Timor Leste entra numa nova fase de desenvolvimento turístico

Entrevista

11-02-2026

# tags: MICE , Eventos , ATF , Turismo , Destinos

Timor Leste é o mais recente membro da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), cujo encontro dedicado ao turismo (ATF 2026) decorreu em Cebu, nas Filipinas, no final de janeiro.

A entrada na ASEAN ocorreu a 26 de outubro de 2025, tornando-se o 11.º membro e alcançando a sensação de pertença regional. Mais do que um marco diplomático, António da Silva, diretor-geral do Turismo no Ministério do Turismo e Ambiente de Timor Leste, entende que, para o setor turístico, a integração na ASEAN significa uma transformação estrutural.

Para António da Silva, a autenticidade “real, sem filtros e artifícios” é hoje um bem raro no mercado turístico global. E Timor Leste tem isso em abundância. Está no coração do Triângulo de Coral e é casa para 1.200 espécies de peixes de recife e mais de 400 espécies de corais; proporciona mergulho, observação de baleias e outras experiências em águas que permanecem “praticamente intocadas”; soma 2.448 espécies de flora e fauna; tem o Monte Ramelau, pico com 2.963 metros, para trekking; artes tradicionais, que incluem cestaria intrincada, escultura em madeira, cerâmica e têxteis com reconhecimento da UNESCO; além da mistura de tradições indígenas, influências coloniais portuguesas e herança católica, música e dança tradicionais. E o café – o ‘Híbrido de Timor’, uma variedade própria.

“Enquanto nos esforçamos para continuar a oferecer um produto turístico autêntico, também estamos comprometidos com os princípios da ASEAN de preservar, conservar e promover os nossos patrimónios naturais, culturais e históricos”, garantiu António da Silva, na sessão de apresentação.

“A cooperação entre nações é muito importante”


Pertencer à ASEAN vai “aumentar a nossa capacidade e elevar a nossa meta de desenvolvimento económico. A ASEAN é um grande mercado e há um alto potencial para investimento”, especialmente para o turismo, considerou António da Silva, em entrevista à Event Point, lembrando que as viagens intra-ASEAN são “bastante elevadas”.

Para o responsável, “a cooperação entre nações é muito importante, não só em termos económicos, mas também políticos”. Timor Leste entrou para a “família ASEAN, que é uma das maiores regiões económicas do mundo”, e como membro mais recente tem agora de “trabalhar arduamente” para alinhar a política e a legislação com a da ASEAN.

“No que diz respeito ao turismo, temos seis ou sete normas com as quais precisamos de nos alinhar, o que não é fácil. Temos capacidade para isso, mas leva algum tempo”, reconheceu, destacando o total apoio do secretariado da ASEAN em todo o processo. Os passos estão a ser dados com tempo, mas há um cronograma para cumprir. E, seguindo a ordem alfabética estabelecida, Timor Leste vai acolher o ASEAN Tourism Forum já em 2029. “Não falta muito, mas estamos a trabalhar arduamente nisso.”

O país vai reforçar as competências técnicas e profissionais dos trabalhadores de turismo. Para tal, vão ser lançadas duas iniciativas: o Programa Embaixador do Serviço de Turismo, de formação contínua, e a revisão e atualização dos currículos do setor, para que estejam em conformidade com os padrões da ASEAN.

Com a adesão à associação, Timor Leste conta com uma série de recursos para a promoção do destino, passando também a usar o logótipo de turismo do Sudeste Asiático, além da presença nos canais de comunicação da ASEAN. Esta integração vai permitir ainda a participação em circuitos multi-destinos, viagens sem interrupções que combinam vários países da região.

Novo centro de conferências com abertura prevista para 2028


Atualmente, Timor Leste conta com vários hotéis de grande dimensão com espaços para reuniões e com o Centro de Congressos de Díli, propriedade do governo. “É um edifício histórico, era um mercado durante a época portuguesa. Agora, estão a expandir as suas estruturas”, contou António da Silva. O venue, dependendo do formato do evento, consegue acomodar entre 400 e 500 pessoas.

O responsável reconhece a necessidade de aumentar a capacidade, até pelos padrões para eventos MICE da ASEAN. “Há certificações que precisamos ter, como certificação de segurança alimentar, de engenharia, de recursos humanos, incluindo também gestão do local, recolha de lixo, padrão de eletricidade”, referiu.

Assim, na altura da adesão à ASEAN, Timor Leste deu também início à construção de um novo Centro Internacional de Conferências no antigo porto de Díli, que, de acordo com o responsável, vai contar com salas de conferências, auditórios, áreas de exposição e comodidades de lazer, e que vai estar apto para acolher cerca de duas mil pessoas. A inauguração está prevista para 2028, a tempo de acolher a cimeira das nações do Sudeste Asiático no ano seguinte.

Destino com enorme potencial


Timor Leste aposta em vários segmentos: para os que viajam para bem-estar, para fins educativos, para os que procuram mergulho, snorkeling e atividades de observação de baleias, para os que privilegiam a história, e também para os viajantes MICE.

Atualmente, Timor Leste recebe cerca de 30 mil visitantes por ano, “com uma infraestrutura turística modesta, mas em crescimento”. O potencial é “enorme” e António da Silva adianta que existem inúmeras oportunidades de investimento e incentivos. Contudo, a ideia é que haja um equilíbrio entre a capacidade do destino e a entrada de visitantes, no sentido de que se mantenha a qualidade da oferta e de se ir ao encontro das expectativas de quem visita. Caso contrário, a imagem do destino pode sair prejudicada, alerta.

Em termos de conectividade aérea, Timor Leste conta com 31 voos internacionais diretos, por semana, para Darwin (Austrália), Xiamen e Fuzhou (China), Bali (Indonésia), Kuala Lumpur (Malásia) e Singapura, realizados por cinco companhias aéreas: Aero Dili, Air North, Batik Air, Citilink e Qantas. E outros voos diretos estão a ser trabalhados. O turismo de cruzeiros está também a ser melhorado.

No que toca ao alojamento turístico, o destino tem atualmente cerca de 2.400 quartos. Duas novas propriedades de luxo (Palm Springs Hotel e JL World Hotel) adicionaram, no último ano, 200 quartos de qualidade à oferta hoteleira, além de espaços para reuniões. “Reconhecemos a necessidade de aumentar tanto a capacidade como a qualidade das nossas acomodações turísticas para apoiar o crescimento sustentado do turismo”, reconheceu António da Silva, na sessão de apresentação.

À Event Point, o responsável frisou a ligação histórica entre Timor Leste e Portugal e referiu que há um número considerável de visitantes portugueses ao país, apesar de não estar entre os principais mercados emissores. E recordou ainda a grande comunidade de países da região com ligações a Portugal, como as Filipinas, Malaca, Jacarta, Indonésia e Macau.

 

 

*A jornalista viajou a convite da ATF 2026

© Maria João Leite Redação