Os grandes eventos como fatores de transformação dos destinos

Notícias

17-04-2026

# tags: Eventos , Portugal , Destinos , Turismo de Portugal , Conferências

Grandes eventos são momentos de afirmação internacional, que podem, ao mesmo tempo, transformar os destinos onde acontecem.

Concertos, competições desportivas, encontros culturais ou gastronómicos atraem muitos visitantes e podem projetar internacional o país. ‘Podem os eventos transformar os destinos?’ foi uma das questões colocadas no Visit Portugal Conference 2026, que decorreu a 24 de fevereiro, em Lisboa, e à qual responderam vários players do setor.

No contexto do Autódromo Internacional do Algarve, que vai acolher o regresso da Fórmula 1 à região em 2027 e 2028, Jaime Costa, CEO do autódromo, acredita que este tipo de competições desportivas internacionais “têm um grande impacto na construção de algumas infraestruturas que ficam no país”, físicas e humanas, já que qualificam e especializam recursos.

Jaime Costa recorda um estudo da EY sobre o impacto económico do MotoGP na região, em novembro, que revela um “valor acrescentado bruto superior a 100 milhões de euros”, resultado da capacidade de atrair pessoas de 77 países diferentes, e fora da época alta. “São pessoas que gastam mais dinheiro do que o turista médio e ficam mais tempo”, refere, adiantando que estes eventos não são somente carros e motas. “São eventos de entretenimento puro, onde é crítico juntar a dimensão gastronómica, musical, cultural, e é isso que nós fazemos.” Também é preciso comunicar, percebendo quais os públicos-alvo, e trabalhar com operadores turísticos para a captação de novos visitantes.

Unir forças em todas as frentes


Também John Calvão, partner da Arrow, que organiza e produz grandes eventos, nomeadamente de golfe, defendeu que “fazer um evento, por fazer só um evento, não vale a pena” e que os eventos são feitos para trazer tudo o que vem à sua volta. Exemplifica com a F1, que é “uma corrida”, mas que à sua volta muita coisa acontece – uma verdade também noutros tipos de eventos. O da Arrow é o Portugal Invitational, do PGA Tour Champion, que vai atrair muitos visitantes e que vai ser visto por mais de 80 milhões de pessoas em 170 países. “Se não tivermos mais coisas à volta deste evento, não marca. O que é preciso ter é muito mais atividade a acontecer naquele local, naquela cidade, naquela zona e no país inteiro.”

©Turismo de Portugal

Portugal tem cada vez mais campos de golfe de prestígio, capazes de captar turistas com grande poder de compra. John Calvão lembra que “o serviço conta quase tanto como o campo de golfe”, pelo que é preciso continuar a investir – no serviço e no marketing, para chegar a mercados mais afastados, porque ficam mais tempo. Frisa ainda a necessidade de se pensar em grande.

O Rock in Rio é uma marca de projeção de grandes eventos musicais. Para Roberta Medina, vice-presidente executiva do festival, a reputação duradoura do evento deve-se à sua “cadência”. “É muito importante que nós tenhamos uma agenda constante e que não seja só sobre um evento”, afirma, acrescentando ser “fundamental que os grandes eventos sejam um holofote para as suas cadeias produtivas”.

Também a comunicação com os mercados que se pretendem atrair é crucial, tal como o trabalho em conjunto com todos os stakeholders. “Se toda a cadeia funcionar para fazer do evento um sucesso, para o evento e para a cadeia produtiva, vai ser mais fácil ganharmos dimensão e estabilidade internacional”, afirma, frisando que a soma das forças em todas as frentes é o que faz com que as cidades ganhem mais. “Nós abrimos uma porta, mas essa porta não se mantém aberta se não for o país e as várias forças, os vários empreendedores do país, trabalhando de forma coletiva.”

A literatura e o surf como fatores de promoção


A literatura também pode ser um instrumento de afirmação de um país. Rui Couceiro, comissário do Festival Babell, acredita que “a cultura pode jogar um papel absolutamente decisivo na afirmação de um território e no contexto da afirmação de uma identidade”. O modelo do Festival de Edimburgo, que congrega hoje 11 eventos, incluindo um de literatura, serviu de inspiração para o evento que vai acontecer no Porto em junho. “Acreditamos que é possível fazer essa afirmação do Porto enquanto cidade-livro, exportar a cidade através do corpo dos que nos vão visitar e da alma daqueles que estarão connosco”, indica.

O Festival Babell “nasce no coração da Livraria Lello” – que é, por si só, “um exportador da imagem de Portugal por excelência” – e pretende ser uma forma de mostrar o que temos de melhor no país, também no capítulo dos livros. E, para isso, a colaboração entre todos os intervenientes é chave.

Nos últimos anos, o surf também se tornou numa grande indústria em Portugal. Para Francisco Spínola, general manager EMEA do World Surf League, que tem etapas em águas lusas, os eventos “têm trazido imensa gente, imensos turistas, imensa notoriedade a Portugal”, lembrando, por exemplo, como os eventos de surf transformaram Peniche. O facto de Portugal ter uma costa muito recortada, com todo o tipo de ondulações e de ventos, além do fator proximidade, é uma “vantagem competitiva”.

©Turismo de Portugal

E os surfistas são os melhores promotores do que temos para oferecer. Francisco Spínola lembra também a Nazaré e Garrett McNamara, que “fez a maior onda do mundo e Portugal passou a ser o Everest do surf mundial. Ninguém sabia e a onda rebentava ali há milhões de anos…”.

O valor da gastronomia portuguesa


Também a gastronomia é um bom fator de promoção. “Há poucas formas de cultura tão poderosas como a gastronomia”, que é algo que nos define enquanto país, já que “Portugal é um país à mesa” onde a comida é história e património, aponta Gonçalo Castel-Branco, produtor executivo do Chefs on Fire, que define como “um churrasco de família”, onde não falta autenticidade.

Além disso, a história que o Chefs on Fire conta tem “um DNA 100% português. Nós estamos a contar aquilo que é importante e aquilo que é verdadeiramente Portugal”. Uma história que é contada dentro de portas, mas também em Madrid, São Paulo, Grécia e Maldivas. “Em todos estes sítios, o que temos é não só uma marca portuguesa criada em Portugal, como temos a comida portuguesa com um enorme palco”, frisa.

Gonçalo Castel-Branco destaca ainda a importância do Turismo Portugal, que “tem sido, na gastronomia, não só em eventos, instrumental em apoiar, em ter visão de longo prazo”, tentando “criar uma visão e uma experiência integrada ao longo do ano inteiro”. Todos os participantes sublinharam o apoio crucial do Turismo de Portugal, um parceiro importante em todos os projetos.

Orgulho, colaboração e storytelling


A fechar, como é possível fazer mais e melhor? Todos concordam que Portugal tem um posicionamento forte, mas ainda com margem para evoluir. Jaime Costa aponta que devemos ter “um grande orgulho” na capacidade organizativa do país, sublinhando o reconhecimento internacional e a presença de profissionais portugueses em grandes eventos globais. E John Calvão defende que o foco deve estar menos na venda de ativos e mais na promoção da experiência e do destino como um todo.

A necessidade de colaboração e conhecimento mútuo foi apontada por Rui Couceiro, tal como Roberta Medina, que volta a reforçar a ideia da “força do ecossistema”, sublinhando que o sucesso depende da articulação entre todos e que Portugal reúne condições únicas para se afirmar internacionalmente.

Francisco Spínola destaca a importância de garantir estabilidade através de contratos plurianuais, essenciais para competir no mercado global. Uma ideia aprovada por Gonçalo Castel-Branco, que relembra o papel do storytelling. “Se nós pararmos de ser tímidos, se nos apaixonarmos pela nossa história e se a contarmos a plenos pulmões, com rigor e com qualidade, as pessoas apaixonam-se por ela sempre”, conclui.