coliseu. Nestes três anos de serviço educativo, além de ser também uma fonte suplementar de rendimento para o Coliseu, criaram-se programas extraordinários. O serviço educativo como um farol que apontasse aquilo que o Coliseu é: mais do que uma casa que recebe espetáculos ou faz espetáculos, é uma casa de conhecimento intergeracional.

E depois olhar para a programação, tomar algumas decisões sobre aquilo que, do nosso ponto de vista, interessava ter no Coliseu, mantendo sempre o referencial de utilidade e interesse público de fazer aquilo que outros não podem ou não querem fazer. Há coisas que só podem ser feitas aqui. Só nós temos dois fossos de orquestra que nos permitem ter óperas de grande porte. A Casa da Música não as pode fazer. Em Portugal, só pode fazer São Carlos e nós, mas nós temos que as fazer. E, eventualmente, até perder dinheiro ao fazê-lo.

O Coliseu sempre se inscreveu na geografia emocional das pessoas porque foi capaz de nunca subtrair esta dimensão de entrega de interesse público durante 85 anos. E não ia ser agora que o ia fazer, e espero que nunca ninguém permita que deixe de fazer. Isto é que torna o Coliseu especial, com este romantismo extraordinário de uma casa que está entre o privado e o público, quando no fundo está inscrito é no coração das pessoas, sem que as pessoas se apercebam verdadeiramente de que é uma entidade privada a fazer o máximo que pode pela cultura do país.

Aposta do corporate


Como é que é possível garantir uma vida mais estável, mais saudável, diversificando fontes de receitas? Abrindo o Coliseu a outros tipos de eventos, de iniciativas?

Julgo que é não defraudar aqueles que encaram o Coliseu como uma grande casa de espetáculos. Não estamos a falar de pavilhões, nem de centros de exposições, nem de lugares com gente. Casa de espetáculos. Teatro. O grande teatro do norte do país, um dos principais teatros nacionais. Segura-mente, o mais diverso de todos eles, o mais democrático de todos eles. Nós temos aqui coisas ab-solutamente populares e coisas absolutamente eruditas e acho que essa dimensão democrática é o nosso legado e é o nosso tesouro. Há espetáculos que, independentemente da sua qualidade, não têm dimensão de público para estar no Coliseu. E tenho que encarar isso de frente e depois encontrar soluções.

Uma das soluções que encontrei foi criar um Coliseu dentro do Coliseu, o Coliseu Box, que estreou há bem pouco tempo, no fundo, para combater o gigantismo do Coliseu, e procurar também respondermos a espetáculos de outra índole. Depois fazer do Coliseu um centro de visitas da cidade e aí a aproximação ao turismo e ao setor corporativo, que aqui tem um espaço privilegiado, monumental, diferenciado de todos os outros, para fazer as suas atividades, conferências, talks, seminários, apresentações e espetáculos. Criando aqui mais um venue, não para concorrer, mas para adicionar ao que me parece ser, nesta altura, uma escolha curta - pelo menos é isso que me transmite parte dos protagonistas do setor turístico e corporativo, que é estarmos condenados a ter dois ou três lugares para fazer as nossas coisas. Aqui, terão mais um ou dois, agora também com o Coliseu Box.

E, depois, um terceiro aspeto que é o trabalho em rede. O Coliseu tem que sair para a rua, não pode ser só uma casa de acolhimento onde as pessoas vêm ver espetáculos. Tem que comunicar, daí o serviço educativo e daí esta minha tentativa de chegar à fala e entregar o que é a nossa perceção do Coliseu à rede pública e privada da cidade e da região, estabelecendo parcerias, protocolos, cooperação, conhecimento e interesse por aquilo que é este novo posicionamento que o Coliseu indiscutivelmente tem que ter e merece. Não só à escala da cidade, da região, mas também à escala deste pedaço de terra: norte e Galiza. Não é à toa que, para o Coliseu Box, temos uma parceria com a Estrella Galicia, que se mostrou profundamente interessada na forma como estamos a desen-volver esta visão de espetáculos na região e a nossa ambição é adensarmos a ligação ao território, sendo que o nosso território tem que crescer para todo o norte do país e para a Galiza, do meu ponto de vista.



Quando falamos de obras, o que é que podemos esperar? Que transformações mais profundas vão acontecer neste espaço?

A nossa opção foi muito clara: não parar!, vamos a tudo o que é estrutural e exterior, vamos robustecer este edifício, vamos torná-lo mais inclusivo, mais moderno, vamos dar-lhe outro brilho, vamos torná-lo acessível a todos. Vamos ter elevadores que vão levar as pessoas [com mobilidade reduzida] a todos os patamares do Coliseu, vamos ter uma torre profundamente reabilitada, onde instalaremos muito provavelmente aquilo que será um museu do Coliseu, também com elevador que levará as pessoas a um sítio de visitação belíssimo, lá em cima, no alto da torre. Entendemos que temos espaços extraordinários na nossa cobertura para poder ter outra capacidade de corresponder a situações de lazer e de permanência, ou seja, não ser só um espaço de visitação, mas ser um espaço onde as pessoas possam ficar para comer, para tomar um copo.

Todo este espaço exterior cimeiro, desconhecido para muitos, será florescente daqui a dois anos. Teremos uma torre visitável, teremos todo o edifício intervencionado do ponto de vista estrutural e, quando digo todo, é muito grande, é um quarteirão quase de edifício, todo remodelado, teremos novas acessibilidades, novas casas de banho em todos os edifícios e teremos, e essa é a única intervenção dentro da sala mais forte, o teto todo reabilitado. É um trabalho de restauro patrimonial, muito cuidadoso, muito moroso e muito sensível e da maior responsabilidade. Estamos nesta altura a trabalhar no teto do Coliseu para que, já em agosto, possamos retirar a rede que, nesta altura, o envolve, vivendo de uma forma normal dentro da sala de espetáculos.

E qual é o investimento estimado?

Cerca de 2,5 milhões de euros.

Qual tem sido o feedback do Coliseu Box?

Tem sido magnífico. Não tínhamos propriamente expectativas, tínhamos uma enorme vontade de fazer desde o primeiro dia. Nunca me conformei pelo facto de não conseguir programar, e os promotores e produtores não conseguirem programar aqui no Coliseu, ainda em maior diversidade, procurando outros segmentos de mercado, tanto no setor turístico, como no setor de espetáculos, no setor corporativo. Sentia que a nossa dimensão, que é, de facto, a nossa grande valência, era, por vezes, um obstáculo. Sempre quis fazer esta sala, e ousadamente, porque não conheço nenhum exemplo, com esta história e esta dimensão, a intervir desta forma tão relevante dentro da sala. A expectativa única era que as pessoas olhassem para este objeto voador identificado e o olhassem como uma alternativa.

Depois da apresentação que fizemos, tivemos já a estreia. E temos mais seis ou sete datas marcadas para o Coliseu Box. o que é sinal de que ele, claramente, entrou na agenda das pessoas e na perspetiva de poder ser utilizado tanto na vertente mais tradicional, com um panejamento de flanela típico, criando uma box escura para 750 pessoas em pé, ou 400 sentadas, ou então na vertente mais multimédia.

O que gostaria que ficasse como legado desta responsabilidade tremenda de estar à frente de um espaço como o Coliseu?

Os legados têm muito a ver ou com algo que é material ou com algo que é uma perceção, e as perceções hoje estão ocupa-das por coisas terríveis. Não sei muito bem como é que o legado, o trabalho das pessoas, de quem quer que seja, será pensado no futuro mais próximo. Há coisas que são materiais. O redimensionamento do Coliseu, a reformulação do Coliseu, a obra física, visível, essa ficará, e é absolutamente necessária e indiscutível. O resto são questões imateriais que as pessoas tratarão como opinião, muitas vezes. Se há um legado que eu acho que todos nós deve-mos tentar nas nossas vidas, do ponto de vista daquilo que fazemos, é, tendo a sorte de fazermos aquilo que queremos, então fazermos mesmo com enorme paixão.

Dez perguntas a Miguel Guedes

1. Uma música que não se cansa nunca de ouvir?
O Thunder Road, do Springsteen.

2. Um espetáculo que o tenha marcado profundamente?
Os Pixies, aqui no Coliseu.

3. Um artista com quem gostaria de trabalhar, enquanto músico, e que ainda não teve essa oportunidade?
Quais, dos 300? [risos] Nick Cave.

4. Um artista que gostaria de ver atuar no Coliseu?
Tom Waits.

5. Palco ou plateia?
Palco.

6. Uma palavra que descreva o público do Porto?
Romântico.

7. Um ritual antes de entrar em palco?
Não tenho nenhum ritual.

8. Prefere trabalhar com música ou em silêncio absoluto?
Em silêncio absoluto.

9. Um lema pessoal, que o represente, de alguma maneira?
Gostando do que se faz, então, aproveitar esse momento e trabalhar com imensa paixão.

10. O Coliseu numa palavra?
Pode ser mais do que uma palavra? [risos] ‘É de todos’.

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