Entrevistas

Álvaro Covões: “Para nós, em 2022 é que vai ser a retoma”

O diretor da Everything is New está presente no 46º Congresso da APAVT.

Presente no 46º Congresso da APAVT – Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo, Álvaro Covões reforçou o quão afetado foi o setor do entretenimento, que agora vê-se a braços com mais uma dificuldade: a obrigatoriedade de testagem nos eventos de grade dimensão. O diretor da Everything is New defende a necessidade de aumentar a capacidade de testagem do país e que a testagem tem de ser gratuita. Álvaro Covões afirmou ainda que, este ano, as quebras são ainda maiores do que no ano passado e que só em 2022 é que poderá haver efetiva retoma do setor.

 

O que pensa da nova norma relativamente à testagem nos eventos?

O setor dos espetáculos já era o setor com regras mais apertadas. Na generalidade dos espetáculos era obrigatória a apresentação do certificado digital de vacinação ou um teste negativo e era obrigatório o uso de máscara. Agora o uso de máscara foi alargado a outros setores e manteve-se para nós. E introduziu-se uma nova dificuldade nalguma tipologia de eventos que é a obrigatoriedade não do certificado de vacinação, mas sim do certificado de testagem ou um teste negativo. E isso, obviamente, que cria uma questão de logística, porque se, por um lado, nós estamos preparados desde o momento zero para conseguir controlar os nossos espetadores e, portanto, garantir que só entram pessoas nessas condições, era preciso que o Governo e as autarquias dotassem o país de uma testagem em número suficiente para corresponder à procura. Porque, tal como no futebol e nos bares e discotecas, o ponto alto é sempre ao fim-de-semana. Agora imagine quantas dezenas ou centenas de milhares de pessoas necessitam de um teste para continuar a fazer a sua vida normal. E isso é que é, neste momento, o nosso grande receio, é perder público, nem sequer é por as pessoas não se quererem testar, mas precisamente por não terem condições para o fazer. E objetivamente a testagem tem de ser gratuita, não faz sentido penalizar o consumidor com algo que, pelas regras atuais, tem de ser feito em teoria de dois em dois dias.

 

Nestes últimos meses tem havido alguma recuperação no setor dos eventos. Como vê o atual cenário?

Nós sempre falamos que seríamos os últimos a abrir. E fomos. Porque o nosso setor não é, por exemplo, como a restauração, que basta receber a notícia que daqui a três dias pode abrir, abre as portas e os clientes aparecem. Nós temos uma coisa que se chama preparação, produção, promoção, venda, e isso exige muito tempo. Isto, por um lado. Por outro lado, como, neste caso na Europa, não há uma abertura igual em todos os países, há países que têm mais restrições do que outros, isso invalida as tournées dos artistas. E invalidando as tournées dos artistas não há produto. Não havendo produto, pode-se dizer, de uma forma genérica, em 2021 devemos ser o único setor cuja quebra ainda é maior do que em 2020. Porque em 2020 ainda tivemos dois meses e meio absolutamente normais; este ano nunca tivemos. No início do ano estivemos fechados, como todos os setores de atividade, e quando abrimos foi sempre com as tais restrições que já referi, portanto, éramos o setor com mais restrições… A própria organização dos grandes eventos, dos grandes festivais, foi muito limitada pelas autoridades de saúde e o Fim de Ano, principalmente o Fim de Ano que as autarquias organizam, começou a ser cancelado com antecipação, não por causa destas notícias recentes do aumento de casos, mas porque a lei era muito clara sobre eventos, com mais de cinco mil pessoas ao ar livre era obrigatório o controlo do certificado digital de vacinação, e está a imaginar fazer isso na Praça do Comércio ou nos Aliados, por exemplo, em Lisboa e no Porto? É uma impossibilidade técnica. Portanto, a maior parte das autarquias viu-se na necessidade de antecipadamente cancelar. Este conjunto de fatores vai marcar a cultura como o setor mais penalizado nestes dois anos. Dou o caso da minha empresa: tive uma quebra de 73% em 2020. As estimativas para este ano são de 91 ou 92% da quebra. E porquê? Claro que podia trabalhar, mas também não tinha produto. E depois não se consegue programar com antecipação, estando sujeitos a estas alterações repentinas. Isto é um pesadelo. Ainda agora o senhor ministro da Economia perguntou se estávamos a recuperar bem… Não conseguem perceber, porque o que se passa no nosso setor é muito particular. Por exemplo, nas viagens foi muito mais simples. Ao fim de um ano e meio em que as pessoas não podiam viajar, quem pôde, quem teve capacidade financeira, a primeira coisa que quis fazer foi fazer uma viagem. Mas o produto estava disponível. Agora, se nós quisermos ir ver grandes concertos, daqueles mais exclusivos que são os artistas à escala mundial, que só vêm a Portugal de quando em quando, isso não existiu, não existe.

 

O que espera para 2022?

Parece-nos muito claro e cientificamente muito credível aquilo que o Pedro Simas veio dizer aqui ao congresso, que já não estamos em pandemia e, sim, estamos em endemia. E que tudo o que está a acontecer era previsível, está de acordo com os dados da ciência. E, portanto, estando a evolução desta pandemia que agora é endemia a ser tal qual como tem sido previsto e demonstrado, em 2022 vamos voltar a uma normalidade e vai ser a grande oportunidade para a retoma. Só para nós. Para nós, em 2022 é que vai ser a retoma.

 

Maria João Leite, em Aveiro*

*Viajou a convite da APAVT

 

Tags: Entrevistas, Eventos, Entretenimento, Testagem, Retoma

03-12-2021