Opinião

Go digital or go home?

Não gosto de clichês mas é um facto que éramos felizes e não sabíamos.

Começámos o ano de 2020 a um ritmo alucinante, ao ponto de termos cometido a heresia de nos queixarmos de excesso de trabalho para, subitamente, batermos numa parede de cimento.

Em março o mundo parou. E num confinamento inédito, provocado por uma pandemia que só achámos possível de acontecer na Netflix ou na HBO, o nosso setor parou também.

Passado o choque inicial, quando a economia lentamente foi retomando a normalidade possível, num novo mundo de constrangimentos e medidas de mitigação de risco, descobrimos que seríamos das áreas mais afetadas e das últimas a regressar à normalidade possível.

Se olharmos para os eventos como uma área da comunicação, a par da publicidade, relações públicas, ponto de venda, digital, é fácil concluirmos que fomos, de longe, a área mais afetada pelo atual contexto.

Se olharmos para os eventos, na perspetiva da agregação das pessoas, como os espetáculos e até a restauração, o balanço não poderia ser mais dramático e penalizador para o nosso sector.

Não me canso de referir o abandono inexplicável o que o nosso setor foi remetido. Os factos falam por si:

28 de Maio – Os espetáculos voltaram a ser permitidos com a publicação das regras da DGS para equipamentos culturais e espetáculos.

12 de Agosto - Publicação do Despacho n.º 7900-A/2020 que fixa a interpretação dos princípios e orientações aplicáveis à realização de eventos corporativos.

Dois meses e meio separam o enquadramento normativo que permitiu o retomar dos espetáculos face aos eventos corporativos (apesar de regras e recomendações serem em tudo idênticas). O despacho que permitiu o regresso dos eventos foi publicado no dia seguinte à manifestação da APSTE no Terreiro do Paço. Senão tivesse existido esta digna e memorável manifestação pergunto-me quanto mais tempo o enquadramento que nos permitiu voltar a trabalhar ficaria numa gaveta.

Apesar deste despacho, onde de uma forma inédita se fala em eventos corporativos, ter saído no pior mês do ano para a nossa atividade (agosto), rapidamente os organizadores de eventos, e congressos, tentaram retomar a sua atividade apesar do desânimo generalizado no setor e alguma desorientação e falta de confiança dos clientes. De referir que fruto do nosso ADN de grande capacidade de organização e logística, os poucos eventos a que assistimos nestes dois meses, quer corporativos quer congressos, como o Congresso de Medicina Interna no Altice Forum Braga, foram organizados pelos mais elevados padrões de segurança.

Dois meses depois, com o setor a tentar reerguer‑se lentamente, e com a chegada do estado de calamidade e emergência, nova proibição no que toca a “eventos e celebrações” acima das seis pessoas nos principais concelhos do país.

Num primeiro momento, desta publicação, todo o sector achava que esta proibição não se aplicava aos eventos corporativos para, depois de pedidos vários pareceres e esclarecimentos ao governo, se constatar que aquilo que ninguém acreditava ser possível, afinal era. A proibição incluía eventos corporativos apesar de, a título de comparação e felizmente, os espetáculos e atividades culturais continuarem a ser permitidos, excepto em datas muito pontuais.

Choque generalizado no setor e um impacto, nem sempre óbvio para todos em vários outros sectores, como a afirmação proferida na altura pela APHORT – Associação Portuguesa de Hotelaria, Restauração e Turismo de que “A proibição de eventos corporativos é o empurrão final para o encerramento dos hotéis”.

Esta cronologia revela um abandono e negligenciar do setor dos eventos, que gostava de um dia perceber se aconteceu por negligência, falta de peso político de quem tutela esta área ou por outra razão.

Mas, no fim do dia, quem assume a responsabilidade pela destruição do setor dos eventos em Portugal?

É uma questão bombástica e alarmista? É! Mas qual a diferença entre espetáculos e eventos corporativos que justifiquem esta diferença absurda de tratamento dos dois setores? Não havendo uma diferença logística, na atividade de ambos os setores, existe uma falta de confiança nos organizadores de eventos?

Quase tenho inveja dos empresários da restauração e dos espetáculos quando se queixam das suas quebras. É que esses, e outros setores, podem trabalhar com as devidas limitações enquanto o setor dos eventos foi impedido de trabalhar e remetido ao esquecimento.

APECATE (Associação Portuguesa de Empresas de Congressos, Animação Turística e Eventos), APSTE (Associação Portuguesa de Serviços Técnicos para Eventos), APORFEST (Associação Portuguesa Festivais Música), APEFE (Associação Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos). Todas estas associação tiveram, obviamente, uma palavra a dizer na defesa dos seus setores. Alguns, literalmente apenas palavras, enquanto outros, com muita dignidade, saindo à rua em manifestações pela defesa do seu setor. Desconfio muito de quem defendeu que as quebras não foram assim tão dramáticas, que os apoios foram suficientes. Desconfio de quem se gabou, sistematicamente, de que são próximos e ouvidos pela tutela. De que é que isso nos serviu?

A língua inglesa tem uma palavra accountability, para a qual não temos tradução direta, mas que representa a responsabilização dos indivíduos e organizações pelas suas ações e posições. Acredito nisso e não me vou esquecer daqueles que, neste contexto, não tomaram as dores de um setor em sofrimento profundo.

É um milagre quem sobreviver neste contexto tão adverso. O tempo dirá quantas empresas e profissionais do setor vamos perder pelo atual contexto e parcos apoios.

Mas, mais do que tudo, falta‑nos algo fundamental para lutarmos por aquilo que é nosso por direito. Reconhecimento!

Falta‑nos a capacidade de mostrar o real peso do setor dos eventos na economia e no importante setor do Turismo em Portugal. E não é agora, em modo de luta pela sobrevivência, que o devíamos estar a fazer. Este era um ponto fulcral que já devíamos ter conquistado há muitos anos.

E porque não pegar em todas as associações relacionadas direta, ou mesmo indiretamente, com a área de eventos e fazer a Confederação dos Eventos de Portugal? Uma única voz, um único interlocutor com o devido peso. Ou, mais importante do que lutar verdadeiramente pelo setor, o que conta é manter cada capelinha e cada cargo nas mesmas? Assim dificilmente seremos ouvidos e reconhecidos.

Agora retomemos o título do artigo: Go Digital or Go Home

Esta é a realidade a que foi remetido todo o nosso setor. Ou fazem eventos digitais ou não fazem nada.

Abraçámos esta nova realidade com o profissionalismo e paixão que nos caracterizam e o balanço não poderia ser mais positivo com o mercado a apresentar eventos, neste formato, de elevada qualidade. Por outro lado, foi a forma de conseguir que os clientes, e as marcas, conseguissem continuar a comunicar e motivar as suas equipas e os seus públicos. Mas, a verdade é que não temos outra opção. Ou faturamos desta forma ou estamos impedidos de exercer a nossa atividade.

Viveremos ainda meses complicados de pandemia, e rescaldo da mesma, onde o setor dos eventos e os seus profissionais continuarão na luta possível pelas suas empresas e pelas suas equipas e parceiros. Mas não vão ser meses fáceis e, provavelmente, continuaremos por nossa conta do ponto de vista do reconhecimento e dos parcos apoios disponíveis.

Resta‑nos manter a resiliência, acreditando na tese brasileira da “demanda reprimida”. Aquele jeitinho simpático de dizerem que muitos dos eventos, e do negócio, que não está a acontecer agora, acontecerá quando voltarmos à normalidade possível.

E temos mesmo que acreditar! Eu acredito! Apesar de todas as adversidades estou focado e motivado para ir à luta pela minha empresa, pela minha equipa e por este setor de que tanto me orgulho!

Assim, vamos com tudo em 2021!

 

Pedro Rodrigues, diretor geral da Desafio Global

Tags: Eventos, Eventos digitais, Futuro

22-01-2021