Cristina Siza Vieira: Liderar com exigência, visão e proximidade

Entrevista

30-01-2026

# tags: Hotelaria , AHP , Hotéis

Vice-presidente executiva da AHP – Associação da Hotelaria de Portugal, Cristina Siza Vieira construiu um percurso sólido entre a advocacia, a administração pública e a gestão.

Fala com clareza sobre os momentos que mais a marcaram, a forma como encara a liderança, os desafios da hotelaria portuguesa e o papel indissociável dos eventos no turismo.

Quais considera os momentos mais marcantes da sua carreira, até aqui?

Tive muitos momentos desafiantes. Lembro-me, por exemplo, de uma ação em tribunal complicadíssima que adorei ganhar. Muito jovem, assumi funções como subdiretora-geral do Turismo e também muito jovem fui diretora de um Centro Jurídico no Ministério da Defesa Nacional — e foram responsabilidades grandes, complexas e interessantes. A Direção-Geral do Turismo, uma casa gigantesca, onde aprendi a conciliar o lado público com a ligação às empresas. Quem passou pela administração pública, como eu passei, está mais ou menos preparado para tudo [risos]. Tive um gosto enorme em trabalhar com Manuel Salgado, um visionário, uma pessoa com uma capacidade de trabalho extraordinária. Gostei de dar aulas, também. Na AHP, o crescimento tem sido notável: quando cheguei, a pagar quotas, tínhamos cerca de 250 associados e, neste momento, estamos perto dos mil. Destaco ainda o programa HEART, um programa de responsabilidade social e sustentabilidade ambiental corporativa - em 2012/2013 ninguém falava disto e foi uma luz nova que foi dada a uma atividade. Foi um dos momentos mais altos da minha carreira.

Houve pessoas que a marcaram especialmente ao longo da carreira?

Sou fã nº1 de André Jordan, como empresário, como pessoa, um visionário, com humor, uma joie de vivre, e com um amor por Portugal. Gostei muito de trabalhar com Alexandre Relvas: trouxe para a esfera pública a questão das Aldeias Históricas e instrumentos de financiamento inovadores. É uma figura muito importante e marca o meu ingresso na vida pública. Manuel Salgado, como arquiteto, como urbanista, foi uma inspiração na forma de desenhar e pensar a cidade. E mais recentemente destaco António Saraiva, que alia humanismo profundo, com a visão de um empresário. Estas figuras foram muito marcantes.

Que conselho daria a quem inicia hoje uma carreira no turismo e na hotelaria?

Eu não fiz uma carreira na hotelaria, não tenho experiência de ter uma formação em turismo, mas acho que a hotelaria é uma área de imenso potencial, desafios e possibilidades. Acho difícil outras empresas terem esta versatilidade e progressão que é possível ter sobretudo na hotelaria. É possível começar como bagageiro e sair como diretor de hotel e chegar mesmo à administração. E é mesmo assim como vos digo, eu conheço caso destes. É possível progredir, desde que haja formação, espírito de sacrifício e vontade de crescer. É uma área muito versátil, muito divertida. Quando deixei a advocacia, as pessoas disseram: ‘o turismo é servir à mesa’, mas eu acho que esta ideia é tão démodée, tão ultrapassada. É preciso gostar de pessoas, ser relações públicas, comunicar bem, avaliar oportunidades e tendências. O turismo é um setor de imensas possibilidades. Nós não temos empregados de mesa e empregados de andar, temos analistas de tendências, diretores de IT, inteligência artificial, especialistas em cibersegurança e proteção de dados, rececionistas, médicos, psicólogos, marketeers… Isto não é uma indústria para serviço de mesa, é especializada. Infelizmente, quando se perde capacidade de servir à mesa ou fazer quartos, trabalha-se pior. Quando se diz que é trabalho não qualificado, irrita-me imenso, todos os trabalhos são qualificados.


Como define o seu estilo de liderança?

Sou muito exigente e tenho uma pena fácil para a crítica. Sei que as pessoas procuram fazer o melhor e isso também as motiva. Também sou muito exigente comigo, não exijo mais do que aquilo que exijo a mim própria. Sou sensível quando me chamam a atenção e sou aberta e recetiva a ajustar a vida profissional com a pessoal. Mas também sou muito favorável à presença das pessoas na empresa. Acho que sou muito acessível, gosto que me venham bater à porta e gosto de organizações bastante ‘flat’.

Quais as competências críticas para liderar em momentos de incerteza?

Rapidez de adaptação e ponderação. É preciso agir depressa, mas sem perder a ponderação. São os dois pontos principais da balança. Muitas vezes é muito difícil, porque nós temos de responder no imediato a pressões, mas também temos então que ter a montante uma outra capacidade que é o discernimento. A pandemia mostrou-nos isso. Foi necessário politicamente, e depois na gestão, tomar decisões que não se sabiacomo é que depois iriam correr. Acrescentaria a capacidade de adaptação à mudança, a capacidade de previsão — perceber tendências, diversificar mercados e manter algum conservadorismo: não pôr todos os ovos no mesmo cesto. E depois uma qualidade que continua a fazer sentido: resiliência.

Como observadora atenta, quais são os três principais desafios que a hotelaria portuguesa enfrenta nos próximos anos?

O maior risco é a instabilidade geopolítica. Há duas coisas que param o turismo: uma pandemia e uma guerra. Outro desafio, no caso de Lisboa, o crescimento da oferta e perceber como vamos ter de gerir a oferta com um aeroporto limitado e, portanto,distribuir a ocupação que já temos por mais hotéis. E ainda a gestão da relação com as comunidades, face a problemas como o overtourism em alguns países, cidades, a habitação e o custo de vida. Isto é válido para todos os destinos turísticos.

E no que toca ao turismo de negócios e eventos?

No estado de maturidade que nós estamos ter eventos é como ter cultura. Sem eventos não há turismo, tal como sem cultura não há turismo. Os eventos são um pilar essencial e abrangem desde congressos médicos, aberturas de museus, festivais ou casamentos. É interessante o espaço que alguns eventos têm ganho no mercado interno. É fundamental valorizar tanto os internacionais, que têm grande retorno financeiro, como os nacionais, que fortalecem o mercado interno. Destinos turísticos maduros, como é o caso de França, têm um fortíssimo mercado interno, para eventos - e para o que quer que seja. Há uma responsabilidade aqui grande de ajustar os eventos ao público do mercado interno. Ajustar é tudo: posicionamento, preço, comunicação. Democratizar o acesso do público interno à organização de eventos é interessante. A relação entre turismo e eventos é íntima e é preciso estar muito atento a esta subárea do turismo e fluem bem junto de outros subsetores. Não conseguimos trabalhar bem se não trabalharmos unidos.

Hoje fala-se, cada vez mais, no legado dos eventos. Como olha para este tema?

A pensar nos festivais, que é o que conheço melhor de eventos, os que têm mais sucesso são os que trabalham melhor com a comunidade local. É evidente que isso tem efeito no momento em que ocorre, um bocadinho antes, um bocadinho depois… Mas não sei se é diferente do que é um hotel-destino, que tem de trabalhar também com as comunidades locais, tem de introduzir no seu ADN o produto, o tipo de serviço, os próprios costumes locais. Há eventos que correm pelo mundo, mas há outros que só acontecem porque são ali. E, portanto, esta mescla ‘aquele evento naquele destino’ tem de fazer sentido. É interessante fazer dos eventos algo que esteja intimamente relacionado com o local onde estão. Há eventos que se organizam porque há condições logísticas, um grande centro de congressos, mas, mesmo nestas situações, há sempre uma relação com o destino, com a comunidade, o poder fazer coisas ali que não posso fazer noutros sítios. E relacionar experiências com isto. Acho que os eventos têm sempre uma relação muito íntima com o destino; e acho que os eventos têm de se amarrar ao destino.

O que nos pode adiantar sobre o próximo congresso da AHP?

O próximo congresso da AHP será em fevereiro, no Porto, e terá como tema “Wake up call”. O mundo realmente mudou muito e é tempo de prever o futuro.

Cidade para viver?
Lisboa.

Destino de sonho?
Japão.

Uma comida de conforto?
Feijoada.

Uma música a que volta sempre?
Muito difícil. Tantas bandas, tanta música clássica… e volto sempre aos Beatles, mas cá vai uma das minhas opções: In to my Arms, Nick Cave.

Melhor evento a que já assistiu?
Foi o casamento do meu segundo filho. O meu filho compra e gere festivais de música em Londres e, portanto, o casamento teve várias bandas e foi maravilhoso.

Uma pessoa que admira?
O meu pai.

Personalidade que gostava de levar a jantar e onde a levava?
Elisabeth Strout, ao Palácio de Seteais (ou a um sítio para ver muito mar).

Na sua mala, o que nunca pode faltar?
Um par de ténis.

E o que é que nunca pode faltar num hotel?
Uma boa cama.