Entrevistas

Não há impossíveis para a Europalco

No ano que marca os 20 anos da Europalco, estivemos à conversa com Pedro Magalhães.

No ano que marca os 20 anos da Europalco, estivemos à conversa com Pedro Magalhães, no Intercontinental do Estoril. Na agenda, repassamos o percurso desta empresa, olhamos para o mercado e para o futuro do sector.

A Europalco cumpre 20 anos. Como nasceu este projecto?

Nasce de uma brincadeira, que de ano para ano se tornou mais séria. Já trabalho nesta área desde os 16 anos, e por isso já são 30 anos de profissão. Não sei fazer mais nada, apenas isto. (Risos).

Qual foi a melhor decisão que tomou nestes 20 anos?

A Europalco começou como uma empresa de estrada, que dava o apoio técnico às bandas. A melhor decisão que tomamos foi quando reconhecemos que tínhamos que evoluir e dar uma oferta completa ao cliente. Quando houve esta percepção, a capacidade de torná‑la real foi a chave para o sucesso. O país é muito pequeno, não é como o mercado estrangeiro, onde as empresas se especializam numa área. Em Portugal temos que ter uma oferta muito global. Provavelmente, essa terá sido a melhor decisão no negócio.

Neste percurso, quais foram os desafios mais importantes da vida da Europalco?

Passamos por um período de muito agitação na tecnologia e a Europalco soube sempre acompanhar muito bem essas evoluções. Este é um negócio difícil, a evolução é constante e nós, ou temos capacidade de acompanhar essa velocidade, ou temos a capacidade de fazer diferente. Acho que a Europalco teve a felicidade de conseguir ambas as coisas. Por outro lado, as pessoas dentro da organização estão também preparadas e sensibilizadas para o facto de estarmos numa actividade que todos os dias muda.

Cresceram em 2016, como vê agora o sector?

A grande preocupação, ano após ano, é fazer igual, ou melhor. A Europalco tem crescido todos os anos. O ano em que tinha crescido mais foi 2011. Este [2016] bateu os recordes todos: crescemos 48%.

Como se explica crescer em 2011, em plena crise? Mantiveram os investimentos?

Acho que temos tido alguma sorte, temos investido nas coisas certas. Não têm havido flops e isso também ajuda muito. Em 2010 e 2011 estávamos no pico da crise e nunca houve uma preocupação interna de desinvestimento. Mantivemo‑nos sempre com a mesma postura, procurando manter o nível de serviço. Damos muita atenção ao serviço e é a esse nível que temos de nos distinguir. Toda a gente tem acesso aos equipamentos e por isso fazemos um grande investimento na formação das pessoas. E damos grande atenção à forma como as pessoas são remuneradas. A Europalco distribui, todos os anos, 10% dos seus resultados pelos colaboradores.

Como é que encara este crescimento de 2016?

É assustador. Mas a preocupação é sempre o próximo ano.

Nessa perspectiva avançaram o processo de internacionalização...

Começou antes. Este é o terceiro ano em que estamos com este projecto. Claro que alguns resultados estão já à vista. O mercado internacional, não sendo a maior fatia, representa já uma percentagem assinalável, uma sétima parte da facturação.

Que tipo de pessoas quer a trabalhar consigo? Que tipo de competências são fundamentais?

Até aqui, nunca houve uma procura por pessoas com aptidões específicas. Dávamos, e continuamos a dar, muito valor à atitude. E formávamos as pessoas internamente. Neste momento, há uma necessidade de profissionalizar a empresa. Neste momento, a Europalco vai à procura de profissionais muito relacionados com gestão.

E é fácil ir buscá‑los ao mercado?

Temos uma empresa de recrutamento de que nos ajuda a encontrá‑las.

Mas em relação à parte técnica, por exemplo, a formação que existe em Portugal responde às vossas necessidades?

Não... Isso também tem um custo muito elevado para nós, mas vamos continuar a apostar em formação. O ano passado, provavelmente, foi o ano em que demos mais formação. Acredito também que são formas de motivar as pessoas dentro da nossa organização.

Têm que ir ao estrangeiro fazer essa formação?

Sim.

Referiu que trabalha desde os 16 anos nesta área. Como é que isso aconteceu?

Eu queria ser maquinista. Fui fazer formação para me tornar maquinista, e ao mesmo tempo estudava. A determinada altura começam as festas da escola, e aqueles eventos começaram a mexer comigo. Comecei a fazer brincadeiras em casa. Descobri a minha paixão, o que queria fazer da minha vida, e deixei tudo para trás. Aos 18 anos fiz a minha primeira operação de leasing. Cada escudo ganho com as festas, cada escudo aplicado.

Neste percurso todo, há alguma coisa que se arrependa de ter feito, ou de não ter feito?

Com o que sei hoje, fazia tudo diferente.

Apesar do êxito que tiveram?

Há tanta coisa que fazia diferente, mas não olho para trás dessa forma. Se cheguei onde cheguei, é porque de certeza fiz sempre o melhor. Tenho tido a felicidade de ter pessoas ao meu lado que me têm ajudado, pessoas amigas, família. Isso também é super importante, porque para se estar nesta actividade toda a família tem que estar muito bem alinhada.

Como é que o Pedro se mantém actualizado, com todo o stress do trabalho e com tantas coisas a fazer?

Tem sido difícil nestes últimos tempos. Antigamente não havia um único equipamento na Europalco em que não soubesse mexer. Hoje isso já não é verdade, há coisas que me escapam. A preocupação passou a ser outra. Tento estar presente em algumas feiras, mas essencialmente preocupo‑me muito mais com as áreas paralelas que possam trazer oportunidades para o nosso negócio e ajudar a fazer a diferença.

Como é que vê agora, nesta altura, o mercado dos eventos? Há muitos desafios aliciantes? Há alguma coisa que seja impossível para a Europalco?

Não. Nada é impossível. É verdade.

Como é que encaram esses desafios?

Esta área é de facto esgotante. Consome‑nos, mas quando acabamos um evento queremos fazer mais. No dia em que isto deixar de se passar desta forma, tornamo‑nos vulgares, deixamos de inovar, de fazer diferente. O objectivo é surpreender sempre, fazer sempre melhor, só que as coisas hoje em dia são todas quase produzidas para aquele determinado evento. Então, tudo o que estamos a fazer, por vezes, é a primeira vez que é feito, ou se já foi feito, não temos a informação para ver como é que foi feito. São assim a maioria dos eventos nos quais tenho responsabilidade. Isto é um risco tremendo. O desgaste é terrível, os contratempos são imensos, mas tenho a noção de que é de facto isso que faz a grande diferença. A Europalco não criou uma imagem assente em marketing, a Europalco criou uma imagem assente no trabalho que presta, naquilo que desenvolve.

Ao Pedro dá‑lhe igualmente prazer fazer um evento pequeno?

Sim, desde que seja bem feito e nos dê alguma liberdade. Não gosto de briefings fechados. Gosto muito de criar, de estar junto com o cliente, de participar desde o início na criação do projecto. Não gosto de ser apenas um fornecedor. Dou muito valor a isto. E dou muito valor à fidelidade das pessoas. Antes diziam que a Europalco é o Pedro, mas não é. A Europalco tem pessoas muito boas, com um conhecimento global do negócio.

Mas existe uma cultura Europalco?

Existe, tenho a certeza de que sim.

Muito ligada à sua personalidade?

Ligada aos meus valores, princípios e objectivos. Não acredito na transformação das pessoas. Isso não fazia sentido sequer, acho que cada um tem que ser como é. Agora, em determinados contextos as pessoas sabem que têm que ter aquela forma de estar. E acho que temos conseguido. Temos, como é óbvio, problemas ‑ como todos os outros. Gerir pessoas é complicado.

Como é que vê a qualidade das agências de eventos nacionais?

Acho que estamos outra vez numa fase de muita estabilização. Já vi o mercado muito atribulado, com as pessoas a mudarem muito de empresa. Acho que isto terminou, as pessoas estão mais dedicadas ao posto em que estão, preocupadas em adquirir mais conhecimento, enriquecer o sítio onde trabalham. Estão a entrar várias pessoas novas também. Muitas agências com que nós trabalhamos reforçaram‑se. É muito bom sinal ver isto.

E têm qualidade as nossas agências? O Pedro também trabalha com as agências estrangeiras, consegue estabelecer uma comparação?

Existem empresas estrangeiras muito boas na preparação. Têm mais experiência do que nós na forma como preparam um evento. Lá fora foram obrigados a criar essas valências por uma questão simples, porque existe a empresa do som, a empresa da luz, a empresa de vídeo, a empresa dos palcos, a empresa do cenário, a empresa do catering. São obrigados a criar o know‑how para conseguirem agregar todas estas empresas e, na altura de as contratar, têm a necessidade de saber o que estão a escolher. Em Portugal não é assim. Pelo menos o som, a luz e o vídeo andam em conjunto, e são tratados por uma única empresa. Portanto, menos um problema para as agências. As agências deixam de ter um nível de exigência tão elevado na fase de pré‑preparação do evento. Nós recebemos alguns briefings do mercado internacional, de agências internacionais, e aquilo vem totalmente detalhado. Aqui não há necessidade de o fazer, porque não há necessidade de o cliente ter que gerir quatro ou cinco empresas, que têm que estar no terreno todas muito bem coordenadas.

Como é que vê, por exemplo, a questão dos conteúdos? Há empresas capazes de produzir conteúdos à velocidade a que a vossa tecnologia evolui?

Há uma janela de oportunidade gigante no que diz respeito aos conteúdos. Nos conteúdos, a criatividade é essencial. Mas depois há outras respostas a dar. Por exemplo, em relação aos tempos de montagem. Há eventos em que temos de montar de um dia para o outro, e os clientes estão sistematicamente a querer mudanças. Trabalhamos com empresas que gerem esta rapidez melhor, e outras pior. Quem trabalha os conteúdos tem que investir também, em termos técnicos e em recursos, e tem que encontrar novas formas de trabalhar.

A velocidade também se reflecte nos prazos de antecedência dos eventos. Que tipo de problemas é que vos causa pensar num evento que vai acontecer já daqui a 15 dias?

O problema nem está tanto em pensar, mas em executar. Como os prazos são cada vez mais apertados, vamos recuperar ideias de algumas das coisas que já utilizamos, transformando‑as. Desta forma estamos seguros e não arriscamos tanto. Este é um grande desafio e estamo‑nos a preparar de alguma forma para isso. Há cerca de cinco anos que andamos a trabalhar numa solução que já queríamos ter apresentado ao mercado e que é ter uma oferta de projectos implementados, todos diferentes.

Em relação aos eventos, daquilo que vê no estrangeiro e os eventos que decorrem cá, acha que estamos atrás, à frente, ao mesmo nível?

Todos os anos vou a alguns meetings dentro da área e mostro os nossos eventos. Aquilo que me é sempre dito: não, isto não é em Portugal! Estamos muito à frente, honestamente. Arriscamos muito mais. Estes eventos lá fora demoram meses a preparar, não são feitos nas nossas condições. São feitos com budgets muito maiores do que os nossos, e por isso é que surpreendemos. Fazem‑se coisas megalómanas lá fora, mas também não é aí que nos estamos a posicionar. Acho que nós na Europalco quebramos regras. Vou dar um exemplo: o vídeo não podia ser projectado a não ser numa tela. Nós não sabemos o que é uma tela há anos. Não projectamos em telas, projectamos noutras superfícies como a licra. Tivemos coragem e arriscamos.

Qual foi o evento mais marcante que fez?

Há um de que eu gosto muito. Não foi o mais espectacular, mas tem um gosto muito especial: a Convenção dos Rotários. Começámos a trabalhar um ano antes, e tivemos a possibilidade de fazer um projecto com pés e cabeça. Um projecto estrutural, que passava por todas as especialidades. Formou‑se uma equipa de trabalho durante um período largo, e tivemos tempo para fazer coisas que não fazemos no dia‑a‑dia. Chegamos ao evento com uma grande paz.

Cláudia Coutinho de Sousa

Tags: Mercado, Empresas, Audiovisuais

18-04-2017