Entrevistas

Passaporte português: “Um mundo de oportunidades” num país que é quase um continente

Bruno Abrantes é hoje diretor da OMA Media (México), mas a carreira começou há uns anos, entre aniversários e festas na praia.

Tal como aconteceu em Portugal, a pandemia obrigou‑o a trocar o presencial pelo híbrido ou virtual, mas admite que nada se compara a “essa adrenalina de montar o evento”.

A paixão pelos eventos surgiu ainda enquanto espectador, mas seria mais tarde, quando estava a estudar gestão hoteleira e, em simultâneo, trabalhava no Hotel Quinta da Marinha, que se tornaria uma opção de carreira. Os eventos corporativos despertaram‑lhe o interesse e quem diria que, anos mais tarde, estaria a trabalhar nesta área, mas noutro continente. Antes do avançar da história, há que regressar a um aniversário, que foi, como admite, “o grande passo” que o levaria da gestão hoteleira para a organização de eventos. “Decidi passar do tradicional jantar com amigos a realizar uma festa com concerto, DJ e decoração alusiva ao Halloween. No ano anterior, juntámos mais de 70 amigos num restaurante e o espaço ficou pequeno, porque depois do jantar chegaram ainda mais amigos e conhecidos”, recorda.

Assim, decidiu juntar ainda mais amigos: os de sempre, os do emprego, da universidade, do futebol (que praticou entre os 10 e os 27 anos), do trabalho. E, logo aí, se perceberia que poderia estar talhado para grandes eventos: “Esperava cerca de 150 pessoas e, à medida que se aproximava a data do aniversário, vários amigos perguntaram se podiam levar uns amigos...e chegaram 421 pessoas!”. Uma casa tão cheia que o dono do bar, na praia de Carcavelos, lhe pediu que organizasse mais eventos. “Um mês depois organizei o aniversário de um primo e tive novamente mais de 400 pessoas. Depois desse evento decidi deixar o hotel e associei‑me com um grande amigo e colega da universidade e organizamos eventos como aniversários, festas temáticas, concertos de reggae, hip hop, Dj, moda, noites de fado, entre outros”.

O facto de durante alguns anos ter participado como voluntário no Festival Musa Cascais também contribuiu para que se envolvesse nesta área. “Esse voluntariado sempre foi muito gratificante e uma grande aprendizagem”, salienta.

Barcelona ou México?

E como se passa de festas na praia de Carcavelos para a organização de eventos no México? Bruno Abrantes confessa que já andava “há um par de anos com muita vontade de sair de Portugal e conhecer outras culturas e formas de trabalhar”.

“O segmento artístico em Portugal estava muito monopolizado e nunca conseguimos realizar concertos massivos. Nos eventos que realizávamos dependíamos sempre da venda de bilhetes, porque nunca tivemos patrocínios. Então, umas vezes davam lucro e outras vezes, depois de um trabalho enorme de produção e promoção, perdíamos dinheiro e sentíamos que não avançávamos”, recorda. Acabaria por ser o impulso que o levou a sair.

Mas a história poderia ter sido diferente se tivesse optado por ficar mais perto. “Tinha a possibilidade de ir três meses para Barcelona ou de experimentar a Cidade do México e decidi pelo México, porque sabia que ia encontrar uma cultura totalmente distinta da europeia”, conta. Um grande amigo, que já lá estava, disse‑lhe que ia gostar bastante da Cidade do México e que havia muitas oportunidades para profissionais especializados”. Resolveu ir, mas já com uma boa base para avançar: “Na bagagem levava um curso de hotelaria e turismo, vários anos de organização de eventos próprios e a representação para o México dos artistas Ana Moura e Blasted Mechanism”, recorda.

A ajuda desse amigo de infância foi importante para que começasse a trabalhar na área dos eventos corporativos, mas havia ainda muito trabalho para fazer. “Foram vários meses de adaptação ao idioma e a entender como se fazem negócios no México. Tratei de fazer um networking importante e foquei‑me em conseguir reuniões com as pessoas importantes na área de programação artística, mas também apostar nos eventos corporativos (algo que me faltou na minha etapa profissional em Portugal)”.

event point

Portugal ajuda a abrir portas

O facto de ser português também foi importante para a adaptação inicial. Nas reuniões notavam o sotaque e perguntavam de onde vinha. “Os inícios das reuniões tornavam‑se numa conversa sobre o nosso país ou se já conheciam Portugal e isso quebrava o gelo e abriu muitas portas para realizar vários negócios”, admite.

Bruno Abrantes conta também que “os programadores estavam muito abertos à nossa cultura e, um ano depois de chegar ao México, a Ana Moura e os Blasted Mechanism estavam a tocar em diferentes estados mexicanos”. Seguiram‑se outros, como António Zambujo, The Legendary Tigerman, Deolinda ou Júlio Resende, com salas esgotadas e até tours pelo país.

O facto de Portugal e do México serem países latinos pode ter contribuído para este sucesso, mas Bruno Abrantes encontrou também bastante diferenças, sobretudo na dimensão. “Um país que é quase do tamanho da Europa e em que cada Estado é como se fosse um país novo pelas suas tradições, cultura gastronómica e artística, formas de vestir e as grandes diferenças climáticas. O México é um país com um poder económico muito maior do que Portugal e com 120 milhões de habitantes. Só a Cidade do México tem o dobro da população portuguesa, o que resulta num mundo de oportunidades e diferenças de todo o tipo”.

Em Portugal ou no México, há uma área que, na sua opinião, é a mais difícil, mas também a mais gratificante: os eventos artísticos. Sobretudo quando, “no final de um concerto ou um festival, vês as pessoas felizes e até a chorar de emoção”.

Na atual empresa, a OMA Media, que criou com o irmão, encontra outras formas de se sentir realizado: “O nosso core business são os eventos corporativos, em que a vantagem é que contamos com um orçamento para a realização de congressos, convenções, exposições, festas de fim de ano e eventos especiais. Também é muito gratificante ver materializado um conceito criativo e quando os clientes te felicitam pelo êxito dos seus próprios eventos”.

A pandemia como acelerador de ideias

Outro ponto em comum entre os dois países foi o impacto da pandemia. Mas também a forma como as empresas de eventos passaram a focar‑se no digital. “A pandemia ajudou‑nos a acelerar ideias digitais que o volume de trabalho que tínhamos anteriormente não permitia desenvolver”, admite, revelando que, hoje em dia, os eventos virtuais e híbridos são o core business da empresa.

Tal como em Portugal, março de 2020 foi o mês em que os clientes começaram a adiar e a cancelar. “Não podíamos parar. Tínhamos uma estrutura de nove pessoas e felizmente, até ao dia de hoje, não reduzimos ordenados e até contratamos mais duas pessoas”.

“O que fizemos foi criar uma plataforma para eventos virtuais ou híbridos. Falámos com os nossos principais clientes, tratamos de perceber as suas necessidades em pandemia e desenvolvemos a nossa própria plataforma Digital Virtual Center”, conta.

A sua análise é, por isso, bastante semelhante à que é feita em Portugal: “O mundo mudou no espaço de três meses e nós, os atores da indústria de eventos, tivemos que adaptar‑nos aos eventos virtuais em menos de seis meses para não morrer e continuar a oferecer soluções”.

As salas de exposições com vídeo, infografia e um chat, a rede social própria para os participantes em determinado evento, o evento Global Fruit Latam, para 4.500 pessoas de 70 países, e a festa de fim de ano híbrida, em que participaram mais de 23 mil empregados da Megacable, foram algumas das atividades que mantiveram Bruno Abrantes e a sua empresa ocupados no último ano.

A pandemia resultou numa oportunidade para o futuro da nossa empresa, uma vez que aumentamos a nossa oferta de serviços e carteira de clientes. E expandimos a parte comercial da empresa para a Europa, onde temos um sócio comercial em Amesterdão”, admite.

Ainda assim, diz que “a indústria de eventos no México, que vinha crescendo com muita força nas últimas décadas, foi das mais prejudicadas em todo o mundo”. Em 2020, as perdas económicas terão sido na ordem dos 600 mil milhões de pesos e cerca de 500 mil empregos desapareceram. Lá, tal como cá, “a crise sanitária ‘apagou’ todos os eventos corporativos, festivais e todo tipo de eventos artísticos, culturais e sociais”. E as consequências são igualmente preocupantes: “A devastação que a covid provocou está instalada em muitas áreas do tecido social de forma muito preocupante. Governos, corporativos e patrocinadores continuam a adiar os seus orçamentos para eventos presenciais, deixando produtores e toda a parte operativa especializada (engenheiros de áudio, vídeo, iluminação, cenógrafos, montadores de stands), recintos de eventos e todo o setor de turismo de reuniões sem trabalhar na sua área há mais de um ano”. Um “impacto brutal”, sublinha.

O virtual é o novo real?

E agora, como antevê o futuro para o setor? “Tal como hoje em dia não consumimos os mesmos meios para ver televisão, ouvir música ou até para comprar produtos, também os eventos, depois desta pandemia, têm que ter uma componente digital e que permita ao público participar de forma imediata e sem sair de casa ou do escritório”.

E a conversa acaba por voltar ao ponto de partida, ou seja, aos tempos em que, em vez de organizar eventos, era um mero espectador. “Sempre gostei de assistir a grandes eventos artísticos e desportivos. Sou um grande fã do eventos presenciais, tanto como produtor (essa adrenalina de montar o evento...) ou como assistente (a emoção em direto e partilha de sentimentos são únicos), mas atualmente podemos oferecer também eventos virtuais ou híbridos que são um complemento perfeito para os eventos presenciais e que permitem vivências muito semelhantes”. Lembra que este novo modelo tem “um alcance global sem barreiras temporais, de idioma ou outras, uma vez que os eventos virtuais, além de serem um 90% mais económicos, são também ecológicos e sustentáveis”.

“Que regressem rapidamente os eventos presenciais, mas o híbrido hoje em dia é o novo real!”, conclui.

 

Olga Teixeira

 

Tags: Passaporte português, Eventos, México

11-10-2021