Conventa: qualidade em vez de quantidade

Reportagem

20-02-2026

# tags: Eventos , Conventa , Feiras , Meetings Industry

A 18.ª edição da Conventa voltou a afirmar Liubliana como ponto de encontro da chamada “Nova Europa” — a região que se estende de Helsínquia a Istambul e de Milão a Baku

O evento reuniu 192 hosted buyers (148 internacionais e 44 regionais), oriundos de 42 países, e 129 expositores de 18 mercados.

Realizada sempre no mesmo destino, a feira enfrenta um desafio assumido: renovar constantemente os buyers convidados. O objetivo passa por garantir 70% de novos hosted buyers em cada edição. Em 2026, a título de exemplo, 65,78% das candidaturas a hosted buyer foram recusadas para salvaguardar a qualidade do programa. O perfil manteve-se focado nos segmentos corporate/incentive e associações.

Sob o tema “The Art of Meetings”, a edição deste ano introduziu ainda uma novidade: 11 destinos integrados em programas de fam trips pós-feira, reforçando a ligação entre a experiência do evento e o conhecimento aprofundado do território.

A Conventa tem sido, ao longo dos anos, uma ferramenta estratégica para posicionar a Eslovénia e, sobretudo, Liubljana, como líder na meetings industry. Apesar de atingir a maioridade nesta 18.ª edição, Petra Stusek, do Ljubljana Tourism, sublinha que a feira “mantém-se jovem” e continua a explorar novas ideias e formatos.


Para Fredi Fontanot, do Slovenian Convention Bureau, um dos grandes desafios passa por atrair as novas gerações e perceber como comunicar com elas, num mercado em transformação. Já Petra Stusek destaca a necessidade de manter a qualidade dos buyers, a autenticidade e a personalidade distintiva da Conventa.

Gorazd Cad, fundador da Conventa, reforça que o evento mantém uma identidade regional, mas com impacto supranacional — um posicionamento que assenta na curadoria rigorosa dos participantes e na aposta contínua na qualidade acima da quantidade.

Conventa Crawl Experience: a cidade como palco

A grande novidade desta 18.ª edição foi o Conventa Crawl Experience, um conceito que procurou transformar a própria cidade num venue. A iniciativa é possível graças à escala compacta de Liubljana, onde é possível circular a pé no centro e integrar diferentes espaços num mesmo percurso.

A ideia passou por proporcionar aos buyers uma experiência imersiva e original, dando-lhes acesso a venues especiais da cidade, através de atividades diferenciadoras: sessões de pintura, criação de postais personalizados, degustação de água, uma caça ao tesouro, um pub quiz e até um drum circle.

Divididos em grupos ao longo dos dois dias da feira, os buyers visitaram o Edifício dos Correios, o Museu Bancário, o Neboticnik — o primeiro arranha-céus da cidade —, o Place 369 e o Restaurante Nebo Show, numa lógica que cruzou descoberta de espaços com momentos de interação.


O Conventa Crawl Experience insere-se numa vontade contínua de apresentar um evento “sempre fresco e diferente”, refere Jan Orsic, do Ljubliana Tourism. “Foi algo que desenvolvemos para dar aos expositores a oportunidade de conhecer um maior número de pessoas e, talvez, criar um ambiente mais descontraído onde possam encontrar algo que façam em conjunto.”

O objetivo é potenciar ao máximo as oportunidades de contacto. “Estamos a tentar criar o máximo de oportunidades de networking possível, porque como se pode ver aqui, todos os almoços, todos os eventos, tudo é aberto a todos. As oportunidades de negócio são grandes quando se têm 200 bons buyers. Depois trata-se de saber aproveitar essas oportunidades.”

Drum circle: comunicação sem palavras

Uma das experiências integradas no programa foi dinamizada por Franci Krevth, do Tolkalni Krog, responsável pelo drum circle.

Questionado sobre o contributo desta dinâmica para eventos corporativos, explicou: “Para eventos corporativos, [os drum circles] podem funcionar como icebreakers, também podem servir para ligar as pessoas e ajudar-nos a sentir os outros — não com palavras, mas com música, com ritmo — uma conversa sem falar.”

Com experiência também em orquestra profissional, Krevth estabelece um paralelo entre música e eventos: “Há sempre um sistema, há um líder, como numa orquestra há um maestro. Mas o segundo aspeto mais importante é que se escutem uns aos outros e reajam uns aos outros. Todos ouvimos, mas nem sempre escutamos. E é isso que esta experiência traz às pessoas: a capacidade de realmente escutar o que os outros têm para dizer.”


O drum circle pode assumir diferentes formatos, adaptados aos objetivos do cliente. “Se quiserem apenas um icebreaker, podemos fazer 20 minutos. Mas às vezes querem sessões mais longas, de uma ou duas horas, ou várias sessões em dias diferentes.” Em alguns casos, o facilitador trabalha regularmente com empresas, “por exemplo, de duas em duas semanas”, como forma de aliviar o stress e melhorar o ambiente interno.

Também ao nível do team building os benefícios são claros: “Escutar uns aos outros, reagir uns aos outros, sentir uns aos outros e ter uma atividade sem stress, em que simplesmente se desfruta do momento.”


Embora atue sobretudo na Eslovénia, Franci Krevth desenvolve este conceito também noutros países, reforçando a ideia de que experiências participativas e sensoriais podem acrescentar valor aos eventos corporativos.

Objetivos alcançados


No balanço da edição deste ano da Conventa, Jan Orsic, do Ljubljana Tourism Board, considera que os objetivos foram alcançados — e até superados. “Acho que os objetivos foram cumpridos e penso que até superámos algumas das expectativas.”

Para o responsável, a feira funciona também como laboratório de inovação. “Uma das coisas muito importantes para nós na Conventa sermos uma plataforma de experimentação. É a base a partir da qual nascem novos produtos. Estamos a aprender coisas novas, estamos a desenvolver novos produtos.”

Orsic sublinha que a Conventa se distingue de outras feiras do setor: “É preciso perceber que a Conventa é diferente de outras feiras, porque tem de oferecer conteúdos interessantes e oportunidades de negócio fiáveis às pessoas que vêm ao mesmo destino.”

Como muitos expositores regressam ano após ano, o desafio está na renovação da procura: “A Conventa tem de garantir 70% de novos hosted buyers todos os anos. Quanto a esta meta, Orsic relativiza a dificuldade. “Eles [os buyers] são finitos, mas quando se olha à volta vê-se bastantes rostos jovens. A nova geração está a chegar ao mercado de trabalho.”


Segundo o responsável, esta geração trabalha de forma diferente: “São novos, fazem as coisas de maneira diferente, os seus eventos são diferentes, o olham para o negócio de forma diferente. Temos de nos adaptar a isso.”

Com cerca de 200 buyers por edição, considera a meta “mais do que exequível”. Só no segmento associativo, considerando eventos para 300 participantes, “apenas para Ljubljana existem mais de 14.000 eventos por ano disponíveis”. A dinâmica económica global reforça esta confiança: “Temos muitas startups, temos empresas, há tanto movimento económico a nível global que não tenho receio de não conseguirmos atrair 200 novos buyers todos os anos.”

Num contexto em que as feiras competem pela atenção do mercado, Orsic defende que a diferenciação da Conventa passa pela consistência do seu posicionamento. “A proposta única de valor da Conventa é vir ao mesmo local e fazer negócio com novas oportunidades.”

E reforça: “Não estamos focados em atrair cada vez mais e mais, o que dilui a qualidade dos buyers e repete o mesmo negócio de sempre apenas acrescentando novos nomes. Nós filtramos, oferecemos qualidade. E qualidade acima de quantidade é a ideia principal.”

Quanto ao desempenho do destino, o responsável recorda que 2024 foi um ano recorde para a capital eslovena, ao entrar pela primeira vez no top 40 do ranking global da ICCA. “Para uma cidade pequena como Ljubljana é uma conquista enorme. Estes números, claro, oscilam, mas é uma prova de conceito. Funciona.”

Depois de 2025 igualmente positivo, 2026 antecipa-se forte, com duas grandes conferências no final de março, a iniciar a época de congressos mais cedo do que habitual. “Isso ajuda-nos a reduzir a sazonalidade.”

Os incentivos estão “a crescer” e o destino encontra-se praticamente reservado com um ano de antecedência: “Estamos praticamente com um ano de antecedência totalmente reservados, o que é ótimo.”

Num cenário internacional instável, Orsic sublinha a estabilidade como argumento competitivo. “A estabilidade é absolutamente um argumento. Somos um dos lugares mais seguros do mundo. Somos muito estáveis enquanto sociedade. Somos uma das sociedades mais igualitárias.”

Essa previsibilidade é determinante num setor que trabalha a longo prazo: “Estamos a concorrer a negócios que podem acontecer daqui a oito anos. E temos de ser capazes de entregar, dentro de oito anos, aquilo que prometemos. E é isso que fazemos.”

Hosted buyer portuguesa destaca boa organização


Nélia Marques da Fonte, Business Manager Congress Unit na AIM Portugal, foi uma das portuguesas hosted buyers presente na Conventa. À Event Point fez um balanço muito positivo da participação na feira.

Organização, intensidade da agenda e a relevância dos contactos estabelecidos, são três dos pontos fortes da 18ª edição da Conventa, na opinião de Nélia Marques da Fonte, presente pela primeira vez na feira e no destino Liubliana.

“Do ponto de vista da organização, acho que estava bem organizado”, afirmou, destacando a atenção dada à comunicação com os buyers. Um dos aspetos que mais valorizou foi a possibilidade de selecionar previamente os expositores com quem pretendia reunir e isso “às vezes isso não acontece em outras feiras e em outras ações como esta, e eu acho que foi bastante positivo.”

A profissional veio com objetivos claros: “conhecer novos destinos, hotéis, venues e foi muito, muito interessante.” O resultado traduz-se numa carteira reforçada de contactos para poder responder às solicitações dos clientes.


Também ao nível do networking a experiência foi positiva. “Acho que a nível de network foi também muito positivo, também com outros buyers, com outras entidades”, referiu, acrescentando que o ambiente foi “muito envolvente, foi muito interativo”, com a organização a planear o evento “de forma a que as pessoas pudessem conversar e relacionar-se”.

A intensidade da agenda foi outro dos pontos marcantes: “Foi muito intenso porque neste dia e meio eu tive 26 reuniões, portanto foi muito intenso.”

A duração das reuniões — 15 minutos — revelou-se, por vezes, curta: “Em alguns casos, os 15 minutos de reunião foram um bocadinho curtos, porque para já basta uma reunião atrasar para depois aquilo ser quase que um comboio, é um dominó, atrasam todas.” Ainda assim, considera que houve encontros particularmente relevantes.

Após o programa oficial, a buyer optou por permanecer no destino para aprofundar o conhecimento da oferta: “Agora vou ficar para conhecer mais a fundo o destino, para ver os venues e perceber um bocadinho mais sobre o destino.”

Liubljana surpreendeu

Entre os destinos representados na feira, a capital eslovena destacou-se. “Ljubljana surpreendeu-me porque, embora seja uma cidade muito pequena, tem muitas vantagens também por ser pequena”, explicou.

A sustentabilidade e a escala compacta da cidade foram argumentos determinantes: “Este fator da sustentabilidade, este fator de conseguires fazer tudo a pé sem teres que estar preocupada com os transportes, com o estacionamento, é muito positivo.”

Também a hotelaria e as infraestruturas de congressos mereceram elogios: “A oferta hoteleira também acaba por ser muito boa e, mais uma vez, temos uma grande rede de hotéis aqui à volta dos centros de congressos e, de facto, fiquei bastante impressionada com os centros de congressos que existem.”

A Conventa posiciona-se como plataforma da chamada “Nova Europa”, uma geografia que se estende de Milão a Baku, de Helsínquia a Istambul. Sobre o que Portugal pode ‘aprender’ com esta região, Nélia Marques da Fonte dá o exemplo concreto da sustentabilidade. “Ainda ontem vimos que tinham formas de medir o desperdício alimentar, isso é uma coisa que acho que ainda temos de melhorar.” Referiu ainda preocupações com mobilidade e qualidade do ar: “Essas preocupações ambientais, as preocupações, por exemplo, com o trânsito e com a poluição, de estarem sempre a medir a qualidade do ar” é uma mais-valia e um caminho inevitável para o setor.


© Cláudia Coutinho de Sousa Redação