Entrevistas

Rui Batista: “A energia humana gera uma motivação enorme em mim”

Com mais de 22 anos de experiência na área da Comunicação, Rui Batista é Digital & Live Events director na agência UP Partner.

Foi por “mero acaso” que chegou à área dos eventos. “Em 2001, uma cliente na altura pediu‑me para organizar a festa de verão da empresa. Eram cerca de 250 participantes e o evento corporativo decorreu na Herdade do Esporão, no Alentejo. Desde então, nunca mais deixei a área”, conta o Event director, justificando: “Quem conhece o segmento dos eventos sabe que, apesar do stress constante, é um trabalho muito ‘viciante’ e com uma dinâmica muito própria. Confesso que, na altura, nem sabia bem no que me estava a meter, mas têm sido mais os momentos bons que os maus, razão pela qual me identifico e gosto muito da área.”

Acima de tudo, são as pessoas que o motivam. “Realizamos eventos de pessoas para pessoas e essa energia humana gera uma motivação enorme em mim.” Além disso, Rui Batista gosta muito de todo o trabalho prévio dos projetos: a criação do conceito, a produção, o trabalho em equipa. “O evento em si é o resultado final de um somatório de ideias, parceiros certos e muito ‘team work’. Ver o resultado final a tomar forma é uma adrenalina muito própria, muito ligada a áreas que envolvem entretenimento e espetáculo. Mesmo em eventos corporate, que acontecem à porta fechada, produzem‑se eventos fantásticos”, sublinha.

“A possibilidade de conhecer diferentes mercados e negócios” é do que mais gosta nesta atividade. A diversidade de áreas com que trabalham é um estímulo. “Um dia trabalhamos com a banca, o outro com a saúde, depois a indústria de consumo e tantos outros. Esta área faz com que um dia nunca seja igual ao anterior.” E exemplifica com o salto para os eventos digitais que o setor rapidamente deu para enfrentar estes tempos de pandemia e os seus efeitos. “Aconteceu tudo de forma muito célere e os resultados e sucesso da nossa plataforma de eventos digitais tem falado por si. Este ‘efeito camaleão’ que esta atividade proporciona é dos pontos que mais me fascinam.” Depois, “temos também a oportunidade de conhecer pessoas que nos marcam, pois contactamos com imensos públicos de diferentes áreas e isso torna esta atividade fascinante, pelo menos para mim.”

São muitas as coisas de que gosta nesta atividade. Mas há também fatores menos positivos, como aqueles projetos “que no briefing têm tudo para serem espetaculares, mas depois têm de ser respondidos em tempo recorde”. Ter de “fazer muitas coisas sobre pressão” é um dos pontos de que menos gosta na atividade. “Acabamos por nos habituar a isso, mas acho que mesmo nos eventos, por vezes, o tempo é um aliado importante para se poder criar e ir mais além. Por outras palavras, acho que ainda se trabalha muito em Portugal e se produz pouco. Curiosamente, com a Covid‑19 e este ‘novo normal’, este processo melhorou e tem ajudado a clarificar algumas coisas.”

“A criatividade vale mesmo ouro" 

Uma vida de eventos soma histórias atrás de histórias. São muitas as lembranças e, para o Event director, todos os eventos são marcantes. “Mas existem aqueles que nos deixam cheios de boas memórias. Um deles foi, por exemplo, a Convenção Ibérica que fizemos para a Coca‑Cola”, num quartel militar dos Comandos. “E foi toda uma experiência única.” Rui Batista conta ainda que, “a par, foi o nosso primeiro evento premiado a nível internacional, com Ouro, tanto nos BEA Awards, como em diversos outros festivais internacionais, e isso até hoje enche‑me de orgulho, pois o nosso evento custou um décimo de muitos dos eventos com os quais estávamos a concorrer, mostrando que a criatividade vale mesmo ouro”.

Quando desafiado a mencionar um momento marcante em que as coisas possam não ter corrido como planeado, Rui Batista lembra os momentos “em que depois de meses de preparação, quando tudo acontece, falha uma luz, ou um dançarino não entrou a tempo, ou o catering não estava nos melhores dias, ou um convidado se sentiu mal por algum motivo e tivemos de prestar assistência. Esta é uma área de atividade em que dependemos, acima de tudo, de pessoas e os seres humanos, como tudo, falham”. Nestas situações, o que há a fazer é “seguir em frente, resolver e minimizar na hora o efeito negativo”.

“Eu comparo os eventos um pouco como a vida do circo. Desenhamos o espetáculo, montamos o mesmo e, depois, desmontamos e seguimos para outro destino. Ninguém que trabalhe nesta área pode certamente afirmar que sempre tudo correu bem, é natural que assim não seja. Mas eu tento sempre que corra a 110% e com muitos planos B, pelo menos assim, perante qualquer imprevisto que possa acontecer, minimizamos o efeito negativo. É importante, acima de tudo, trabalharmos com os parceiros e equipa certa e sermos corretos e transparentes naquilo que fazemos”, acrescenta.

A terminar, um momento hilariante. “Teria muitos para contar, mas, por exemplo, há uns anos realizamos, no âmbito da nossa área internacional, um evento em Marrocos; em Casablanca, para ser mais exato. Nas montagens, a meio da tarde, todos os locais sumiram e tudo parou. Já em modo de gestão de crise fui saber o que se estava a passar e, para nosso espanto, estavam todos espalhados em salas a dormir calmamente”, refere Rui Batista, adiantando: “Ao que parece em Marrocos levam a hora da sesta muito a sério, como nos explicaram mais tarde. Foi de loucos e passado uma horinha voltaram ao ativo como se nada fosse.”

Maria João Leite

Tags: Vida de Eventos, Histórias, Profissionais de eventos

31-03-2021