Congresso da AHP: desafios e prioridades do setor

Entrevista

19-02-2026

# tags: Hotelaria , AHP , Eventos , Congressos

Hotelaria debate preços, aeroportos e mercados no Congresso da AHP, no Porto.

Entre 11 e 13 de fevereiro, a Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) reuniu o setor no 35.º Congresso Nacional da Hotelaria e Turismo, no Centro de Congressos da Alfândega do Porto, para três dias de reflexão estratégica sobre os principais desafios da hotelaria portuguesa em 2026.

No final do Congresso, em entrevista exclusiva à Event Point, o presidente da AHP, Bernardo Trindade, destacou três ideias-chave.

A primeira foi a capacidade de resposta do setor às recentes tempestades que afetaram o país. “É extraordinário a forma como o turismo e a hotelaria, em dois dias, conseguem organizar-se para mobilizar quase uma centena de empreendimentos que vão disponibilizar alojamento a quem perdeu tudo.” A mobilização traduziu-se na rápida adesão ao programa “Turismo Acolhe”, evidenciando o papel social da hotelaria em momentos de crise.

A segunda dimensão apontada por Bernardo Trindade prende-se com os desafios estruturais do setor. “Temos que responder em variadíssimas dimensões. Seja a questão da inteligência artificial, seja a questão da nossa forma de organização dentro dos hotéis, a gestão do pessoal, a gestão das novas tecnologias.”

A terceira ideia remete para o papel político da associação. “A Associação da Hotelaria de Portugal é uma associação política. Porque se envolve na comunidade e procura encontrar nestes momentos uma capacidade de responder e lançar desafios.” Entre os temas levados à discussão estiveram a taxa turística no Porto; as infraestruturas aeroportuárias; e a necessidade de captar trabalhadores de outras geografias.

Mas o momento mais marcante para o presidente da AHP foi claramente pessoal. “A minha ansiedade, quando aqui cheguei, depois de uma tempestade horrível, e pensar se as pessoas viriam ou não ao Congresso.”

As grandes prioridades do setor

Numa mensagem em vídeo, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, deixou um recado claro: é essencial “não perder a cabeça” nos preços. Apesar de 2025 ter sido um ano de recordes, com proveitos totais do alojamento turístico a aproximarem-se dos 7,2 mil milhões de euros, o chefe de Estado alertou para situações pontuais em que a relação qualidade-preço se degradou face a Espanha.

Marcelo sublinhou ainda a importância do turismo interno, que representou 74,3% do aumento das dormidas em 2025; o crescimento de mercados como os Estados Unidos; a necessidade de reforçar qualidade e renovação geracional num contexto internacional marcado por conflitos e imprevisibilidade.

Já Bernardo Trindade, a poucos meses do verão, assumiu estar “mesmo preocupado” com os constrangimentos nos aeroportos portugueses. Entre os temas críticos estão o fim da moratória do Entry/Exit System a 31 de março; a transição de concessionário de handling nos aeroportos do continente; e as limitações estruturais no Aeroporto de Lisboa. O presidente da AHP defendeu ainda a necessidade de “estudar a carga sobre as cidades”, numa altura em que estão previstos dezenas de novos hotéis em Lisboa e no Porto até 2028.

O presidente da Confederação do Turismo de Portugal, Francisco Calheiros, defendeu que o crescimento sustentável passa por atrair turistas com maior poder de compra. Os Estados Unidos foram apontados como mercado prioritário, a par da China, Japão e Coreia do Sul; para tal, são essenciais ligações aéreas diretas robustas e uma decisão clara quanto à solução aeroportuária para Lisboa, incluindo uma eventual solução intermédia até à concretização do novo aeroporto.

O secretário de Estado do Turismo, Pedro Machado, antecipou um crescimento entre 5% e 6,5% nas receitas turísticas em 2026, depois de estas terem ultrapassado os 29 mil milhões de euros em 2025. A estimativa aponta para crescimento de 2% a 2,5% nas dormidas; reforço do contributo do turismo como motor económico; foco na criação de valor e na perceção positiva do setor junto dos portugueses.

Bernardo Trindade exigiu também a rápida nomeação de delegados do Turismo de Portugal nos Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul, sublinhando que estes mercados são decisivos para aumentar a estada média, atualmente nos 2,52 dias.

O presidente do Turismo de Portugal, Carlos Abade, garantiu que as nomeações serão feitas “rapidamente” e anunciou planos de expansão da rede internacional, incluindo reforço nos Estados Unidos; abertura de equipa na Cidade do México; criação de presença própria no Japão e na Coreia do Sul; abertura de nova equipa em Sidney.

No encerramento, Carlos Abade destacou ainda a resposta “extraordinária” do setor às populações afetadas pelas tempestades. O programa “Turismo Acolhe” conta já com 97 empreendimentos aderentes; 732 quartos disponíveis; presença em 52 concelhos; apoio financeiro às unidades participantes, reforçando o papel do turismo como agente ativo na recuperação social.


Rui Ochôa