Aumento dos preços: qual o impacto na indústria dos eventos?

Reportagem

06-04-2026

# tags: Agências , Eventos , Audiovisuais , Catering , Empresas

O aumento dos preços tem impacto na indústria dos eventos? Empresas admitem que sim, mas já têm estratégias para lidar com um contexto exigente.

Combustíveis, alimentação e viagens são apenas três áreas onde o impacto da subida dos preços tem sido notório. Para as empresas que trabalham na indústria dos eventos, porém, são pontos cruciais, que se refletem nos custos e, em última análise, nos preços praticados. A Event Point falou com três, de diferentes áreas de negócio, para perceber como estão a gerir um aumento dos preços.

Os dados preliminares do Instituto Nacional de Estatística (INE) revelam uma subida da inflação homóloga em março (+2,7%). Segundo o Instituto, “é quase na totalidade explicada pelo aumento do preço dos combustíveis”. O que acaba por influenciar também o preço de outros bens e serviços. Já o Banco de Portugal (BdP) estima que o valor da inflação atinja os 3% este ano. Como este aumento dos preços é bastante influenciado pelo contexto internacional, o panorama em termos mundiais é bastante semelhante. O que começa a notar-se, sobretudo para quem trabalha com mercados internacionais.

Hélder Carvalho, Global Congress Operations Manager na Abreu Events, admite que a empresa já nota, “nos clientes internacionais, uma certa contenção geral de custos, adiando os seus RFPs pelo menos para o quarto trimestre de 2026”.

Há, ainda, um duplo efeito do aumento das tarifas na aviação, motivado sobretudo pela Guerra no Irão – que além da subida no preço do jet fuel (cerca de 80% desde o início do conflito) – obriga a desvios nas rotas. Por um lado, “há um impacto direto no budget previsto para convidados e speakers internacionais”: “Aumenta o custo com a viagem de convidados e, por conseguinte, já nos pedem alternativas low budget de alojamento”, revela o responsável da Abreu. Por outro lado, “este aumento na aviação também já implica que várias entidades estejam a reduzir o número de colaboradores que anteriormente previam enviar para o congresso em Portugal”.

Pressão crescente, para já sem impacto nos clientes


No caso da Smart Choice Audiovisuais, a subida de preços “tem aumentado gradualmente os custos operacionais, sobretudo ao nível dos combustíveis e da logística”, explica o CEO, Manuel Lopes.

“Temos conseguido absorver parte desse impacto internamente, sem o refletir de forma imediata nos clientes. No entanto, esta capacidade de absorção tem limites e começamos a sentir uma pressão crescente na margem, especialmente em eventos com maior componente logística”, admite o responsável.

Apesar de sentir, a nível local, um impacto direto com o aumento nos custos nos transportes terrestres, a Abreu também está a optar, sempre que possível, por absorver os custos desta subida.

“Desde algum tempo, nomeadamente com a reativação pós-pandemia Covid-19, que nos preparámos com subidas nos transportes, transmitindo ao cliente desde o primeiro contacto uma possível revisão [de preços], fruto de aumentos com combustíveis. No entanto, apesar de legitimamente podermos rever os preços, sabemos que nunca é bem recebido pelo cliente (também tivemos essa experiência com a Covid-19), pelo que é nossa decisão absorver ao máximo estes custos extra”, explica Hélder Carvalho.

Contudo, e tal como no caso da Smart Choice, existe a perceção de que esta absorção de custos não pode ser eternamente adiada. “A longo prazo, toda a cadeia de fornecimento terá de obrigatoriamente subir os seus valores e notamos já essa intenção nos contactos com vários fornecedores. No entanto, dizem que vão refletir aumentos apenas nos futuros orçamentos”, revela, lembrando, contudo que “muito do ecossistema dos eventos/congressos são PMEs e até freelancers, com mais dificuldade com estes aumentos”. Por isso, o tema já começa a ser abordado, ainda que de forma exploratória.

Sustentabilidade, estratégias e gestão de recursos


A Food Events Network, empresa de catering que opera sobretudo em festivais e eventos corporativos de grande dimensão, sente “o impacto da subida dos preços, em particular nas matérias primas alimentares, energia e logística”, reconhece Patrícia Magalhães.

“No entanto, esse impacto tem sido mais controlado do que no setor em geral, fruto de um posicionamento estratégico consolidado ao longo dos anos. A aposta contínua em produtores locais e cadeias curtas de abastecimento (km0), aliada a processos certificados de planeamento e gestão sustentável, permite reduzir dependências externas e absorver melhor as oscilações do mercado”, explica a cofundadora e partner da empresa.

Patrícia Magalhães garante que a Food Events Network está a responder à situação com base em três pilares: planeamento, eficiência e sustentabilidade aplicada. “A gestão eficiente de recursos faz parte do modelo operacional. A implementação de práticas de zero desperdício, 100% de aproveitamento das matérias primas e otimização de menus permite reduzir custos sem comprometer qualidade ou experiência. O trabalho com produtores locais não é apenas uma opção ética ou ambiental, mas também económica: garante maior estabilidade de fornecimento, flexibilidade, previsibilidade de preços e uma relação de parceria de longo prazo”, explica.

Além disso, garante que existe “um acompanhamento permanente de custos, revisão de processos e planeamento de cenários, permitindo à empresa preparar-se de forma estruturada para eventuais agravamentos do contexto económico”.

A Smart Choice também recorre à otimização de recursos e à sustentabilidade para gerir as subidas dos preços. A atuação da empresa está a ser feita em duas frentes: “Por um lado, ao nível operacional, temos vindo a otimizar rotas e a concentrar transportes sempre que possível, articulando equipas e eventos para reduzir deslocações e maximizar recursos. Por outro lado, ao nível comercial, estamos a rever os nossos modelos de orçamentação. A partir de abril, os novos orçamentos já refletem de forma mais direta as variações de mercado, sempre com transparência junto do cliente”.

A empresa de audiovisuais aposta também “numa lógica mais estratégica, reforçando parcerias com fornecedores e procurando soluções mais eficientes e sustentáveis” para mitigar impactos a médio prazo.

Contexto exigente, mas setor sabe dar resposta


Para a Smart Choice, os próximos meses vão ser encarados “com alguma cautela", porque “a instabilidade nos custos, especialmente na energia e combustíveis, obriga a uma gestão mais rigorosa e a uma maior capacidade de adaptação”.

“Ainda assim, acreditamos que o setor dos eventos continuará resiliente. O nosso foco será encontrar o equilíbrio entre a sustentabilidade financeira dos projetos e a manutenção da qualidade e experiência que os clientes procuram. Mais do que nunca, será essencial trabalhar com planeamento, proximidade ao cliente e flexibilidade, garantindo que cada evento continua a refletir a sua identidade, mesmo num contexto económico mais exigente”, garante Manuel Lopes.

Patrícia Magalhães, da Food Events Network, também fala “num contexto exigente e marcado por alguma volatilidade”, mas acredita que “empresas com dimensão, experiência e sistemas de gestão certificados estarão mais bem preparadas para enfrentar este cenário”.

“A sustentabilidade, quando integrada na estratégia e nos processos, torna-se um fator de resiliência económica. A valorização do território, o trabalho com produtores locais, a redução efetiva do desperdício e a eficiência operacional deixam de ser apenas compromissos ambientais e passam a ser vantagens competitivas claras, permitindo manter elevados padrões de qualidade, responder às exigências dos clientes e criar valor mesmo em contextos adversos”, conclui.

© Olga Teixeira Redação

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