Entrevistas

Karla Campos: “A música é a única coisa que me faz parar e ouvir-me”

Karla Campos nasceu no Brasil e, apesar de ter também nacionalidade brasileira e de ter vivido no país irmão durante alguns anos, assume que tem um coração português.

A passagem pela área da publicidade e pelo Pavilhão Atlântico contribuiu para a paixão pelos eventos. Hoje é o rosto por trás da Live Experiences e dos projetos EDP Cool Jazz e ID No Limits.

Qual foi o seu percurso até chegar à Live Experiences?

A minha atividade profissional começou no Brasil, país onde nasci, mas vim muito pequena cá para Portugal. Depois do secundário, e de ter estado a viver em Londres, onde fiz uma série de cursos de aviação comercial, fui para São Paulo e trabalhei durante muitos anos no turismo: na VARIG e em várias agências de turismo. Entretanto, descobri que a área que gostaria de estudar era a de gestão de empresas, curso que fiz lá. Com o curso quase no fim, fui trabalhar para o Sistema Refeição Convénio, os cartões refeição. No total, estive à volta de oito anos em São Paulo, entre 1986 e 1993. Depois de me ter formado em gestão, e por causa da instabilidade, cheguei à conclusão de que não era o país para continuar a viver, apesar de ser brasileira. O meu coração era mais português.

De que forma essa experiência no Brasil a marcou?

O Brasil acrescentou‑me bastante. É uma sociedade completamente diferente da nossa. Deu‑me uma grande experiência, uma forma de estar na vida. Foi um bom arranque para começar a minha vida pessoal e profissional, mas, tendo a oportunidade de voltar e de viver numa sociedade mais equilibrada, acabei por escolher voltar. Portugal também estava a entrar num caminho bem melhor nos anos 90.

Veio para Portugal e teve logo oportunidades de trabalho?

A minha mãe trabalhava em publicidade e dizia‑me que eu tinha muito perfil para trabalhar nessa área. Comecei a trabalhar numa empresa de publicidade, entretanto casei‑me, e passado dois anos e tal tive a minha primeira filha. Como sou muito focada e workaholic acabei por me dedicar muito ao trabalho. Entretanto, tive uma outra filha e comecei a perceber que isto com duas filhas era muito complicado. Fiz um ano sabático e não voltei para a publicidade. Comecei a fazer alguns trabalhos na área enquanto freelancer, e depois surgiu um convite para trabalhar no Pavilhão Atlântico, como diretora de marketing. Estive lá cerca de dois anos. Foi um projeto de que gostei muito, foi muito interessante, por ali passou tudo: eventos corporativos, de música, eventos religiosos, todo o tipo de eventos, e foi uma excelente oportunidade. Fiquei a pensar no que se seguia e criei o que é hoje o EDP Cool Jazz.

Foi aí, no Pavilhão Atlântico, que nasceu a paixão pelos eventos?

A agência de publicidade onde estive, HPP Comunicação, foi uma das pioneiras numa forma de trabalhar a publicidade que se chama marketing direto, que comunicava one‑to‑one. Começava a falar‑se em experiências, e isso também se pode fazer através dos eventos, e fizemos alguns eventos em que o objetivo era esse, o de surpreender. Gostava muito de fazer eventos.

E em que fase é que entra a música? Como é que as duas coisas se misturam?

A ficha cai exatamente no período em que estive no Pavilhão Atlântico. A música sempre esteve dentro de mim, quer pelo lado da minha mãe, quer pelo lado do meu pai, que são pessoas extremamente animadas, positivas, sempre receberam muitas pessoas em casa. Esse espírito nós vivemos sempre. Quando passo pelo Pavilhão Atlântico vejo que é possível viver em termos profissionais da cultura, ser produtora. Na altura, era o Mega Ferreira que estava na Parque Expo, um homem que tinha uma ligação à cultura incrível, e ele incentivava‑nos muito a trazer cada vez mais espetáculos para o Pavilhão Atlântico para termos mais pessoas a passar pelo espaço, sendo uma forma de irmos buscar patrocinadores. Comecei a perceber aquela dinâmica toda e a perceber o papel do promotor, do agente cultural, do artista, do agente e a pirâmide toda desta atividade. Quem é quem, onde é que está, o que é que faz. No Pavilhão Atlântico comecei a participar em algumas feiras, a ir para fora em congressos e comecei a pensar: isto é a minha praia. E comecei a fazer uma série de coproduções com os que hoje são os meus concorrentes ‑ às vezes concorrentes, às vezes parceiros, depende da perspetiva em que nós estamos a trabalhar. Agora que estamos no meio de uma pandemia estamos super unidos.

Quem é que a inspirou neste percurso?

Inspirou‑me a passagem pelo Pavilhão Atlântico. Inspirou‑me muito a própria Expo98, ver aqueles pavilhões, a transformação para o que veio a seguir. A minha mãe, que me põe na publicidade ‑ e aí aprendi esta nova forma de surpreender, as experiências, as tendências dos próximos 20 anos ‑ sempre foi a minha fonte de inspiração. O marido dela, que já não está cá, o meu segundo pai. A base da minha família, das pessoas que me rodeiam sempre foram o meu porto seguro. As pessoas que me dão a força e me orientam. E a música, a única coisa que me faz parar e ouvir‑me. Traz‑me ao presente, faz‑me sentir o momento e dizer a mim própria para onde quero ir.

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A contratação dos artistas é o maior desafio

Depois surgiu o EDP Cool Jazz. Nessa altura achou que estava a entrar numa atividade maioritariamente masculina?


Qual é a atividade que não é maioritariamente masculina?

A grande maioria dos promotores são homens…

São todos homens. Eu e a Roberta Medina somos as únicas mulheres promotoras de festivais. É difícil, é muito difícil.

Em que é que isso se traduz, para quem não viveu isso na pele?

Por exemplo, neste momento da pandemia, se os jornalistas querem saber a opinião dos promotores sobre determinada regra, lei, decisão do Governo, primeiro chamam os homens.

Qual foi o acolhimento quando apresentou o EDP Cool Jazz?

Estes projetos de festivais, concertos, são conteúdos para as câmaras municipais e para o turismo. Um turista vem a Portugal e é importante que haja uma programação cultural. Este é um conteúdo que agora já começa a ter a sua importância, mas mesmo assim é difícil. Nós não recebemos nenhum dinheiro do Turismo de Portugal, nem mesmo para a promoção dos festivais lá fora e nas redes sociais para ajudar a trazer os turistas para cá.

Mas o EDP Cool Jazz tem feito uma curva ascendente em termos de receção de turistas estrangeiros?

Sim, cada vez mais. Num estudo que a Associação de Turismo de Cascais mostrou, as pessoas compram as viagens porque querem vir fazer alguma coisa, querem fazer uma combinação e sem dúvida a música e a experiência de um festival são cada vez mais uma combinação.

Com a criação do EDP Cool Jazz criou a Live Experiences?

Não, já tinha a Live Experiences, que fazia eventos na área corporativa, eventos de arte, e dava apoio a eventos da agência de publicidade onde eu tinha trabalhado. Como a HPP Comunicação não tinha constantemente eventos, então acabei por ser uma prestadora de serviços de cada vez que havia a necessidade de eventos. Abri a empresa por esse motivo. Entretanto, fiz um interregno quando me chamaram do Pavilhão Atlântico. Suspendi a empresa e quando acabou o projeto do Pavilhão Atlântico voltei a abrir a empresa.

Neste momento a empresa tem mais projetos próprios do que para terceiros?

Só temos dois projetos, o EDP Cool Jazz e o ID No Limits.

A propósito de uma ideia pré‑concebida de que a cultura não dá dinheiro, e que não é rentável, como é que olha para esse preconceito?

Falo da cultura ligada à música. Com a música é mais fácil, é barato comprar música, é mais acessível. É a arte mais acessível. Em Portugal, com a ligação a patrocinadores ela torna‑se rentável. As marcas aperceberam‑se de que todos querem ouvir música. A música descontrai, neutraliza‑nos, tira‑nos da chatice, dos problemas, é uma linguagem universal. A maioria das pessoas não pode dizer que não se sente bem a ouvir música. Se proporciona bem‑estar, as marcas querem estar associadas à música. A música consegue essa ligação emocional com o consumidor. Por isso é que se vê as marcas todas, de alguma maneira, a querer uma ligação à música. E quando descobrem como, não largam. Nós, que fazemos festivais ou promovemos concertos, estamos de mãos dadas com as marcas. Tal como os artistas que também estão de mãos dadas com os promotores. Onde eles estão a ganhar maior margem de lucro é a fazer concertos, porque a margem de lucro que eles tinham nos discos, já não têm. Para os artistas são cada vez mais importantes os concertos ao vivo. Estamos todos amarradinhos. Só que depois o artista é um, e nós somos muitos. Somos todos atrás de um artista.

Esse é o maior desafio? A parte da contratação?

É! É uma lotaria. Cada artista que um promotor consegue é como ganhar uma lotaria. Funciona por ofertas e há um roteiro geográfico. Pode dar‑se muito dinheiro, mas se o artista já está a vir para as nossas bandas, e eu dou uma oferta que até calha bem naquele ‘buraquinho’, está feito. Não é só o dinheiro, é também o roteiro.

Com que antecedência começa a preparar uma edição?

Um ano. Eles estão sempre a pré anunciar tournées e mandam‑nos emails para começarmos a planear.

Nos dias do evento, quantas pessoas tem a trabalhar consigo?

Podemos chegar às 250. Funcionários fixos somos quatro, depois é tudo outsourcing. No quartel‑general somos 8 a 10 (assessoria, redes sociais, agência criativa) e, claro, depois vem o palco, a segurança, etc., e chegamos a ser 250‑300, depende do tamanho do concerto.

Gosta mais dessa fase de planeamento ou dos dias do evento?

Eu gosto de A a Z. Sou control‑freak. Desde o imaginar, planear, orçamentar, montar, implementar, do terreno, até andar a ver se as coisas estão a ser feitas como as idealizamos na fase da estratégia e planeamento. Acontece muitas vezes no terreno as coisas não funcionarem como idealizamos e temos de, no acontecimento, ajustar. No terreno há muito ajuste, sempre. E tem que se resolver.

Ainda sente aquela paixão inicial pelo trabalho?

Em janeiro de 2020, vim do Brasil e dizia “tinha ficado lá mais tempo”, “não me apetece nada trabalhar”. Quando cai a Covid, o que é que eu fui dizer… Em certa parte, uma pessoa não pode continuar mais assim e já chega disto, mas fez‑me muito bem, dado o aceleramento de trabalho e as mudanças que tive nos últimos anos. Foi bom parar um bocado, repensar, e ver as coisas de outra maneira. Parece que o meu corpo estava a pedir: “pára”. Mas também não era preciso tanto. Estou a trabalhar neste projeto só por paixão e coração.

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“Pesadelo é não trabalhar”

E entretanto veio a pandemia… como é que foi esse choque inicial?


São dois anos sem trabalhar. É impossível trabalhar nesta situação. Isto acaba por cair porque os artistas começam a cancelar. A tournée tem uma viabilidade financeira e se alguns países, antes de mim, começam a cancelar, a tournée deixa de ser viável para o agente e para o artista. E nós, quando anunciamos um artista, já lhe pagamos uma parte. Se eu já lhe paguei, e ele diz que quer fazer no ano seguinte, e eu também já recebi dinheiro dos bilhetes que foram postos à venda, adiamos. Portanto, é copy paste. Graças a Deus tenho as minhas finanças organizadas, tenho uma estrutura fixa pequena, e estou a beneficiar do layoff transversal, a única coisa de que beneficiei, porque de resto nada. Abdiquei do escritório também, um espaço que eu adoro, mas espero, assim que isto volte ao normal, regressar. Estamos junto do Governo, desde setembro, a mostrar que podemos fazer eventos em que as pessoas estejam vacinadas, ou façam um teste antigénio.

E qual tem sido o acolhimento do Governo?

Estamos à espera de quando podemos fazer o evento‑teste [n.d.r. entrevista efetuada antes do anúncio das datas dos eventos‑teste]. Disseram que enquanto houver estado de emergência não nos deixam fazer estes testes‑piloto, o que é uma estupidez. Vai ser tudo testado.

O que é que estes eventos‑teste permitiriam para este ano? Ainda dá para fazer alguma coisa?

Nós se quisermos fazer eventos, podemos fazer, mas com 50% de lotação. E com essa lotação ninguém faz dinheiro. É impensável. Queremos fazer este testes‑piloto, em que todas as pessoas vão ser testadas, mas vão estar com máscara na mesma. Quinze dias depois vão outra vez fazer um teste e vamos tentar provar que ninguém saiu contaminado por ter estado nos eventos. Por isso, devolvam‑nos 100 % de lotação para a cultura, para os eventos, para os concertos. E depois isto pode aplicar‑se a um sem número de atividades. Entretanto, saiu uma lei que nos obriga a devolver o dinheiro dos bilhetes. Eu já estou a devolver dinheiro dos espectadores do ID no Limits. O Governo disse que ia fazer uma linha de crédito com juro bonificado. Não vi a linha de crédito até agora e já estou a devolver dinheiro.

Para vocês promotores, o que era preferível, que essa devolução fosse adiada como se fez em 2020?

Exatamente.

E imagine que corre tudo bem com os eventos‑piloto, isso vai ser um pesadelo logístico nos eventos, testar tanta gente?

Pesadelo é não trabalhar. Essas organizações são a nossa vida.

E como é que imagina que serão os festivais em 2022?

Vai haver diferenças, com certeza. Desde logo, esta questão de as pessoas apresentarem algo à porta, um teste ou a vacina. A própria leitura do bilhete pode ter integrado o teste ou o passaporte verde de que se fala na União Europeia.

E em 2022, acredita que os artistas já vão querer andar em tournée?

O que está a acontecer é exatamente isso. Os artistas estão a avançar com as datas todas para 2022. O processo de entrega e distribuição das vacinas, pelo menos na Europa mais desenvolvida, está a acontecer, embora haja o alerta de que é importante o mundo todo estar vacinado para que isto efetivamente pare.

Sendo os vossos eventos em 2022, se os eventos‑teste correrem bem, pensa introduzir algum conceito novo para este ano?

Se nos deixassem trabalhar, nos dessem mais lotação, se a vacinação também corresse bem, e o Governo passasse confiança às câmaras, criava um projeto com artistas nacionais e fazia. Os artistas nacionais querem trabalhar.

Tem receio de depois não ter gente para trabalhar nos eventos?

É viciante esta área, é divertida, acredito que alguns, que foram para melhor, com certeza que não voltam, mas quem esteja em situações chatas, é provável que volte. É preciso é abrirem as portas.

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Dez perguntas a Karla Campos

Jazz ou Pop?
Jazz.

Sítio para viver?
Cascais.

Refúgio de férias?
Carrapateira.

Artista que mais admira?
Jamie Cullum.

Agente que mais respeita?
Todos.

Concerto de uma vida?
John Legend, em 2013.

Tripas ou percebes?
Percebes.

Livro de cabeceira?
O Poder do Agora.

Melhor lugar para ouvir música?
No carro, a viajar, mas eu a conduzir.

Uma experiência que ainda está na lista de desejos?
México, quero ir ao México.

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Cláudia Coutinho de Sousa
Fotos: ©António Camilo

 

 

Tags: Karla Campos, EDP Cool Jazz, Festivais

31-05-2021