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A união faz a força

O mercado brasileiro de eventos e viagens corporativas sucumbe à pandemia e descobre o valor associativo e da solidariedade.

Dizem que mar calmo não faz bom marinheiro e que é na dificuldade que se conhecem os verdadeiros amigos. Se tem uma coisa que a pandemia mostrou a todos, indistintamente, é que a união é que faz a força.

União tanto de concorrentes de um mesmo mercado como de pares da indústria dos eventos, que como num passe de mágica viram-se juntos no mesmo barco. Ainda que sob isolamento social, o atual momento de incerteza demonstrou fortemente a interdependência do setor, da economia, dos mercados económicos, dos países e também dos seres humanos.

Contudo, se são as pessoas o ativo mais importante dos eventos, tanto nos bastidores como na plateia, é certo que são elas o motor a fazer funcionar a máquina de solidariedade que atravessará a crise imposta pelo inimigo invisível.

As associações profissionais e entidades representativas foram as primeiras a demonstrar sua relevância num momento em que empresários precisam de voz junto ao governo.

A Ampro – Associação de Marketing Promocional foi uma das primeiras entidades a oferecer aos seus associados, já nos primeiros dias de março, uma entrevista com um dos mais renomados médicos epidemiologistas, sobre a situação dos eventos já programados.

Entretanto, a velocidade com que o vírus se alastrava motivou novas medidas, e em consonância com o governo do estado de São Paulo, a entidade orientou o adiamento dos eventos agendados para o primeiro semestre. Para ajudar empresários confusos com questões contratuais e incertezas administrativas de seus negócios, a entidade vem promovendo lives e papers com advogados.

Segundo o presidente, Alexis Pagliarini (foto acima), “o desespero dos donos de agências motivou-nos a ajudá-los com orientações de aspectos relacionados com a lei do trabalho, do teletrabalho, e com as subtilezas de decisões jurídicas e de segurança de dados, quebra de contratos e cancelamentos e como dividir o prejuízo”.

Se num primeiro momento o impacto é direto nas empresas organizadoras, em seguida há a reação em cadeia nos fornecedores.

“O efeito dominó é irreversível e neste sentido, temos também assinado pedidos ao governo, insistindo em dinheiro subsidiado para ter fôlego durante os meses sem trabalho”, afirma Pagliarini.

Os pedidos estão a ser feitos em conjunto entre várias associações e instituições, cobrindo não só a área de eventos corporativos, mas também os festivais, o live marketing e também o mercado da comunicação publicitária.

Pagliarini reitera que neste momento é preciso que haja um governo garantidor pois embora estejam a prometer verbas que serão distribuídas ao setor através dos bancos, estes não podem fazer avaliações de crédito de maneira normal, pois os donos de agências neste momento, com os eventos cancelados ou adiados, não têm como oferecer garantias de pagamentos futuros, justamente por não saberem quanto tempo durará a crise.

Outra reivindicação das entidades é quanto aos impostos, para que sejam prorrogadas as datas de pagamento, ou que sejam transferidos para um período depois da crise, quando as empresas já tiverem a retoma confirmada.

Além disso, o governo também pode ser um catalizador das ações de saída da crise uma vez que num futuro breve pode patrocinar eventos, incentivar a cultura através de leis de incentivo e ser um mecenas do setor abrindo os cofres públicos e ajudar na retomada das atividades do mercado de eventos.

Garantir a sustentabilidade do setor

A ABEOC – Associação Brasileira de Empresas de Eventos é outra entidade que está a apoiar os seus associados, oferecendo orientação para casos específicos, e juntando-se às principais associações da indústria de viagens e turismo nas reuniões e negociações com o governo federal (Ministério do Turismo, da Saúde e da Economia) e governos estaduais, como o de São Paulo, para que sejam adotadas medidas que garantam o mínimo de sustentabilidade para o setor neste período delicado, difícil e desafiador imposto pela pandemia que paralisou as viagens em todo o mundo.

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A presidente da entidade, Fátima Facuri, ressalta a importância desse momento, “Estamos conscientes de que as medidas não-farmacológicas recomendadas pelo Governo Federal e decretadas por muitos dos Estados e Municípios brasileiros visam conter o avanço do coronavírus, a exemplo do que acontece pelo mundo fora. Mas, as medidas sanitárias, infelizmente, não estão sendo acompanhadas de medidas económicas que resguardem os setores, principalmente os vitalmente atingidos, como o de eventos.

“São centenas de feiras, congressos, competições, espetáculos e afins a serem canceladas e adiadas, gerando prejuízos incalculáveis para as empresas e, obviamente, para a economia nacional. O impacto deste momento de grave crise mundial ainda não pode ser medido, mas já mostra a sua dura face com a possibilidade de extinção de postos de trabalho, por exemplo. Não estamos, de forma alguma, colocando em dúvida a urgência dessas medidas. Pelo contrário, prontamente apoiamos as recomendações e determinações”., afirma Fátima Facuri, Lembre-se que o setor no Brasil representa 12,93% do PIB nacional e gera 25 milhões de empregos.

Como diretora da Open Brasil Promoções e Eventos, com mais de 18 anos de experiência neste segmento, sendo que organiza grandes feiras comerciais próprias, nos segmentos farmacêutico, estética e cosmética, Facuri acrescenta que ainda não é possível medir os prejuízos pois além dos eventos não acontecerem por cancelamento ou adiamento, vários que já estavam montados, prontos, tiveram que ser desmontados.


Feiras de negócios: prejuízo brutal

As feiras, grandes aglomerados de público, foram das primeiras a sofrer o efeito da pandemia no Brasil.

Em novembro passado a UBRAFE – União Brasileira dos Promotores de Feiras apresentou um estudo de Impacto Económico das Feiras. O contributo para a economia brasileira era na ordem dos 53 mil milhões de euros, o equivalente a 4,6% do PIB Nacional.

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Armando Mello, presidente da UBRAFE 
 

Como é sabido, a realização de uma feira de negócios envolve a mobilização de uma centena de outras atividades que englobam desde a infraestrutura física, até os serviços de transporte, gastronomia, hospedagem, logística, promoção, marketing e pessoal, além de outras específicas de cada setor. Considerando os adiamentos do primeiro semestre, onde se concentram 55% do total de feiras no Brasil, o prejuízo da paralisação já é de 29 mil milhões de euros.

A entidade que reúne associados responsáveis pela realização de mais de duas mil feiras apela à união na busca de soluções para a recuperação do setor.

Numa nota distribuída recentemente, a entidade afirma que “todos são perdedores! Hoje é preciso tirar os olhos dos interesses individuais e colocar os olhos no futuro; sem um tempo presente responsável, caminhamos para um futuro cheio de incertezas, mas temos absoluta certeza de que todos nós desejamos participar de um mercado maduro e responsável”.

A mensagem prossegue enfatizando que “está na hora de colocarmos o bom senso em primeiro lugar e discutirmos a cadeia produtiva, os seus impactos e o papel de cada um desses atores, num teste de partilha e de esforço coletivo, e juntos atravessaremos a crise e venceremos esta difícil batalha.”

 

Rose de Almeida

Rose de Almeida é blogger e empreendedora do setor MICE. É meeting planner na CPL Meetings & Events. Mora em Lisboa e faz a ponte entre Portugal e Brasil promovendo conhecimento, relacionamento e negócios entre os dois países

 

 

Tags: Brasil, Covid-19, Associações, Eventos, Feiras

03-04-2020