Primavera Sound Porto: “Somos um festival de música”

Entrevista

08-05-2026

# tags: Festivais , Eventos , Primavera Sound

José Barreiro, diretor do Primavera Sound Porto, defende um festival focado no conforto, na curadoria e na sustentabilidade ambiental.

O Primavera Sound Porto “é um festival de música”. A frase, repetida por José Barreiro durante a conversa com a Event Point, resume a visão de uma organização que, ao fim de 14 anos, acredita ter consolidado um lugar distintivo no panorama dos festivais em Portugal.

Para o diretor do festival, o segredo esteve na persistência. “Acho que é a perseverança que nós temos, desde 2012, em acreditar que temos um festival diferente dos outros”, afirma. Pelo caminho, houve “tempestades com nome”, cancelamentos de artistas e anos mais difíceis, mas a organização nunca deixou cair a ambição de construir “um produto de excelência”.

Hoje, essa identidade parece consolidada. José Barreiro fala de um público fiel, heterogéneo e exigente, que procura uma experiência diferente daquela que tradicionalmente se associa aos festivais de verão. “A média de idade está nos 38 anos”, revela, explicando que o Primavera Sound Porto conseguiu criar “um festival para toda a gente”.

Um festival pensado para adultos — sem excluir ninguém

O conforto foi, desde o início, uma prioridade estratégica. A experiência acumulada em Paredes de Coura ajudou a moldar a visão para o Porto.

“Quando viemos para o Porto queríamos fazer um Paredes de Coura para adultos”, explica José Barreiro. A lógica era simples: criar um festival urbano, sem campismo, capaz de trazer de volta públicos que tinham deixado de frequentar festivais por falta de condições.

Essa preocupação continua presente na operação do evento, desde os acessos às casas de banho até às filas na restauração. “Nós privilegiámos desde a primeira hora o conforto das pessoas”, sublinha.

Segundo o responsável, essa aposta acabou por criar um público transversal, onde convivem gerações diferentes, atraídas por uma programação que mistura artistas históricos com nomes emergentes. “Conseguimos com alguns nomes atrair público dos 16 aos 20 e com outros nomes no mesmo cartaz atrair públicos acima dos 40.”

A curadoria continua a ser um dos maiores desafios do festival. A relação com a estrutura internacional do Primavera Sound Barcelona obriga a adaptar o alinhamento artístico ao contexto português. “Temos que fazer aqui uma versão especial, gourmet, do festival de Barcelona”, diz José Barreiro.

O objetivo passa por equilibrar renovação geracional com memória musical. “Temos que mostrar às pessoas, principalmente aos jovens, que a música que ouvem atualmente também tem correspondência no passado.”

Esse equilíbrio implica risco. “Uns anos resulta, outros não”, admite. Ainda assim, a organização acredita que o público reconhece o esforço de manter “um padrão de qualidade”.


José Barreiro 

O Parque da Cidade como desafio permanente

A ligação ao Parque da Cidade é vista como um dos grandes trunfos do festival, mas também como uma fonte constante de complexidade operacional. “É muito mais fácil fazer num terreiro plano um festival do que fazer em três anfiteatros”, admite José Barreiro.

Ao longo dos anos, a organização investiu, em conjunto com a Câmara Municipal do Porto, na adaptação e melhoria dos espaços utilizados pelo festival. Mas existe uma preocupação permanente em minimizar o impacto ambiental e logístico sobre o parque.

Nesse contexto, a colaboração com outros grandes eventos realizados na mesma zona — como a Queima das Fitas do Porto e o Festival Comida Continente — tornou-se fundamental. “Nos últimos três, quatro anos, temos conseguido otimizar imenso essa relação com os outros promotores”, refere. O objetivo é simples: evitar redundâncias logísticas e reduzir a pegada ecológica. “Se calhar conseguimos reduzir 20% ou 25%” do movimento de camiões e fornecedores, afirma.

Patrocínios: “A parte mais difícil”

Se a curadoria é desafiante, a captação de patrocinadores é, segundo José Barreiro, “neste momento, a parte mais difícil do Primavera Sound”. O facto de o festival acontecer no Porto continua a ser uma limitação. “80% ou 90% das grandes marcas têm sede em Lisboa”, explica.

Ao mesmo tempo, a organização procura manter um posicionamento muito próprio na relação com as marcas. “Nós somos um festival de música”, insiste. Essa visão traduz-se numa política rigorosa sobre ativações e experiências comerciais dentro do recinto. “O nosso público tem que se dirigir à marca, não é a marca que vai ter com o nosso público.”

Segundo José Barreiro, algumas marcas estranham essa abordagem, habituadas a formatos promocionais mais invasivos. Ainda assim, acredita que o perfil do público do festival acaba por atrair parceiros alinhados com essa filosofia. Entre os exemplos destacados estão marcas como Vodafone, Revolut e PreZero.

Sobre esta última, José Barreiro destaca o trabalho desenvolvido na área ambiental. “Estamos a trabalhar o Road to Zero Waste no festival”, explica, referindo um processo de certificação ambiental apoiado pela empresa.

Tecnologia ao serviço da experiência

A tecnologia é outra das áreas onde o Primavera Sound Porto quer continuar a evoluir. José Barreiro explica que já existem soluções aplicadas à gestão de fluxos de público, acessos a bares e zonas sanitárias, mas admite que ainda há margem para crescer.

“A tecnologia ajuda muito a que as pessoas tenham uma experiência melhor”, diz. O objetivo passa por utilizar informação em tempo real para distribuir melhor os públicos pelo recinto e evitar concentrações desnecessárias. “Não estejas nesse bar, que está uma fila enorme, quando tens um bar a 15 metros que está vazio.”

Custos, inflação e um mundo “muito volátil”

A instabilidade económica internacional é outro dos temas que preocupam a organização. “Desde 2019, a subida média andará nos 30% em custos de produção”, revela José Barreiro. Combustíveis, transportes, estruturas, madeira, ferro e cachets artísticos: tudo aumentou. Ao mesmo tempo, a organização sente limites claros na capacidade de aumentar preços dos bilhetes num país com salários médios abaixo da média europeia.

“Temos este compromisso social”, afirma. “Não podemos inflacionar preços de forma a que só uma elite possa vir ao festival.” Apesar das dificuldades, José Barreiro acredita que o futuro do Primavera Sound Porto passa por continuar a melhorar sem perder identidade.

“Aquilo que eu gostava de assistir era, acima de tudo, uma consciência ambiental cada vez maior”, diz, deixando também um apelo aos artistas internacionais para reduzirem a dimensão das produções e o impacto ecológico das digressões. Quanto ao festival, a ambição é clara: continuar “cada vez mais um festival de referência daquilo que é música passada, presente e futura”.

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