Associativismo: mito ou realidade?

Opinião

24-04-2026

# tags: Eventos , Congressos , Associações , APECATE , Animação Turística

O setor dos eventos e da animação turística é, por natureza, um setor de construtores. Constrói experiências, emoções, memórias. Onde outros veem limitações, este setor vê possibilidades. Onde há problemas logísticos, legais ou operacionais, há profissionais criativos a desenhar soluções em tempo real. É um setor que resolve, que adapta, que inventa.

Mas esse talento tem um custo. E o caminho está longe de ser fácil. Leis restritivas e, muitas vezes, desajustadas a realidade do terreno. Múltiplas tutelas que não comunicam entre si, obrigando as empresas a navegar num labirinto burocrático. Falta crónica de dados que provem, com números, o real impacto económico, social e territorial da atividade. Uma fiscalidade que trata o setor como se fosse estático, quando ele é tudo menos isso. E, claro, custos de contexto elevados que consomem energia, tempo e margem financeira.

Ao mesmo tempo, este é um setor que não pode parar. A inovação não é um luxo, é uma obrigação. O público muda, as tendências mudam, as expectativas sobem. Estar parado é desaparecer. E essa necessidade permanente de evolução exige investimento, formação, experimentação e risco — muitas vezes com recursos limitados.

Perante tudo isto, a lógica pareceria simples: unir forças. Criar estruturas fortes, representativas, capazes de defender o setor, de dialogar com o Estado, de produzir dados, de negociar enquadramentos legais mais justos, de pensar soluções estruturantes a médio e longo prazo. Passo a passo. Sem milagres, mas com estratégia.

No entanto, a realidade mostra outra coisa: poucas empresas associadas, pouca participação coletiva, e uma perceção generalizada de que “não vale a pena”, “não traz retorno” ou “não faz sentido investir nisso”.

Porquê? Porque muitas destas empresas vivem em modo sobrevivência. Estão focadas no curto prazo, no próximo evento, no próximo cliente, no próximo problema urgente. O associativismo é visto como algo abstrato, distante, com resultados que não são imediatos. E quando os recursos são escassos, tudo o que não dá retorno rápido é facilmente descartado.

Há também um histórico de desconfiança. Estruturas que prometeram muito e entregaram pouco. Falta de resultados visíveis. Falta de comunicação clara. Isso cria a ideia de que “é sempre a mesma conversa” e que o esforço coletivo acaba por beneficiar poucos.

E, sejamos honestos, existe ainda uma cultura muito individualista nestas duas áreas. Cada empresa aprende a desenrascar-se sozinha. Resolve, adapta-se, contorna. Esse ADN de resiliência, que é uma força enorme, torna-se também uma fraqueza quando impede a ação coletiva.

O paradoxo é este: o setor é forte, criativo e resiliente… mas exatamente por isso aguenta mais do que devia sozinho. E ao aguentar, adia mudanças estruturais que só acontecerão quando houver massa crítica, união e voz coletiva.

O futuro não passa por esperar que alguém resolva os seus problemas. Mas por reconhecer que a união não é um custo — é um investimento estratégico. Pode não resolver tudo amanha, mas é a única forma de garantir que daqui a cinco ou dez anos o setor não continue a lutar exatamente pelas mesmas batalhas.

Criatividade já existe. Talento também. Falta transformar essa energia individual numa força coletiva mais forte, apostando na estrutura que já existe. A APECATE já deu provas na sua luta que é essencial ao desenvolvimento desta área (participação na construção de leis, defesa do setor no Covid, IVA dos eventos, e muitos outros exemplos), será o leitor o próximo associado?

© António Marques Vidal Opinião

Presidente da APECATE e diretor da Margens

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