Entrevistas

Vida de eventos: Marisa Mesquita

Só Catering & All2Rent

O seu percurso na área dos eventos começa nos anos 90, na Exponor, seguindo‑se um grupo de empresas ligadas à restauração, onde trabalhou sempre na área de catering e serviços.

A paixão cresceu e acabou por decidir dar o passo seguinte: “Ao fim de alguns anos, achei que era tempo de dar o meu salto e fundar a minha própria empresa, com as minhas ideias, as minhas ambições e, sobretudo os meus princípios basilares, que assentam na proximidade com o cliente”. Apesar de saber bem o que pretendia, admite que “não foi fácil”: “Sair de uma empresa onde tudo estava formatado, com regras, imposições e bem consolidada e fundar um novo projeto seria uma aventura que me custaria esforço, sobretudo numa altura de grande crise, como foi o ano de 2010”. Considera que só conseguiu ser bem‑sucedida devido à confiança dos clientes com quem já tinha trabalhado.

“Conheciam bem o meu trabalho e quiseram trabalhar comigo, mesmo sabendo que embora não tendo o serviço com a mesma estrutura, poderiam ter a certeza da minha total entrega. Assim, o facto de ter começado com pouca estrutura, mas muita motivação, aliado a um sócio a quem devo imenso, o Paulo Costa, tornou possível, ao fim de dez anos, chegar a uma posição confortável”, resume.

E é justamente essa a sua principal motivação: “Olhar para trás e ver o que foi possível conquistar com tantos sacrifícios, ver no presente o que temos, erguer os olhos e esperando com toda a certeza que o futuro, pelo trabalho, força, dedicação, será seguramente, com a graça de Deus, triunfante. Ter a certeza de que tenho uma equipa que trabalha com os mesmos objetivos que eu”.

Detalhes: Para o bem e para o mal

Marisa Mesquita admite que do que mais gosta na sua atividade é “fazer acontecer. Passar da ideia à concretização, ou seja, tornar real aquilo que o cliente imaginou, seja um simples coffee break, um grande banquete ou uma grande conferência. Ter a certeza de que cada detalhe foi executado conforme o cliente desejou, previu e pretendeu”.

A importância do detalhe acaba, porém, por ser também a parte menos boa de quem trabalha em eventos. “O mais desagradável e frustrante nesta atividade é mesmo quando todo o esforço é gorado por uma pequena falha que por vezes não é da nossa responsabilidade”, confessa.

Recorda um filme francês, que viu recentemente, em que todo o planeamento de um evento acabou por ser prejudicado quando um empregado de mesa resolveu colocar o seu telemóvel a carregar, levando a um problema de eletricidade que apagou luzes e som, desligou fornos e causou uma série de peripécias.“É hilariante ver a forma como o catering deu a volta ao sucedido, mas é tão real que me leva a rever neste filme quantas vezes tudo está afinadíssimo, como uma orquestra, e basta uma palavra mal dada de um empregado de mesa, uma nódoa de vinho no vestido de uma senhora, o atraso no serviço, a temperatura do vinho, o café não ser do agrado, o vegetariano que esperou e fez esperar toda a mesa, a mesa da presidência que não fecha os talheres e que ninguém entende a demora do serviço, para que tudo seja um stress que só entende quem vive estes momentos ou está nesta vida de eventos”, confessa.

“Chegar ao final do evento e não ver o sorriso de alegria dos convidados e do cliente que nos contratou é sem dúvida alguma a maior frustração desta atividade”, admite.

Entre as memórias mais queridas estão os eventos solidários para os quais as suas empresas são solicitadas. “Todos eles nos tocam muito, pois vemos o quanto as pessoas se empenham e dedicam em cada jantar de angariação de fundos.

Em cada um existe uma história e estórias…em muitos meninos e meninas a quem fazemos sorrir existe uma memória que nós guardamos que é irrepetível e todas elas são memórias que guardamos intimamente no coração”.

E se alguns momentos são recordados pela emoção, outros, de tão inusitados, provocam sorrisos, como este, contado aqui na primeira pessoa:

“Recordo uma vez um empregado de mesa que me chegou muito aborrecido pois o cliente estava zangado com ele! Perguntando‑lhe porquê, respondeu‑me

‑ Ora, ele pediu‑me uma Coca‑Cola com leite, eu levei‑lhe e ele perguntou‑me que cor era esta!
Eu, olhando para o copo e para o empregado, espantada, interroguei‑o.
‑ Mas foi uma Coca‑Cola com leite que ele te pediu?
‑ Agora está a dizer que foi uma Coca‑Cola light!!, disse, com ar zangado.
Não sabia se havia de rir se chorar…são estes os desesperos dos nossos dias!”

Ao longo da sua carreira têm também existido outros momentos em que, de repente, todo o planeamento parecia ter sido em vão. Como o jantar para 800 pessoas em que, “estava tudo organizado, todo o pessoal distribuído, todo o material atribuído a cada função…mesmo assim faltava uma hora e nada estava pronto. Havia mesas por montar, mesas por pôr, cadeiras por chegar e um trânsito que não permitia circular pela cidade”. A responsável pela Só Catering recorda que o seu desespero era partilhado pelo cliente. “Mais do que não termos o pessoal que já deveria ter chegado, era o material que estava no camião. Apenas a comida estava pronta…

Numa hora, mal chegou o camião, montamos a sala, pusemos as mesas e as 800 pessoas, quando chegaram, acharam tudo normal”. Marisa Mesquita lembra que o jantar foi um sucesso, mas foi uma experiência que não quer repetir: “O Paulo e eu tomamos dois Xanax!”.

Olga Teixeira

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Tags: Vida de Eventos, Histórias, Profissionais de eventos

01-07-2020