Entrevistas

António Gouveia Santos: “2018 vai ser o melhor ano da Alfândega do Porto”

Foi com a janela aberta para o rio Douro que estivemos à conversa com António Gouveia Santos, director executivo do Centro de Congressos da Alfândega do Porto. A preocupação com os que o rodeiam é a característica mais vincada que sobressai do seu discurso, frontal e reflectido.

Qual foi o seu percurso profissional até chegar à Alfândega do Porto?

Tive duas entidades patronais, a primeira foi a Câmara Municipal do Porto [CMP], onde desempenhei funções em diversos cargos, quase sempre dirigentes. No início numa área mais de carácter administrativo, a da fiscalização. Licenciei‑me a trabalhar e a estudar. Era proveniente de uma terra conhecida, mas distante, e a vida não era propriamente o mais fácil que se podia encontrar...

... Veio para o Porto em que ano?

Vim para o Porto com cerca de 13 anos. Sou de Vila Nova de Foz Côa e fiz os dois primeiros anos do liceu em Lamego. Depois, por razões de carácter familiar, vim para o Porto e aqui continuei os meus estudos. No 5º ano (actual 9º) comecei a trabalhar na Câmara do Porto, mas continuei a estudar, licenciei‑me, concorri aos cargos de chefia e por lá fiquei. Tenho um percurso que me honra bastante. Estive uma década, grosso modo, como director de Recursos Humanos da CMP, com a qual continuo a ter uma relação, nomeadamente de carácter afectivo. Em resultado de eleições sou presidente do Centro Cultural e Desportivo dos Trabalhadores da Câmara Municipal do Porto, que é uma colectividade que congrega cerca de três mil sócios, e que tem uma diversidade de actividades muito enriquecedora para os associados e para a cidade, e tem um grande pendor social. Há cerca de 14 anos vim para aqui para a Alfândega.

Esta é a sua cadeira de sonho?

Nunca pensei propriamente nisso, acho que a vida se faz por processos. Neste momento é o meu sonho, gosto muito daquilo que faço, tal como gostava muito daquilo que fazia na Câmara do Porto. Para mim o trabalho também tem que ser qualquer coisa de gratificante do ponto de vista emocional, de realização pessoal, sob o ponto de vista daquilo que nós conseguimos construir, ajudando a que outros possam ser felizes em simultâneo. Nessa perspectiva, e na medida em que as pessoas que trabalham comigo estejam felizes, eu também estou.

O que é que ainda o move?

Move‑me tudo. É um privilégio poder ver as coisas a serem criadas e desenvolvidas. Os resultados que nós hoje aqui conseguimos são o produto do trabalho de uma equipa que, ao longo destes anos, tem tido um espírito forte, uma relação de grande proximidade, e também de grande companheirismo, de grande solidariedade, e de grande capacidade de cada um saber o espaço que ocupa e os limites desse mesmo espaço. E temos conseguido tornarmo‑nos mais reconhecidos em termos nacionais e internacionais. Ao nível deste edifício, com cerca de 160 anos, ele está muito bem preservado, tem sido reconhecido nacional e internacionalmente como um espaço de eleição para a realização de eventos. Este é um espaço diferente, não conheço nem em Portugal, nem fora do país, um espaço que tenha esta diversidade, esta riqueza de poder fazer eventos num local que tem história e que tem carácter. Isto já não se faz. Somos uns privilegiados. Aqui respira‑se o Porto.

Ainda tem tempo para acompanhar todos os eventos que decorrem aqui?

Felizmente tenho uma equipa que me dá toda a tranquilidade e não me obrigo a isso. Mas se tiver que fazê‑lo, a qualquer hora do dia ou da noite, naturalmente que o faço com todo o prazer. Aqui não há monotonia, há sempre diversidade.

Neste percurso de 14 anos, consegue destacar um ou dois eventos que o tenham marcado?

São muitos eventos e muitas pessoas. Pela diversidade dos eventos que aqui temos, há uma panóplia de situações que dificilmente se conseguirão repetir. O primeiro Red Bull Air Race, pela quantidade de pessoas que mobilizou, garantidamente foi um evento que marcou a cidade. O evento que a Mercedes aqui realizou [este ano], durante três meses, depois de termos superado a concorrência de grandes destinos europeus e mundiais, para nós foi um orgulho. Acredito que o facto de o Porto ser hoje uma cidade mais coesa, com mais turismo, mais qualidade de vida, ajuda a que haja mais procura, e não me canso de reconhecer que há por parte das entidades oficiais a este nível também um contributo muito importante. Acho que é bom que o presidente da Câmara do Porto tenha assumido a presidência da Associação de Turismo do Porto. É bom que o presidente da Alfândega, Dr. Mário Ferreira, seja vice‑presidente dessa mesma associação, e que haja uma relação muito boa, de grande cooperação, entre a Associação de Turismo do Porto, o Porto e Norte, as instituições de uma forma geral, e que a própria cidade tenha uma percepção e preocupação da importância que o turismo tem, e que o turismo de negócios tem, em particular, para o desenvolvimento da cidade. Nós sabemos, até porque temos um estudo que mostra a importância que o turismo de negócios tem para uma cidade, para uma região, um país. Traduz‑se em algumas dezenas de milhões de euros de contributos para o PIB, mais alguns milhões de euros em termos de impostos e em cerca de mil postos de trabalho directos e indirectos, de forma permanente, ao longo do ano. Não serão muitas as empresas que possam apresentar estes dados como referência do seu contributo para a economia nacional.

Que características acha que tem, em termos profissionais, que o fazem uma das personalidades deste sector?

Está a ser generosa na sua afirmação. Penso que acima de tudo temos que estar com verdade nas coisas, temos que saber o que estamos a fazer. Temos que ter um pensamento estratégico e ser capazes de traduzir em actos aquilo que pensamos. E de perceber que quem está connosco, só se sentirá feliz se for considerado como um activo de facto. As pessoas têm de ser respeitadas, ninguém conseguirá nunca ser tão bem sucedido como se tiver pessoas com qualidade, com valor, com atitude, cada vez mais bem preparadas, e que se sintam confiantes, seguras, e saberem que há sempre uma rectaguarda, no sentido de poder colmatar uma qualquer fragilidade, qualquer problema. Nunca aqui ninguém caminha sozinho, estamos sempre todos juntos.

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O turismo não é um problema

Já aflorou a importância deste sector para a cidade, como vê a evolução do destino nas suas mais‑valias, mas também nas suas fragilidades?

Os pontos fortes da cidade têm um bocadinho a ver com o facto de ela hoje ter uma segurança, uma qualidade em termos das infra‑estruturas, ao nível dos hotéis, restaurantes, e das pessoas, que não é nada que não se deva valorizar. Não se pode deixar de valorizar a qualidade das pessoas que estão nos serviços ligados ao turismo de negócios. As pessoas têm características que as identificam e que as distinguem e penso que aqui há uma genuinidade muito grande. Ninguém fará uma pergunta e terá como resposta o virar de costas, ou o fazer de contas que não entende. Também por isso mesmo penso que quem tem competências, a responsabilidade de decidir, deve continuar a valorizar a presença das pessoas em toda a cidade, mesmo naquelas zonas que são mais apetecíveis do ponto de vista do turismo. Penso que essa é uma das preocupações que temos que ter. Agora não sou das pessoas que entendem que o turismo, neste momento, é um problema. Não. O problema foi porventura a falta de turismo. Temos de tratar bem o turismo, os turistas, temos de procurar valorizar e elevar a capacidade de compra dos turistas que nos visitam, com uma oferta mais qualificada. E a cidade está a responder, está cada vez mais forte, mais qualificada a todos os níveis. Penso que ainda há muito para crescer, o que pode e deve ser de algum modo precavido é não deixar que se possam exceder alguns limites que gerem desconforto às pessoas do Porto. A cidade do Porto é de todos, mas essencialmente daqueles que aqui nasceram, daqueles que aqui vivem, e daqueles que querem continuar a fazer aqui as suas vidas.

Mas há uma certa tensão entre o turismo de negócios e o turismo de lazer?

Acima de tudo, acho que é necessário esclarecer que o turismo de negócios é um turismo diferente. O retorno do turismo de lazer, de fim‑de‑semana, não tem nada a ver com o de um congressista, com um evento que tem umas centenas ou milhares de pessoas. A proporção, que as estatísticas apontam, é claramente desigual. Estamos aqui a falar de uma proporção garantidamente de 10 para 1. Os estudos não são absolutamente uniformes nos seus dados, mas penso que a diferença é muito significativa. O turismo de negócios além de trazer pessoas que em determinado momento vêm cá porque vêm a um evento de uma qualquer natureza, essas pessoas amanhã virão também em passeio.

Como é que vê a importância que o poder político dá a este sector do turismo de negócios?

Vejo com grande simpatia e optimismo. Reconheço que, de uma forma geral, há por parte das entidades oficiais, desde as governamentais às autarquias, aos convention bureaux e às regiões de turismo, cada vez mais um sentido de importância e de responsabilidade diferente, e há uma aproximação com as entidades que estão no terreno. Hoje já se percebe a importância que o turismo tem para a economia nacional e para a empregabilidade. Sinto maior aproximação entre todos, as pessoas cooperam, e percebem a importância de falarmos uns com os outros, de discutir.

Se tivesse carta branca para melhorar qualquer coisa neste sector, o que mudaria?

Aquilo que gostaria que acontecesse, está a acontecer, pelo que gostaria de reforçar a importância da atitude que é importante ter relativamente aos problemas. Ter uma postura proactiva, ter planos estratégicos, que nos façam reflectir acerca das coisas não para amanhã, não para o ano seguinte, mas com um calendário temporal suficientemente avalizado para que as políticas tenham o seu efeito. Não se planta à noite e se colhe de manhã. Tem que se ter uma estratégia, tem que haver uma filosofia para as coisas. Mais do que os planos de actividade, terá que haver planos estratégicos, em termos dos objectivos de uma instituição. Relativamente à cidade, tem que haver cada vez mais uma boa organização. Não se pode ter um evento aqui que eventualmente possa conflituar com outro. A cidade tem de ser gerida como um todo. E que as instituições possam estar disponíveis para conversar.

E estão?

Estão. Neste momento essa é uma diferença qualitativa importante. Penso que a Câmara tem evidenciado uma enorme sensibilidade para esta situação. Há uma proximidade, que se traduz no esforço e empenhamento que o presidente tem evidenciado, mesmo dele próprio assumir a presidência da Associação de Turismo do Porto. Tem uma preocupação em que as coisas sejam o mais bem pensadas e geridas, o mais bem desenvolvidas, e escolher equipas que possam corresponder em absoluto. Veja‑se também o caso do nosso presidente, Mário Ferreira, homem sobejamente conhecido e que só pode ser uma enorme mais‑valia para qualquer instituição, e nomeadamente nesta área do turismo de negócios.

Aumento da capacidade no futuro

Qual é o plano estratégico da Alfândega para os próximos anos? Falava há pouco tempo que gostava de expandir o espaço para eventos. Há alguma novidade nessa matéria?

Há pouco tempo fizemos aqui uma reunião interna, foram aprovadas opções estratégicas e o plano de actividades pelo Conselho de Administração, e também pelo Conselho Geral, que leva a que se faça uma pequena reflexão relativamente ao futuro. Temos aqui algumas questões importantes, de natureza da própria instituição. É importante dizer que esta instituição é de interesse público, nenhum administrador ganha seja aquilo que for, e é verdade que os associados pagam quotas, mas nunca há a partilha de dividendos. Se os resultados forem positivos para que servem? Reinvestir no edifício, para o tornar cada vez mais apetecível, adaptado às exigências da modernidade, e ser capaz de estar um bocadinho mais à frente se for possível da própria concorrência, em termos nacionais e internacionais. Temos que ter uma capacidade de renovar o espaço, de o requalificar, de fazer aqui coisas novas, e estão pensadas algumas estratégias, que passam por exemplo por uma melhor mobilidade interna, a criação de um passadiço, mais concretamente, que ligue aqui duas áreas que neste momento não têm uma ligação directa, o que vai proporcionar aumentar a capacidade deste Centro de Congressos para fazer eventos com um maior número de pessoas. Podemos duplicar aquela que é neste momento a capacidade, e com alguma facilidade. Também ao nível daquilo que é a imagem, o marketing, a divulgação dos eventos que aqui acontecem, e da vida interna da instituição, o que está pensado é fazer uma mudança. Recorreremos ao sistema digital, aos leds, para divulgar aquilo que aqui acontece, para acabar com as lonas, cartazes. Por outro lado, também é verdade que, em termos de museu, temos que preservar e requalificar o que existe. Temos meios limitados, não podemos ir além daquilo que são as nossas possibilidades, e ao longo dos últimos anos o museu [Museu dos Transportes e Comunicações] tem sido um factor bastante desequilibrador da nossa sustentabilidade económico‑financeira. Temos aqui uma exposição: “O motor da República, os carros dos Presidentes”, que estamos a pensar valorizar, e deixamos de ter aqui uma exposição de carros antigos…

Esse espaço vai ser alocado ao centro de congressos?

Esse espaço já está alocado a uma diversidade de eventos, que tem tido uma incidência especial em exposições de elevado interesse cultural, e até científico.

Essas exposições são de promotores externos?

Sim. Graças ao facto daquele espaço ter ficado disponível, apetrechamos a sala para poder ter exposições da mais alta exigência em termos de condições do espaço, temperatura, humidade, segurança, redes informáticas. Fizemos um investimento que está a ter o retorno no número de pessoas que nos visitam, do ponto de vista financeiro são altamente bem sucedidas, e na valorização do edifício. Abriu‑se aqui um novo segmento que não tínhamos. Nós não recebemos um cêntimo de subsídio de nenhuma entidade, seja ela de que natureza for, pública ou privada. Vivemos exclusivamente dos resultados daquela que é a nossa actividade, que é essencialmente a do centro de congressos.

A equipa é um factor diferenciador

Qual é a concorrência da Alfândega neste momento?

A concorrência da Alfândega são todas as instituições que eventualmente se dediquem à área dos eventos. Mas achamos que é saudável, não temos problema nenhum, há imensas solicitações. Temos uma certificação de qualidade, uma equipa que se preocupa em fazer bem, e temos por parte dos nossos clientes um feedback muito positivo. Ouvimos sempre os nossos clientes no fim de cada evento, e o grau de satisfação tem sido superior a 90 %.

Como vê a requalificação do Pavilhão Rosa Mota?

Vejo com muita satisfação, seria um desperdício se continuasse conforme está. Penso que vai ser uma mais‑valia para a cidade, vai permitir que não tenha que se ir por exemplo para algumas cidades vizinhas para se assistirem a concertos de grande dimensão, com cinco, seis, sete mil pessoas e com qualidade. Nós não deixaremos de cooperar. Somos também concorrentes, mas é positivo e saudável, o cliente pode sempre escolher o que achar melhor. O que importa é que a cidade tenha capacidade e qualidade. E há realmente uma falha na cidade do Porto em termos de um espaço que possa permitir fazer eventos de grande dimensão. O Porto fica a ganhar.

O que distingue a Alfândega de outros venues nacionais?

Somos uns privilegiados porque temos um edifício que é uma espécie de imagem do Porto. Tem carácter, são 40 mil metros quadrados junto da melhor e mais importante auto‑estrada que eu penso que passa pelo Porto, que é o rio Douro, que nos liga a essa zona importante do nosso país que vai até Espanha. Sente‑se que para situações concretas, eventos que impliquem medidas de segurança, e segundo as entidades competentes para fazer essas avaliações, este é o edifício mais fácil de trabalhar. Já aqui se fizeram Cimeiras de grande responsabilidade. Aliás este espaço foi adaptado pela primeira vez para a primeira Cimeira Ibero‑Americana, em que estiveram cá, entre outras figuras de relevo, o famoso Fidel Castro, e que exigiu medidas de segurança invulgares. Têm‑se realizado aqui eventos de toda a natureza, e com várias figuras que exigem mais ou menos segurança e as entidades responsáveis pela segurança consideram que há naturalmente uma qualidade de instalações, umas acessibilidades, que facilitam essa mesma segurança. Por outro lado este edifício não cansa, está todos os dias diferente. Gosto de olhar para os congressistas de todo o mundo, que aqui vêm, e ver a expressão surpreendida quando entram em determinados espaços.

E a equipa da Alfandega é também um factor diferenciador?

Claramente. As pessoas que aqui trabalham têm muito prazer e orgulho nisso. São bons profissionais e pessoas bastante eficazes. Não vou dizer que aqui é o paraíso, há problemas como em todo o lado, e há que saber precavê‑los. Esta instituição, como qualquer outra, tem a preocupação de tratar bem os seus funcionários e estes também sabem bem o papel que desempenham, e que quando aqui estão não estão em nome individual, estão a representar uma instituição que cumpre escrupulosamente os acordos que tem com os funcionários, com os parceiros, seja com quem for.

2018 vai ser o melhor ano da Alfândega?

Eu diria que sim. Neste momento temos dados que apontam nesse sentido, e não será muito ousado, seria até uma atitude de alguma hipocrisia da minha parte, não admitir que 2018 vai ser o melhor ano em termos da dinâmica do Centro de Congressos e também de outras realizações, também muito graças a uma administração muito activa, e muito interveniente, onde o presidente tem um papel de destaque, manifestamente importante.

 

Cláudia Coutinho de Sousa

 

 

Tags: Centro de Congressos da Alfândega, Venues

03-09-2018