Reportagens

Recursos humanos: um capital a valorizar

São a força de um projeto, de uma empresa.

Os recursos humanos, no sentido de capital humano, são os motores dos diferentes barcos que vão cruzando oceanos de desafios. E há muitos desafios nos setores do turismo de lazer e de negócios e dos eventos. Mas para as pessoas também. Independentemente das suas competências, nem sempre os recursos humanos se sentem valorizados, o que leva muitas vezes a que o talento escape das empresas.

É um mundo competitivo, este. E a competitividade pode ser um desafio, pois exige profissionais “com um leque de competências que se integram nos domínios dos ‘saberes’, do ‘saber fazer’ e do ‘saber estar’”, refere o presidente do Fórum Turismo 2.1, que organiza a Bolsa de Empregabilidade.

No entender de António Marto, “algumas das mais importantes e mais valorizadas competências passam pela capacidade de comunicação, capacidade de trabalho em equipa, autonomia e gestão de pessoas”. No domínio das soft skills, “quanto maior for a capacidade de responsabilidade, espírito crítico e construtivo, positivismo, inteligência emocional, capacidade de empatia e confiança, melhor e mais rapidamente se dá o sucesso do profissional”.

O responsável acredita que as empresas valorizam a formação em turismo e em eventos, mas lembra que, para além da formação académica, as empresas tendem a valorizar outro tipo de conhecimento, o que é obtido pela experiência. “Saber fazer aprende‑se em sala de aula, mas é no ‘campo de combate’ que é testado o que realmente se sabe”, frisa, adiantando que “é preciso adaptar a formação às reais necessidades das empresas para que as mesmas consigam dar valor à formação”.

Trabalhadores satisfeitos podem ser sinónimo de maior rentabilidade e entrega. Há quem veja a valorização dos seus recursos humanos uma mais‑valia para o sucesso da empresa e esses casos de sucesso poderiam servir de inspiração às empresas dos setores do turismo e dos eventos, defende António Marto, que lembra que essa valorização não passa só pelo aumento salarial, mas “pelo reconhecimento transmitido em palavras, pela aceitação das ideias do colaborador na decisão e pela passagem de responsabilidades”. Afinal, quem não gosta de ser reconhecido e valorizado?

A Event Point falou com responsáveis de três agências para perceber que competências valorizam, a importância que é dada à formação contínua dos seus recursos e o que fazem para reter o talento na empresa.

Rui Carreira - KriaEventos

Que tipo de competências procuram nos profissionais dos eventos?

Procuramos pessoas que não tenham medo de sair da sua zona de conforto, confiantes, com empatia e que consigam produzir eventos de cabeça para baixo!

Na questão ‘experiência vs. em formação’ o que privilegiam?

Acreditamos que tem de haver um mix. A irreverência e novas visões sobre o mundo dos mais novos deve apoiar a assertividade e know‑how dos mais velhos.

Que importância dão à formação contínua dos vossos recursos humanos?

Todos os dias é uma aprendizagem, cada projeto promove essa formação contínua, a interação da equipa...Ainda assim, os momentos de formação com ajuda externa são sempre bem‑vindos e de grande riqueza, pois permitem ter uma visão fora do nosso dia a dia nas mais variadas matérias.

Onde procuram os recursos humanos? Noutras agências, nas escolas, através de anúncios...

Recentemente abrimos uma vaga para gestor de projeto e começámos por avaliar a base de dados que temos de candidaturas espontâneas que nos vão chegando quase diariamente. No entanto, comunicámos ainda nas nossas redes sociais, como o Linkedin, Instagram e Facebook.

Como fazem para reter o talento na agência?

Através do reconhecimento e valorização das pessoas. Todos fazem muito, muitas vezes prejudicando a sua vida privada e isso muitas vezes não tem preço. Este tipo de envolvência e dedicação é o que faz uma grande equipa e grandes equipas produzem grandes eventos.

Ana Fernandes - Eventors’ Lab

Que tipo de competências procuram nos profissionais dos eventos?

Diversidade nas competências – esse é o ponto fulcral. Por isso, raramente procuramos alguém que tenha uma formação específica na área. Preferimos alguém que tenha licenciaturas mais abrangentes. E depois mais algum tipo de especialidade, consoante o que estamos à procura. Como trabalhamos com clientes tão diversos, preocupa‑nos muito mais que quem trabalhe connosco tenha uma cultura geral bastante abrangente e que consiga chegar aos diferentes tipos de clientes que temos do que propriamente alguém que tenha uma formação específica.

Na questão ‘experiência vs. em formação’ o que privilegiam?

Depende do que estamos à procura. Para algum tipo de projeto ou de cliente, a experiência pode ser um ponto fulcral; para conseguirmos chegar a outro tipo de públicos, como os millennials ou gerações seguintes, se calhar temos de ir à procura de recursos humanos que tenham essas competências, e por aí os recém‑licenciados que têm menos experiência. Há também uma vantagem nesses recursos humanos, é que podemos moldá‑los ao nosso perfil e àquilo que esperamos deles. E isso também é um desafio aliciante.

Que importância dão à formação contínua dos vossos recursos humanos?

Bastante. Esse é um ponto importante, porque a experiência profissional e pessoal tem de ser acompanhada de formação ao longo da vida. E se calhar essa é muito mais importante. Por isso volto à minha questão inicial. Preferimos pessoas que tenham licenciaturas ou formações académicas mais gerais, que possam depois ir tornando mais específica ao longo do tempo, do que aqueles que já vêm com uma formação muito específica, muito orientada, e que depois será mais difícil trabalhar noutras áreas.

Onde procuram os recursos humanos? Noutras agências, nas escolas, através de anúncios...

Recebemos sempre muitos estagiários. E temos tido muita sorte, porque temos acabado por ficar com eles ou, se não de uma forma efetiva, pelo menos em termos de projetos e de trabalho. Essa tem sido a nossa forma de recrutamento mais eficaz. E nós também procuramos. Há algumas escolas que procuramos e mostramos interesse em estagiários, porque reconhecemos também a qualidade dos cursos.

Como fazem para reter o talento na agência?

Com os projetos que vamos tendo, tentar sempre que eles próprios se sintam parte da casa e sintam que a empresa é parte deles. Quando as pessoas sentem que estão em casa, mais dificilmente têm motivação para sair. Mas isso é sempre algo importante a reter.

Duarte Sacadura - Botte Mustard

Que tipo de competências procuram nos profissionais dos eventos?

Se estivermos a falar na área de contacto, procuramos pessoas com know how na área, com excelente network, dinâmicos e com vontade de trabalhar. É uma área que tem muitas especificações e que é necessário conhecer muito bem.

Na questão ‘experiência vs. em formação’ o que privilegiam?

Tem de haver um equilíbrio, mas a experiência é muito importante.

Que importância dão à formação contínua dos vossos recursos humanos?

A formação é o dia a dia no terreno e toda a envolvência desta área. Com a experiência diária ganham mais conhecimento.

Onde procuram os recursos humanos? Noutras agências, nas escolas, através de anúncios…

Em empresas da área.

Como fazem para reter o talento na agência?

Através de vários fatores: felicidade e bom ambiente na agência, projetos novos e desafiadores, objetivos com incentivos.

 

O Forum Turismo 2.1 organiza, há já quatro anos, a Bolsa de Empregabilidade, uma feira que promove o emprego de jovens formados na área do turismo e de profissionais que procuram novas oportunidades. Na última edição, onde estiveram 70 empresas empregadoras presentes, houve mais de dez mil ofertas de emprego.

Aos que procuram emprego na área, mas também sucesso e reconhecimento, António Marto deixa alguns conselhos:

‑ Faz trabalho voluntário, ele vai trazer ganhos profissionais a longo prazo;

‑ Traz sempre contigo a tua atitude mais positiva – a atitude é o reflexo de quem somos e da forma como nos sentimos;

‑ Começa cedo a fazer a tua rede de contactos e o teu lóbi pessoal;

‑ Trabalha na tua atitude comercial para te conseguires “vender” – procura ser comercial desde o pequeno‑almoço ao copo do final de dia;

‑ Deixa a tua marca e não te esqueças que, por todo o lado, estás a ser observado;

‑ Faz muito com pouco – quem contrata admira esta capacidade;

‑ Sê resistente, pois as portas fechadas são como degraus, servem para subir;

‑ 5 segundos de boa energia, 15 minutos de conversa – os cinco segundos de contacto inicial são decisivos;

‑ Um bom approach para não cair no ridículo – é fundamental estudar a pessoa com quem vamos falar e perceber pontos em comum é um bom ponto de partida para abrir a conversa e torná‑la mais amigável.
 

Maria João Leite
Foto: fernandozhiminaicela

 

 

Tags: Recursos Humanos, Eventos

02-08-2019