Opinião

Tendências de consumo: O que procuram hoje os portugueses?

A análise do comportamento dos consumidores é um eixo determinante para as empresas e organizações.

A análise do comportamento dos consumidores é um eixo determinante para as empresas e organizações. Estudar o consumidor implica identificar as variáveis explicativas do seu comportamento e identificar tendências de forma a potenciar a inovação nas propostas das empresas, a todos os níveis, desde o produto, comunicação, distribuição, ao preço.

Ao desenvolvermos mecanismos de análise, verificamos que a situação de crise económica e financeira vivida nos últimos anos implicou alterações profundas nos comportamentos dos consumidores. Os indicadores de confiança dos consumidores desceram para níveis históricos, tendo impactado de forma definitiva nos hábitos, preferências e comportamentos.

Num estudo realizado recentemente pelo IPAM Porto, em Maio deste ano, verificou‑se que as alterações na gestão dos orçamentos familiares, decorrentes da situação de crise, se mantiveram, ainda que a confiança apresente sinais de melhoria, e que estamos perante alterações profundas nos hábitos e comportamentos, que tenderão, na perspectiva dos consumidores, a manter‑se, independentemente da melhoria da situação dos agregados familiares. Estas alterações ficam a dever‑se, em grande parte, à diminuição do orçamento disponível, tendo as famílias efectuado importantes alterações no seu estilo de vida com consequências nos padrões de consumo.

As questões económicas estão presentes nas decisões de compra, influenciando fortemente as opções tomadas pelos consumidores, quer estejamos a falar da área alimentar ou de outro tipo de bens, duráveis ou não. Face ao contexto actual não é, certamente, surpreendente que os participantes neste estudo, à semelhança do que havia acontecido em 2014 e 2015, tenham afirmado que escolhem o local de compra tendo em consideração as campanhas e promoções, com um forte enfoque no preço e na poupança. Um facto indiscutível relaciona‑se com a importância dada pelo consumidor ao ambiente promocional, bem como com a sua pertinência nos processos de decisão de compra.

Se por um lado os consumidores estão mais focados no preço e procuram activamente alternativas que lhes permitam obter os mesmos produtos com preços mais baixos, por outro lado alteraram hábitos e assumem padrões de comportamento mais suportados por motivações relacionadas com a saúde e bem‑estar. Numa análise global da informação disponível, podemos identificar comportamentos paradoxais e opostos. Por um lado, os números da crise mostram‑nos que a diminuição do poder de compra implicou alguma deterioração dos hábitos alimentares dos portugueses, justificada pela escassez de recursos ou por questões que se prendem com o estilo de vida da população. Por outro lado, verifica‑se o crescimento das preocupações com a alimentação saudável por parte de consumidores mais informados, com um enfoque particular na saúde e bem‑estar, crescendo a oferta de eventos e produtos que permitem satisfazer esta necessidade. Várias alterações são de referir a este nível, com uma progressiva consciencialização dos consumidores para as alterações a incorporar na alimentação: redução dos produtos processados, diminuição do açúcar, preocupação com a origem dos produtos, para enumerar alguns dos tópicos mais relevantes.

De salientar que cada vez mais consumidores procuram informação e efectuam a sua análise de forma sistemática, tomando decisões mais racionais. Escolher alimentos não processados, com benefícios adicionais para a saúde, com qualidade certificada faz parte das opções, consubstanciando tendências de consumo no domínio alimentar. Alinhada com a primeira tendência que identificamos, surge uma muito maior preocupação com o estilo de vida saudável, materializado na prática de exercício físico. A este nível os dados são contundentes, apontando para um aumento muito significativo da prática de exercício físico, ocupando a frequência de ginásios, as actividades ao ar livre, como a corrida.

No contexto português dicotomizam‑se comportamentos e consubstanciam‑se tendências díspares. Por um lado o enfoque no preço, na conveniência e na rapidez no acesso aos bens e ao seu consumo. Por outro a qualidade, a saúde e bem‑estar, as experiências inovadoras, o regresso às origens a orientarem os comportamentos e as propostas de valor de marcas.

Com uma realidade tão díspar será que faz sentido procurar encontrar eixos de convergência? Será possível falarmos de comportamento do consumidor ou, pelo contrário, teremos que procurar centrar a análise na disparidade e diversidade dos consumidores? De facto, importa desenvolver mecanismos de compreensão que incorporem a diversidade e permitam dar resposta às necessidades e desejos dos consumidores, grupos plurais com comportamentos díspares e, frequentemente, mutáveis.
 

Mafalda Ferreira, Docente do IPAM e especialista em ciências do consumo
Licenciada e Mestre em Psicologia pela Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto. Mafalda Ferreira, actual docente do IPAM, é doutorada em Psicologia Social pela Universidade de Cádiz, e desde 1998 que é docente do Ensino Superior. Levou a cabo diversos projectos de investigação no domínio do consumidor, e é responsável pela concepção, realização e acompanhamento de Estudos de Mercado para empresas de diversos sectores de actividade. Além disso, presta serviços de consultoria em diversas empresas de média e grande dimensão desde 2014.

Tags: Tendências

11-01-2017