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A hotelaria, os eventos e a retoma da confiança

Uma conversa com Mariana Lacerda (Grupo Pestana), Mário Azevedo Ferreira (Grupo Nau) e Pedro Ribeiro (Dom Pedro Hotels).

A hotelaria é um dos setores bastante afetados pela pandemia. O panorama atual é complicado e nem o segmento dos eventos corporativos e das reuniões, que é uma componente importante nos hotéis, consegue alavancar a recuperação. Porque está tudo parado, como foi dito nas Conversas da Event Point – série Regresso ao Futuro!, dedicada ontem à hotelaria. Entre diferentes cenários, uns mais otimistas do que outros, há quem acredite que o setor MICE só vai retomar em 2022 e quem considere que os eventos e congressos vão regressar, mas só quando houver uma retoma da confiança.

Mariana Lacerda, responsável de Operações no Porto do Grupo Pestana, Mário Azevedo Ferreira, CEO do Grupo Nau, e Pedro Ribeiro, diretor comercial do Dom Pedro Hotels, foram os convidados da sessão de ontem promovida pela Event Point. Os responsáveis dos três grupos hoteleiros retrataram o atual momento do setor, contaram o que tem sido feito nestes momentos de incógnita e perspetivaram o que pode trazer o futuro incerto.

Os grupos hoteleiros contam com várias unidades espalhadas pelo país e apostam em diferentes segmentos. E se o segmento do lazer poderá ter uma retoma mais rápida, nos hotéis citadinos, onde os eventos corporativos têm um peso significativo, o problema é grande. “Tudo o que é MICE não vai acontecer em 2021”, considerou Pedro Ribeiro, acrescentando: “Penso que o MICE só deverá acontecer em 2022. Isto vai trazer realmente problemas graves, essencialmente para os hotéis de cidade”, os que apresentam infraestruturas para dar resposta à procura neste segmento. Mas “estamos numa fase de grande incerteza ainda”, ressalvou o diretor comercial do Dom Pedro Hotels, para quem é importante manter o otimismo e olhar para o futuro, preparando ações para a recuperação.

Por seu lado, Mário Azevedo Ferreira considera que a retoma da confiança e a remoção das restrições de viagens são dois dos fatores que vão determinar o modo como vai decorrer o próximo ano. E apontou os dois cenários, com que está a medir atividade. Num cenário mais positivo – que indicaria o início do processo de vacinação em dezembro e, no início de março, a redução significativa do impacto da pandemia, a retoma da confiança e a remoção das restrições de viagens – seria também “expectável” que os eventos também regressassem em força às unidades do Grupo Nau, que conta com dois centros de congressos, na Herdade dos Salgados e em São Rafael, e com infraestruturas em todos os hotéis para reuniões de diversas dimensões. E, a partir daí, “uma maré de reservas”. No sentido contrário, um outro cenário indicaria que tudo isto será adiado alguns meses. “E é altamente provável que assim seja”, referiu o CEO do Grupo Nau, que considera esse atraso “crítico, porque significa que não vamos ter um março com muitos golfistas, que não vamos ter um abril e um maio já com alguma retoma do setor dos eventos”.

Mesmo em tempos de incerteza, há uma coisa que é certa: “os eventos são muito significativos para nós.” No entanto, toda a atividade deste segmento está parada e sem perspetivas de recomeço. “A nossa espectativa não é de que haja uma retoma enquanto não houver uma retoma dessa atividade por parte das empresas. As empresas hoje em dia não se reúnem; reúnem-se através das ferramentas que nós próprios estamos a utilizar neste momento [as digitais].” O segmento dos eventos tem um peso significativo na faturação do grupo, pelo que o responsável considera crítico que a retoma da confiança possa ter impacto na vontade das pessoas e das empresas “de voltarem às suas rotinas habituais, quer pessoais, quer empresariais, porque nada substitui o contacto entre as pessoas”. E acrescentou: “Os congressos vão regressar, os eventos empresariais vão regressar, e vão regressar quando houver retoma da confiança.”

 

Adiamentos atrás de adiamentos

Mariana Lacerda começou por retratar o ano de 2020, que se perspetivava “como um dos melhores anos de sempre”. Depois do bom arranque do ano, da paragem e da retoma, há uma nova paragem, estando agora mais ou menos no ponto em que estavam em março. Para a responsável de Operações no Porto do Grupo Pestana, nos destinos de cidade o desafio é total, “porque efetivamente, ao nível dos negócios e daquilo que são os eventos corporativos, que alimentam as receitas dos hotéis de cidade”, o cenário está em suspenso.

Além do que pode ser feito em termos de controlo de custos, adaptação dos recursos humanos, entre outros fatores, Mariana Lacerda considera importante também ter produtos adaptados ao momento. “Tem-se falado muito das reuniões híbridas, dos eventos em ambiente digital, que são uma resposta e são um caminho, mas não é o caminho”, ressalvou, acrescentando acreditar que tudo voltará ao que era, “o desejo de acolhimento e a necessidade de experiências únicas vai sempre existir”.

A componente dos eventos “compreende uma fatia gorda das faturações dos hotéis”, particularmente nos hotéis de cidade. No momento, os eventos estão cancelados ou em adiamento constante. Contudo, a responsável de Operações no Porto do Grupo Pestana acredita que serão os eventos sociais os que vão “descolar” mais rapidamente. “Sentimos que se houver essa possibilidade, se se abrir essa possibilidade, os eventos e as pessoas vão querer realizar as suas comemorações particulares e privadas, e isso será claramente um bom pronúncio para as nossas operações”, concluiu.

Das três regiões onde opera o Dom Pedro Hotels, há duas em que os eventos ganham especial importância: Vilamoura – “um grande polo” para congressos nacionais e internacionais, onde tem “existido adiamentos atrás de adiamentos” – e em Lisboa, onde o panorama também está cinzento. “Toda esta área que anda à volta dos eventos, dos grupos corporativos e também dos grupos de lazer, vai ser, na minha opinião, realmente o último segmento, infelizmente, a arrancar”, adiantou Pedro Ribeiro.

A sessão de ontem das Conversas da Event Point – série Regresso ao Futuro! pode ser vista aqui.

 

 

Tags: Eventos, Hotelaria, Corporate, MICE

18-11-2020

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