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Eventos ou turismo de alta densidade: uma opção urgente

Há tipos de turismo para todos os gostos: de cidade, de campo, de praia, cultural, desportivo, religioso, de congressos associativos, de convenções empresariais, etc. Como se sabe, a cada tipo de turismo correspondem recursos ou eventos com características próprias e um tipo de turista com expectativas, personalidade e comportamento também próprios. É esta enorme variedade que faz do turismo um fenómeno social tão rico sob o ponto de vista humano e no qual não há lugar para a monotonia. De facto, a sua dinâmica é tão acelerada que os tipos de turismo que hoje estão na moda poderão amanhã ser substituídos por outros muito diferentes ou então ser explorados até à exaustão.

Foi isto que aconteceu com alguns destinos turísticos onde tudo se apreciava com comodidade, tranquilidade e segurança e que passaram a ter uma alta densidade de visitantes (atendendo à área, à população, à natureza dos recursos, etc.) e uma animação tão intensa que é considerada excessiva, sobretudo por alguns residentes. Destes, uns entendem que os turistas – nacionais e estrangeiros – devem ser cada vez mais, apesar do incómodo provocado pelo barulho que fazem, pelo lixo que deixam e pela ocupação quase exclusiva do espaço público; outros prefeririam que fossem menos. Numa visão economicista do turismo, uns dizem: venham muitos e tragam algum dinheiro e outros: venham poucos e deixem muito dinheiro. São duas visões extremadas e redutoras do fenómeno turístico que podem conduzir a um conflito sério e que é necessário evitar procurando alcançar, com uma adequada política de turismo, o equilíbrio entre impactos negativos e positivos económicos, sociais, culturais e ambientais, ou melhor, o difícil equilíbrio entre os objectivos dos três pilares da sustentabilidade.

Em certas zonas de Cascais, Sintra, Lisboa e Porto e no centro de algumas cidades algarvias, são evidentes os efeitos negativos provocados pelo turismo de alta densidade que podem ainda ser agravados em situações pontuais como a visita de um navio de cruzeiros com milhares de cruzeiristas e tripulantes ou a realização de uma grande convenção associativa. É pois legítimo que se pergunte: será desejável o turismo de alta densidade? Até que ponto estamos dispostos a suportar os seus inconvenientes?

Inconvenientes e vantagens do turismo de alta densidade

Os efeitos das novas políticas de abertura do transporte aéreo a empresas de baixo custo e de liberalização da ocupação de imóveis com alojamento igualmente de baixo custo e não classificado (acabar com a classificação das unidades hoteleiras, uma ferramenta fundamental para a informação e defesa do cliente, é um erro estratégico com graves impactos no turismo criando o caos e a e xploração desenfreada) traduziram‑se no aumento da procura desses serviços de transporte e de todos os serviços turísticos para níveis que podemos designar como característicos do turismo de alta densidade mas com evidente baixa de qualidade.

O aumento do número de turistas, de dormidas e de receitas, mas à custa da qualidade, não pode ser considerado um efeito positivo da política que defende o turismo de alta densidade.

De facto, uma análise empírica dos seus impactos permite afirmar: a um grande número de turistas low‑cost característicos do turismo de alta densidade corresponde sempre um turismo low‑value.

O turismo de alta densidade ainda não demonstrou ser capaz de contribuir para a melhoria da qualidade de vida da comunidade residente gerando valor.

Encher aviões, hotéis e hostels a qualquer preço como acontece nos serviços low‑cost, nunca foi, só por si, um objectivo estratégico de destinos turísticos bem planeados.

Também a recuperação urbana para instalar estas unidades hoteleiras não é um objectivo da política de turismo, mas sim da política de ordenamento urbano e da especulação imobiliária.

Sendo o espaço público um bem comum, não é aceitável a sua ocupação excessiva com esplanadas e quiosques ao serviço quase exclusivo do turismo de alta densidade.

Por outro lado, não podemos esquecer que só a oferta de serviços turísticos com qualidade, qualquer que seja a sua classificação, é garantia da sobrevivência de um destino turístico.

Concluindo

A questão que se põe agora é sabermos se a dimensão e natureza do saldo dos impactos positivos e negativos resultantes do turismo de alta densidade são desejáveis pela comunidade de acolhimento dos fluxos turísticos e até pelos próprios turistas. Apesar de algumas tentativas para a definição de um número mágico que indique a capacidade de um destino ou de um recurso turístico, o certo é que esse limite deve ser definido pelo número de turistas presentes quando eles já se começam a sentir incomodados uns com os outros ou a comunidade de acolhimento não está disposta a receber mais turistas.

É o que já começa a acontecer no centro de Lisboa onde a população local já pouco vai e onde os próprios turistas se acotovelam incomodados nas lojas, nos cafés e no espaço público. Tudo leva pois a crer que já se atingiu o limite da capacidade de acolhimento de turistas em Lisboa. O que pode levar alguns organizadores de eventos a considerar esta cidade como um destino esgotado e de baixa qualidade. O que seria trágico para a events industry nacional e para a cidade.

Por João Martins Vieira, professor de Planeamento de Turismo e de Eventos

Opinião publicada na Event Point nº16