O que aprendemos quando deixamos de fazer as coisas como sempre fizemos?

Opinião

23-10-2026

# tags: Agências , Comunicação , Eventos , Tecnologia

E se aquilo que sabemos fazer muito bem deixar de ser necessário amanhã? É uma pergunta desconfortável. E cada vez menos hipotética.

Comecei como designer de comunicação, numa altura em que uma prova de cor fazia parte do processo, a paginação ocupava horas e muitas das ferramentas que hoje fazem parte do nosso quotidiano profissional ainda não existiam. O mundo profissional mudou bastante desde que comecei.

Entretanto, algumas dessas tarefas foram automatizadas, outras desapareceram e eu própria fui mudando com elas. Passei da paginação à coordenação de equipas e, mais recentemente, a um território cada vez mais digital, entre conteúdos, estratégia e novas formas de comunicar.

Quando olho para esse percurso, percebo que evoluir nunca foi simplesmente aprender coisas novas. Foi, sobretudo, aprender a levar comigo aquilo que já sabia e encontrar novas formas de o aplicar. E esta experiência não é só minha. À medida que as profissões mudam, todos temos de encontrar formas de adaptar aquilo que sabemos a novas ferramentas, novas funções e novas maneiras de trabalhar.

A experiência não perde valor porque a ferramenta muda. Pelo contrário. Quanto mais depressa mudam os processos, mais importante se torna aquilo que não vem pré-programado: o olhar, o critério, a memória, o sentido crítico e a capacidade de relacionar informação e compreender o contexto. Mas a experiência também se constrói na relação com os outros: na forma como trabalhamos em equipa, como ouvimos um cliente, como comunicamos e como aprendemos a ler diferentes situações. Tudo isso nos ajuda a perceber onde é que o nosso contributo pode realmente acrescentar valor.

A tecnologia está a transformar profissões inteiras. O que demorava horas pode hoje acontecer em minutos. Processos completos podem ser automatizados. E funções que conhecíamos há anos estão a ganhar novas dimensões.

Mas talvez a verdadeira mudança esteja menos naquilo que as ferramentas conseguem fazer e mais naquilo que nós podemos passar a fazer com o tempo e a capacidade que elas nos devolvem.

É aí que a adaptação ganha outro significado.

Adaptar não é correr atrás de todas as novidades. Não é dominar cada nova ferramenta assim que aparece, nem abandonar tudo aquilo que aprendemos antes. É manter a curiosidade suficiente para experimentar, o discernimento para escolher o que acrescenta realmente valor e a disponibilidade para continuar a aprender. É, sobretudo, não ficar preso à forma como sempre fizemos alguma coisa apenas porque funcionou até aqui.

Num momento em que falamos tanto sobre as competências que poderão desaparecer e as novas competências que teremos de adquirir, talvez estejamos a esquecer uma das mais importantes: a capacidade de transitar entre umas e outras.

Não sei exatamente como será o meu trabalho daqui a dez anos. E já não vejo isso como uma incógnita assustadora. A verdade é que nenhum de nós sabe exatamente como será o seu trabalho daqui a dez anos. E talvez tenhamos de começar a olhar para essa dinâmica como parte natural da nossa vida profissional.

A competência mais importante para o futuro será a capacidade de continuar a aprender, de manter a curiosidade e de evoluir com aquilo que ainda não sabemos, mas estamos disponíveis para descobrir.

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