Opinião

Recrutar hoje os gestores de eventos de amanhã

Ninguém sobrevive, na área de organização de eventos, sem uma enorme paixão por esta área.

Apenas essa paixão permite aguentar o desgaste físico e emocional que é inerente a esta actividade.

E quem é que aguenta esta pressão? Como recrutar nessa área? Como ter a certeza de que estamos a recrutar e a formar as pessoas certas para lidar com tudo o que implica “gerir eventos”?

A geração que está agora a chegar ao mercado de trabalho é, em grande parte, uma geração materialista e digital. Materialista porque cresceram na convicção de que tinham direito àquele smartphone, de que tinham que comprar aquela toalete imprescindível para sair à noite e que tinham mesmo que comprar aquele bilhete para o Festival X ou Y onde todos os amigos vão, logo teriam que ir também.

Cresceram nesta convicção de que tinham direito a tudo, mesmo não lutando por nada.

Como é que esta geração, inteligente e sarcástica qb, dependente digitalmente, encaixa numa actividade que implica tantos sacrifícios e uma permanência fora da nossa zona de conforto?

Primeiro encaixa com algum fascínio, não se revendo muitos deles em áreas como direito, gestão, engenharia, saúde ou outras áreas vocacionais, muitos abraçam essa área ou por exclusão de partes ou pela curiosidade, e o referido fascínio, por um mundo “sempre em festa”.

E, do lado das empresas de organização de eventos, como se recruta esta geração que está agora a entrar no mercado de trabalho?

Na maior parte das vezes, numa entrevista de recrutamento, além de uma análise à formação nesta área, experiências pontuais de trabalho e motivação, o que estamos a avaliar é a empatia com o candidato e se temos fé, ou não, no potencial desse candidato.

A confirmação de que a pessoa tem verdadeiramente perfil para esta área vem do dia‑a‑dia, mas vem, acima de tudo, de como essa pessoa se revela nos momentos com poucas horas de sono, com uma refeição a menos ou a aturar um cliente mais ansioso.

Ou de chegar a uma sala vazia e acreditar que passadas umas horas, doa a quem doer, o evento vai estar pronto e vai ser fantástico.

E aqui a diferença é entre os que sucumbem à pressão ou os que a abraçam e a gerem mesmo que, tantas vezes, por trás de uma máscara de absoluta confiança, estejam inúmeras dúvidas e inseguranças.

Nos anos de crise ouvíamos, e utilizávamos de forma recorrente, a palavra “resiliência”. Aplicado à nossa área poderia ser um esforço contínuo, e em sofrimento, para levar um objectivo a um fim.

Com o enorme Miguel Gonçalves (Spark Agency) aprendi que ninguém aguenta sofrer todos os dias e que as organizações não podem exigir isso das suas equipas. Esqueçam a resiliência e adoptem a nova palavra de ordem “consistência” ou a capacidade de, diariamente, ser dedicado e focado na actividade que desenvolvemos.

Ser empático, ter piada e laivos de criatividade pontuais é fácil na nossa área de actividade, mas aguentar a pressão, ser profissional, gerar valor, de forma consistente, dia após dia após dia, isso já é um campeonato em que muito poucos jogam.

Pedro Rodrigues, Director-geral da Desafio Global

 

Tags: Recursos humanos, Gestores de eventos

25-10-2018