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A música e as emoções

A música, se for adequada, pode ser um dos elementos chave de um evento na medida em que contribui para criar um “contexto emocional”. Mas qual é a música adequada? Um conjunto de investigadores da Universidade de Coimbra trabalha num projecto de classificação de músicas com base nas emoções que elas transmitem. Estivemos à conversa com Rui Pedro Paiva, coordenador do MOODetector.

Pode explicar-nos de que se trata este projecto MOODetector?

Tal como o título do projecto indica (MOODetector – A System for Mood-based Classification and Retrieval of Audio Music; MOODetector - Um Sistema para a Classificação e Pesquisa de Música baseada em Emoção), o projecto consiste na análise de música em formato áudio (por exemplo, ficheiros mp3), de forma a extrair informação semântica da mesma, nomeadamente no que concerne às emoções veiculadas na música.

Os repositórios actuais de música digital, baseados em mecanismos de pesquisa essencialmente textuais (artista, título, álbum, etc.), necessitam de abordagens mais avançadas, flexíveis e amigáveis, adaptadas aos requisitos de utilizadores individuais. Como tal, a um nível macro, o objectivo do projecto MOODetector é investigar e desenvolver mecanismos avançados de classificação e pesquisa de música, nomeadamente com base no seu conteúdo emocional.

A um nível mais detalhado, temos como objectivos determinar que atributos musicológicos estão relacionados com emoção (por exemplo, a tonalidade da música é importante, bem como atributos rítmicos, tímbricos, melódicos e harmónicos), investigar e desenvolver mecanismos para a extracção desses atributos a partir da onda sonora, bem como metodologias de classificação automática das emoções presentes na música com base nos atributos extraídos. É também fundamental conceber conjuntos de dados adequados à avaliação dos mecanismos propostos.

Que aplicações pode ter?

Há aplicações possíveis em áreas tão diversas como as indústrias de entretenimento ou a saúde. Por exemplo, na indústria musical tanto fornecedores de serviços de venda como clientes têm a ganhar com ferramentas desta natureza. E, de facto, a emoção possibilita pesquisas mais adequadas ao que o utilizador procura em geral, em lugar dos mecanismos de pesquisa baseados em tags (etiquetas) textuais, como álbum ou artista. Por outro lado, para que estas pesquisas sejam possíveis, é fundamental que as músicas já estejam catalogadas numa dada base de dados. Isso pode ser feito manualmente, o que envolve um esforço humano tremendo. Por essa razão, mecanismos de classificação automática são prioritários.

A possibilidade de realizar pesquisas baseadas em conteúdo cria oportunidades também nas indústrias de publicidade, marketing ou jogos. Por exemplo, na produção cinematográfica, seria mais fácil procurar músicas de acordo com uma cena que se pretenda criar, instigando medo, revolta, alegria e outro tipo de emoções no espectador. Na indústria dos videojogos o caso é semelhante, com a possibilidade de procurar músicas para aplicar em momentos específicos de forma a aumentar a tensão, marcar um momento de felicidade, revolta, etc. E analogamente na publicidade.

Já na saúde, é sabido que a música tem o potencial de induzir emoções no ouvinte. Assim sendo, há aplicações possíveis em áreas como a musicoterapia.

A música pode ser influenciadora de um acto de compra? Pode fazer com que as pessoas se revejam numa marca?

Sim. Há estudos que sugerem uma influência notória da música de fundo no comportamento de compradores. Por exemplo, num estudo já de 1993, o investigador Charles Areni da Universidade do Texas estudou a influência da música de fundo (clássica vs “top-forty”) numa loja de vinhos durante um mês. As suas conclusões principais foram que a música clássica contribuía para gastos mais avultados ou aquisição de produtos mais caros.

Quanto à questão da música contribuir para que as pessoas se revejam numa marca, essa situação é real e ainda mais notória em marcas dirigidas para populações mais jovens. De facto, muitas marcas utilizam a música como um componente fundamental da sua estratégia de marketing social. Os jovens gostam de música e usam-na como manifestação da sua identidade. Associando uma música a uma marca, o jovem consumidor tem tendência a rever-se nessa marca do mesmo modo que se revê nessa música. Por esse facto, muitas marcas investem fortemente em contractos com artistas famosos, tirando partido do seu potencial para atrair consumidores, sobretudo jovens.

Até que ponto a música pode ajudar ou favorecer um processo ou ambiente de aprendizagem?

A utilização de música de fundo em contextos de aprendizagem tem merecido alguma atenção recentemente. Há conclusões contraditórias, mas diversos investigadores defendem uma influência positiva da música de fundo no processo de aprendizagem. No entanto, essa influência depende de escolhas criteriosas e de conhecimentos fundamentais de psicologia musical. Em síntese, quando utilizada adequadamente, a música de fundo pode afectar a disposição do estudante, a sua percepção de tempo e espaço, reduzir os seus níveis de stress e ansiedade, motivar, aumentar a concentração, aumentar a sensação de bem-estar, etc.. Do mesmo modo, uma má utilização poderá provocar o efeito contrário.

Noutro âmbito, há estudos que sugerem uma relação directa entre a instrução musical e o aumento das capacidades de leitura em crianças. Há também trabalhos que indiciam uma ligação entre educação musical e melhor desempenho em matemática.

Até que ponto a música pode ser importante num evento profissional? Por exemplo um congresso.

Tal como mencionei anteriormente, uma das características da música é sua capacidade para influenciar a disposição do ouvinte. Seja qual for o evento profissional, a utilização adequada de música de fundo pode contribuir para a criação de um contexto emocional adequado.

É possível provocar estados de espírito através da música que se coloca?

Este tema é controverso e há posições contraditórias na comunidade de psicologia musical. De facto, há quem defenda que características estruturais da música influenciam a disposição do ouvinte. Por exemplo, em termos de tonalidade, os acordes maiores estão associados a emoções positivas (alegria, contentamento) enquanto que acordes menores têm a conotação contrária. Do mesmo, música com tempo mais rápido poderá estar conotada com entusiasmo ou excitação. Agora, até que ponto essas características intrínsecas de músicas induzem estados de espírito, é outra história. Alguns autores defendem que essa indução depende muito de associações do ouvinte com a música em causa, por exemplo, memórias, vivências, experiências associadas à música. Por outro lado, outros autores defendem que música alegre induz, em geral, emoções positivas no ouvinte. Mas, mais uma vez, tudo isso está muito dependente do sujeito, do contexto, das suas memórias e experiências.

Que tipo de música é adequada a cada um destes estados de espírito: alegria, tristeza, ansiedade, depressão, optimismo, euforia, agressividade, aborrecimento?

Depende da finalidade. Um indivíduo pode estar eufórico e querer continuar nesse estado ou acalmar-se. Tal como referi, em teoria é possível escolher música de acordo com o estado de espírito que se deseja induzir. Por exemplo, num dia em que se sinta mais triste e queira melhorar a disposição, alguém habituado a música angolana como semba poderá ganhar o dia com esse ritmo quente e com as letras habitualmente humorísticas. No entanto, alguém que não esteja familiarizado com o género, poderá sentir o efeito contrário. Mais uma vez, a indução de emoção depende de diversos factores, inclusivamente culturais.

Que música escolhia para um Conselho de Ministros?

Parece-me que nesse contexto muitas vezes falta serenidade e discernimento. Há quem diga que o Kanon de Pachelbel é uma das músicas mais relaxantes de sempre. E desse relaxamento advém serenidade e discernimento. Por isso, escolhia essa.

 

Cláudia Coutinho de Sousa