Opinião

Lockability

Setor, área, dimensão, negócio, segmento, especialidade.

Definir o território dos eventos corporativos parece ser uma tarefa difícil, mas certamente não será liderada por quem não faz parte da koiza. Fazer parte da nação dos eventos requer um claro conhecimento das tribos que a formam, diferentes em especialidade e muitas complementares na operação. Na verdade, a maior parte das tribos já se conhece, partilham recursos, trocam membros, almoçam juntas. A conexão existe e, mesmo num mercado relativamente pequeno, esta crise demonstra que o mais importante ainda falta. Uma crise (qualquer uma) tem esta dolorosa competência de extremar juízos, palavras, feitios, decisões. E isso só acontece quando somos confrontados com regras que não conhecemos, quando somos apanhados desprevenidos, quando não sentimos algo em que nos apoiar. Não me refiro apenas ao momento pandémico atual. Na crise da década passada, os eventos corporativos também sofreram com as desmarcações dos eventos nacionais e também o turismo viu canceladas as suas robustas reservas MICE. Naquela altura, muitas marcas fecharam, algumas reinventaram‑se e outras simplesmente apertaram o cinto. Mas algo chamou‑me a atenção: na retoma daquela crise parecia que nada havia ocorrido, tamanha era a gana de “voltar ao normal”, celebrar a retoma, ganhar o próximo pitch. Confesso que não vi a união (ou revolta partilhada, talvez) que agora se revela. E isso é uma dor boa. Ironicamente, este afastamento por decreto mostra‑nos que estarmos juntos enquanto setor é um dos maiores desafios a superar. Toda a nação requer uma fundação ou ordem de base, capaz de orientar e promover quem dela faz parte, mas também de definir a sua cultura e propósito. Vejo que um grupo incrível de profissionais que admiro estão a tomar esta iniciativa.

eventpoint revista eventos

A Festa do Avante, o Cubo Mágico ou a Feira do Livro foram eventos presenciais coordenados por profissionais e os seres humanos que lá estiveram na categoria “público” ou trabalham numa empresa ou prestam algum serviço a alguém. Também os jogos de futebol “experimentais” são um exemplo de ativação de marca, apenas vestindo a camisola de um lobby claramente mais influente. Nas mesmas condições e com a criatividade que nos dá prémios internacionais, qualquer um destes eventos poderia ser realizado numa dimensão corporate. Um evento em torno da cultura corporativa de uma marca ou de partilha com os seus seguidores também é um evento cultural. Não faz qualquer sentido a divisão de águas num mesmo oceano dedicado a motivar pessoas em torno de objetivos comuns. Se uma marca apoiar uma instituição cultural, faz‑se evento. Se a mesma marca fizer uma convenção ou ativação, mesmo que um dos seus KPI’s estratégicos assente na sustentabilidade ou missão social, já não pode.

A legislação é um bingo que nunca alinha com as reais necessidades de quem está a viver um momento dramático da sua vida, com riscos e consequências que vão muito para além do apanhar um vírus. Não se pode justificar decisões generalizadas para coisas diferentes ou decisões diferentes para coisas iguais. Se a retoma económica precisará de anos, não haverá “bazuca” que chegue para colmatar o impacto psicológico de uma gestão tão pouco humana ou mesmo decente.

O Rui Ochôa pediu‑me uma foto para este artigo. Penso que as “black boxes” no Terreiro do Paço merecem toda a nossa atenção. Foi uma das primeiras e mais poderosas ativações de marca dos profissionais do sector. O propósito está claro. Resta‑nos sair da caixa.

 

Zezo Carvalho, People & Culture Energizer

Tags: Mercado, Eventos, Organizadores de Eventos

29-06-2021