Entrevistas

Miguel Ribeiro: “Criar momentos únicos e diferenciadores”

O percurso de Miguel Ribeiro até à constituição de empresa própria, Miguel Ribeiro Eventos, é bastante rico.

“Comecei como bailarino profissional no início dos anos 90 na área televisiva e em eventos corporativos e, mais tarde, como coreógrafo e produtor.

Presenciei a evolução da indústria onde pude acompanhar o que de melhor e pior se fez, vi impérios nascerem e outros desaparecerem, espaços outrora básicos, hoje cruciais, simples funcionários, hoje figuras de relevo nos eventos, basicamente todo um ecossistema reformulado, transformado e modernizado”, conta. No início dos anos 2000 decidiu seguir o seu próprio caminho, criando com os sócios uma empresa de entretenimento direcionada para agências, marcas e privados. “Desde então fui acumulando os papéis de diretor artístico, outras vezes de conselheiro e criativo para agências de eventos, comunicação e DMC, outras de produtor de eventos 360, outras de coreógrafo, outras de agente, outras de criação artística de conteúdos audiovisuais”.

O que mais motiva Miguel Ribeiro neste exigente mundo dos eventos é ver a satisfação do cliente pelo trabalho feito. “Definitivamente a satisfação de um cliente, o gosto pela constante procura de conhecimento nesta área, a satisfação e alegria em contratar serviços e poder pagar o que eles valem e merecem, o contacto com possíveis futuros clientes e sentir que posso criar uma mais valia, a vontade de ser mais e melhor”. De todo o trabalho em que está envolvido, o que mais gosta é “de criar momentos únicos e diferenciadores, das energias de equipa, dos momentos de bom humor com clientes e fornecedores, de pôr em prática o que me surgiu na cabeça, de ver um cliente arriscar, de pagar aos fornecedores a horas, de conquistar clientes pelo trabalho que desenvolvi, de sentir que o alinhamento do evento foi cumprido sem percalço e, por fim, do glamour”, elenca.

Mas há sempre espinhos em qualquer atividade. O que menos gosta na área é da “falta de budget para o que inicialmente idealizava, da falta de uma entidade que nos represente, de ver o que se faz lá fora e não acontecer em Portugal, de nem sempre estar presente no evento que adoraria estar, dos meses de espera para poder receber e do pagamento do IVA quando ainda não recebemos do cliente”.

Um evento arrebatador

Pelo simbolismo, o evento que elege como o mais marcante na carreira foi a cerimónia da final do Campeonato da Europa de Futebol, em 2004, no Estádio da Luz. Miguel Ribeiro explica o porquê da escolha: “Tínhamos 200 bailarinos com uma equipa gigantesca associada, todo o relvado tinha que ser coberto numa questão de segundos por uma lona com a imagem da calçada à portuguesa, invadimos o campo onde estava uma bola enorme insuflável com uma caravela lá dentro, onde demos mote para a entrada da Nelly Furtado (“Como uma força”). Tudo isto cinco minutos antes do jogo mais importante de sempre de Portugal começar”. As emoções ficaram ao rubro. “Os gritos, a euforia, a responsabilidade, a emoção e o orgulho em Portugal foi simplesmente arrebatador”, partilha.

Mas há muitos outros momentos e histórias fantásticas que ficaram na memória. Num evento da Desafio Global, para uma marca de telemóveis, “estavam reunidos os representantes asiáticos da marca num jantar e eu propus algo muito simples, mas deveras arriscado para o cliente. Uma intervenção musical com um cantor, um pianista com piano de meia cauda e um beatboxer (percussionista vocal). Como amante do beatbox convidei o vencedor do Portugal Got Talent para acompanhar a dupla e criar, ao vivo, efeitos sonoros ao som de músicas de blues e jazz. A forma como me foi dada total confiança com a simples frase ‘se tu acreditas avança’, sem saberem se iria resultar, foi para mim um exemplo do que me faz acreditar todos os dias e que posso fazer a diferença”. O resultado ficou acima das expectativas. “O espetáculo correu tão bem que, após o mini concerto, a pedido da marca, o beatboxer acabou por fazer uma intervenção de 20 minutos, a solo, onde inclusive estiveram presentes em palco algumas figuras de relevo numa interação de música, humor e boa disposição”.

“Cada macaco no seu galho”

Desafiamos Miguel Ribeiro a escolher um momento hilariante que se tenha passado num evento e a história não desilude. “Estava a Manuela Moura Guedes (MMG) e eu a dois minutos de entrar em direto para a abertura dos Globos de Ouro, no Coliseu dos Recreios, após três semanas de árduos ensaios com as maiores figuras do canal. Éramos responsáveis pela conceção da abertura, artistas e guarda‑roupa. As cortinas por abrir, às escuras, a sala cheia e o assistente de realização a dar a contagem decrescente e vira‑se a MMG agarrando a minha mão com muita força e diz‑me:

‑ Estou a tremer e não vou ser capaz de entrar, não sei como consegues Miguel!

‑ A MMG já fez centenas de diretos com as maiores figuras do Estado Português e do estrangeiro com assuntos controversos e delicados, e não se sente capaz de fazer uma simples performance?

‑ Não, daria tudo para trocar, comparado a isto o meu trabalho é fácil.

-Já no meu caso eu era incapaz de fazer o que faz, entretanto estamos a 30 segundos da cortina abrir e eu estou preocupado se deixei o meu carro bem estacionado junto ao Coliseu.

Foi a risada total e uma conclusão mútua de que cada profissional tem o seu dom e mérito, como quem diz ‘cada macaco no seu galho’”.

No final tudo correu bem, seguramente, mas há alturas em que o desastre está à espera de acontecer. Miguel Ribeiro lembra um episódio em que tudo podia ter corrido mal. Foi num evento para uma farmacêutica, na Cordoaria Nacional. A função da equipa, de cerca de 30 pessoas, era fazer o entretenimento durante a refeição. “Todo o processo de produção foi feito com antecedência e baseado na data que nos foi enviada por email no pedido inicial. Semanas de emails e telefonemas decorreram sem nunca mais voltarmos a falar na data. Numa linda noite, liga‑nos o nosso cliente a perguntar a que horas ao certo chegaríamos amanhã ao espaço”. O pânico instalou‑se porque tudo estava previsto para um dia depois. “Incrivelmente, conseguimos durante a noite, até às 5 horas da manhã, falar com toda a equipa e, por milagre, todos, mas todos, estavam disponíveis para fazer o evento dentro de algumas horas. O evento foi um sucesso e o cliente acabou por reconhecer, após consulta dos emails, que não nos informou da mudança da data, por lapso”. Tudo fica bem quando acaba bem.

Cláudia Coutinho de Sousa

 

 

Tags: Vida de Eventos, Histórias, Profissionais de eventos

09-12-2020