E o clima mudou o evento
18-08-2026
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As alterações climáticas: como “se acontecer” passou a “quando vai acontecer”.
Tempestades, ondas de calor, incêndios florestais, cheias e fenómenos extremos e imprevisíveis com um rasto de destruição gigantesco são cada vez mais comuns. Esta é a realidade com que o país, e consequentemente o setor dos eventos, tem de viver. O que podemos esperar do clima? E como lidar com esta situação? Procurámos algumas respostas.
“Os fenómenos climáticos extremos deixaram de ser excecionais — são hoje uma nova normalidade. Vieram para ficar e têm de ser incorporados, de forma estruturada, na conceção, planeamento e realização de eventos, sobretudo naqueles com forte componente outdoor ou ligação à natureza”, admite António Marques Vidal, presidente da APECATE (Associação Portuguesa das Empresas de Congressos, Animação Turística e Eventos).
A ciência reforça esta ideia. Gil Lemos, climatologista do Instituto Dom Luís, diz que existe “um carácter estrutural no aumento da magnitude (e em determinados casos também da frequência) de fenómenos extremos em Portugal, enquadrando-se naquilo que é o conhecimento científico relativamente aos impactos das alterações climáticas no clima português”.
Alteração sistémica no clima português
O especialista explica que os registos mostram uma tendência de aumento da temperatura média do ar, compatível com o aquecimento verificado à escala global. “O nosso país encontra-se numa zona de transição climática, entre as regiões secas dos subtrópicos e as húmidas, de cariz profundamente oceânico. É, portanto, uma zona de grande variabilidade natural”, explica.
A localização, só por si, não justifica a ocorrência de fenómenos extremos. Há fatores adicionais, como o aumento da temperatura na atmosfera – o que leva a mais retenção de vapor de água, precipitação mais intensa e, eventualmente, cheias – a subida do anti-ciclone dos Açores em latitude (com períodos secos mais longos, favorecendo secas e incêndios) ou um aumento da energia cinética, resultando na possibilidade de ventos localmente mais fortes.
Este cenário é traçado por projeções climáticas disponíveis para Portugal até ao final do século XXI. “Não se trata, portanto, de uma questão pontual e conjuntural, mas de uma alteração sistémica do clima português”, alerta.
As regiões mediterrânicas da Europa do Sul, onde Portugal se encontra incluído, são identificadas como um “hotspot” das alterações climáticas e, por isso, suscetíveis para ocorrência de fenómenos extremos de várias naturezas. Gil Lemos revela que as projeções traçam um cenário de aumento substancial na frequência, intensidade e duração das ondas de calor, maior ocorrência de noites tropicais, agravamento de secas e épocas de fogo mais longas. As “flash floods” (inundações rápidas), fenómenos de vento extremo e maior probabilidade de inundações costeiras também deverão ser mais frequentes.
Gil Lemos
O risco climático – e o seu impacto nos eventos – depende de três fatores, explica Gil Lemos: perigosidade, ou seja, um evento extremo ou potencialmente causador de dano; uma exposição ao mesmo, seja por parte da população, de infraestruturas, ou de uma combinação de ambos (no caso dos eventos); e uma vulnerabilidade, que determina a forma como os elementos expostos reagem a determinada perigosidade.
Neste último ponto, a dispersão geográfica – grandes aglomerados no litoral e pequenos núcleos no interior – é outro fator a ter em conta. “Ambas as situações oferecem um nível de vulnerabilidade elevado, quer pela grande densidade populacional (sendo que um fenómeno extremo pode afetar muitas pessoas de uma vez), quer pelo isolamento das aldeias e vilas no interior do país (onde os fenómenos extremos podem ter impactos mais prolongados)”, explica.
Os riscos para os eventos
Quando se fala em clima e eventos, a tendência será para pensar apenas nos que decorrem ao ar livre. “Os programas que envolvem interação direta com a natureza, atividades ao ar livre e dependência de transportes são naturalmente mais expostos a fenómenos extremos. Estes segmentos exigem planos de contingência mais robustos e uma gestão de risco mais aprofundada”, sublinha a APECATE.
No entanto, o risco acaba por ser transversal. “Ainda que os eventos ao ar livre enfrentem uma exposição direta ao calor extremo, à radiação solar intensa, ao vento forte, à precipitação extrema e, em alguns locais, aos fenómenos de cariz costeiro, eventos indoor não estão isentos de risco”, considera o climatologista do Instituto Dom Luís.
Exemplos destes riscos são ondas de calor que comprometam a segurança térmica de edifícios com climatização insuficiente, inundações rápidas que afetem acessos e estacionamentos, sistemas elétricos e a própria estabilidade da infraestrutura, fenómenos de vento extremo que causem falhas de energia prolongadas e danos estruturais que podem afetar os utilizadores do espaço.
“Os eventos junto ao mar (ainda que indoor) podem ser também afetados pelos galgamentos costeiros, de forma súbita, através da energia libertada pela agitação marítima”, sublinha, aconselhando, assim, a escolha de localizações que minimizem a exposição dos utilizadores à ação dos fenómenos extremos pontuais ou prolongados, uma vez que “as vulnerabilidades estruturais e logísticas podem aumentar grandemente o nível de risco associado”.
Como integrar o risco climático no planeamento de eventos?
O clima é, frequentemente, uma variável tida em conta no planeamento de eventos, sobretudo ao ar livre. Mas as alterações climáticas reforçam a necessidade de integrar o risco climático em todas as etapas do planeamento.
Algo que, de acordo com o especialista, pode ser feito em duas vertentes. Por um lado, e numa perspetiva a longo prazo, incorporando projeções climáticas à escala regional ou local, com uma análise probabilística relativamente à possibilidade de ocorrência de eventos extremos, contemplando todas as regiões onde os eventos poderão ter lugar. Esta abordagem é útil para a criação ou reforço de planos de contingência, para o planeamento de medidas de adaptação climática e para a definição de protocolos de adiamento ou cancelamento com base em limiares de segurança.
Contudo, as projeções a longo prazo não conseguem prever as condições concretas para o dia ou dias do evento. Daí que seja necessária uma segunda vertente, assente na monitorização contínua de previsões meteorológicas, dos avisos oficiais emitidos pelo IPMA – Instituto Português do Mar e da Atmosfera e dos alertas da Proteção Civil, com uma atualização frequente nos dias que antecedem o evento.
“A monitorização meteorológica, o nowcasting – previsão local a muito curto-prazo – e o acompanhamento da evolução das previsões de uma forma mais geral são ações que devem ser tomadas de uma forma conjunta e até contínua, antes e durante o evento”, aconselha.
Ainda assim, adverte o especialista, podem existir dificuldades do ponto de vista da previsão em períodos de instabilidade atmosférica, que levam à ocorrência de trovoadas súbitas, forte precipitação, granizo (por vezes de dimensão considerável) e mesmo fenómenos extremos de vento, como “downbursts” ou tornados.
“Neste tipo de situações, é possível alocar uma probabilidade de ocorrência para estes fenómenos com alguns dias de antecedência, sendo o período das 24-72 horas anteriores ao evento o mais relevante para perceber a tipologia de fenómenos extremos que poderão ocorrer, e quais as zonas que poderão ser afetadas.”
A importância da previsão para a sustentabilidade e a reputação das empresas
Se é certo que o clima está a mudar e que os fenómenos extremos têm de ser considerados como parte da equação, o que devem fazer as empresas do setor para lidar com esta realidade? E qual a importância da previsão não só para o sucesso do evento, mas também para a segurança dos participantes e para a própria reputação dos organizadores?
“As empresas têm vindo a integrar previsões de emergência nos seus programas, mas ainda de forma pouco concertada. Muitas iniciativas partem de decisões individuais, mais do que de uma estratégia coletiva e articulada do setor”, diz o responsável pela APECATE, admitindo que esta é uma fragilidade já identificada pela associação.
“Existe ainda uma cooperação limitada entre empresas e uma adesão reduzida a dinâmicas associativas. Predomina, em muitos casos, uma visão de curto prazo, quando o contexto atual exige uma abordagem estratégica, colaborativa e orientada para o futuro”, lamenta. Contudo, é importante alterar esta perceção algo redutora, porque as consequências são graves.
“Num setor tão dependente do território, da natureza e da mobilidade, preparar-se para a instabilidade climática deixou de ser uma opção — é uma condição essencial de sustentabilidade económica e reputacional”, sublinha António Marques Vidal.
António Marques Vidal
A opinião de Gil Lemos vai no mesmo sentido: “Parece-me fundamental tratar o risco climático como uma questão estrutural e não conjuntural, devendo ser considerado como uma variável estratégica permanente associada ao modelo de negócio”. Por isso, defende que o ideal seria que “as organizações tivessem ao seu dispor o melhor conhecimento científico sobre o risco climático em Portugal, as projeções para o futuro e planos de adaptação de cariz infraestrutural, logístico e económico”.
Garante que “existe consenso na comunidade científica em afirmar que a adaptação é também uma oportunidade económica, podendo constituir uma vantagem competitiva pela redução de externalidades associadas a fenómenos extremos, pela transparência na comunicação e pelo compromisso com a segurança, o que tende a reforçar a confiança dos patrocinadores, participantes e autoridades”.
“Num contexto de crescente escrutínio público, a adaptação a extremos climáticos é também uma questão reputacional. A adoção de uma postura proativa e baseada no conhecimento científico, com uma forte cultura de risco e planeamento adaptativo, são hoje componentes essenciais de uma organização responsável e sustentável”, sublinha.
Um estudo prévio do risco climático é essencial para formular planos de emergência adequados, protocolos de evacuação agilizados com pontos de abrigo e refúgios climáticos. No verão, o acesso à água potável e o reforço ou criação de espaços climatizados são essenciais. A presença e/ou reforço de sistemas elétricos redundantes é igualmente vital, não só para garantir os serviços necessários ao conforto humano durante os eventos, mas também para permitir a comunicação com os participantes, entre os participantes e com o exterior, de forma eficaz, no caso da ocorrência de fenómenos extremos.
Os impactos duradouros (e financeiros)
A proatividade é, por isso, crucial para evitar ou mitigar as consequências do clima num evento. Mas os efeitos dos fenómenos extremos, alerta a APECATE, são bastante mais vastos.
“O impacto vai muito além do momento em que o fenómeno acontece. A destruição de zonas naturais, estruturas, equipamentos e serviços obriga a processos exigentes de recuperação e à necessidade de recriar a atratividade dos destinos”, diz António Marques Vidal.
O inverno de 2026 acaba por ser uma chamada de atenção: “Os acontecimentos recentes são exemplo disso mesmo: não apenas pelos efeitos imediatos, mas pela dimensão dos danos causados e pelo enorme esforço necessário para repor condições mínimas de funcionamento. No curto prazo, verificam-se alterações no consumo — clientes que evitam determinadas regiões devido a temperaturas extremas ou instabilidade meteorológica — com consequências diretas na procura.”
A associação do setor lembra ainda “impactos financeiros significativos causados por cancelamentos e adaptações de última hora, quer em eventos, quer em programas de animação turística, devido a condições meteorológicas adversas, incêndios ou cheias”.
“Desde os incêndios de verão até à sucessão de tempestades e inundações, os prejuízos têm sido evidentes. Além das perdas imediatas por cancelamentos, há efeitos a médio e longo prazo: destruição de infraestruturas, redução da oferta de serviços e diminuição da atratividade dos destinos. Estimam-se prejuízos que podem variar entre 1.000 euros e mais de 4.000.000 euros, dependendo da tipologia e dimensão do evento ou programa empresarial”, conclui.
Indicadores a ter em conta ao planear um evento
Dependendo da localização do evento e das previsões a curto-prazo, devem ser acompanhados:
- temperatura, com destaque para a duração e intensidade previstas e observadas de ondas de calor e índice de desconforto térmico (“heat stress”), que integra a humidade relativa e, em alguns casos, radiação solar e vento;
- precipitação prevista e observada às escalas horária e sub-horária – que definem a organização da jornada de trabalho e os períodos de descanso;
- em locais próximos de, ou em leitos de cheia: precipitação acumulada nos dias anteriores, que influencia a capacidade de o solo reter água adicional;
- vento: rajadas máximas previstas;
- em períodos secos e quentes, a monitorização do índice meteorológico de incêndio, especialmente nos eventos em interface urbano-florestal;
- em eventos junto à costa: interação entre agitação marítima, marés e outros fatores que contribuem para galgamentos e inundações.
Um novo calendário?
Poderão as alterações climáticas obrigar a alterar o tradicional calendário de eventos? Para Gil Lemos, é provável que sim, dado que “as projeções indicam, de forma clara, que os verões se tornarão mais quentes, em especial no interior do país, com ondas de calor mais frequentes e duradouras, o que pode tornar determinados períodos críticos menos seguros para grandes concentrações, quer ao ar livre, quer em espaços com climatização insuficiente. Como os períodos quentes tendem a ser mais longos, os desafios podem prolongar-se até ao outono”, adverte.
“A deslocação temporal de grandes eventos para estações intermédias, ou a deslocação física dos mesmos para zonas climatologicamente mais frescas (como o litoral), poderá reduzir riscos operacionais e sanitários”, aconselha.
Comunicar o risco climático sem gerar pânico
A crescente compreensão do conceito de risco climático pode facilitar a comunicação dos organizadores de eventos com os participantes. Alguns pontos a ter em conta:
- informação clara, transmitida com transparência e baseada em informações rigorosas e científicas
- contextualização do risco, facilitando os comportamentos adequados em caso de emergência
- comunicação das medidas que vão ser adotadas e das ações esperadas dos participantes
- reforço de que existe sempre um grau de incerteza associada às previsões
- a comunicação não deve ocorrer apenas quando o fenómeno extremo é iminente
- informação prévia de que o evento dispõe de protocolos de risco climático, e que decisões poderão ser tomadas com base em limiares críticos (cria expectativas realistas e reduz reações emocionais abruptas caso seja necessário alterar planos)
- clarificação do que está a ser feito por parte da organização ou do que se espera numa situação de ocorrência de fenómenos extremos ou emergência (por exemplo, existência de refúgios climáticos, reforço de equipas médicas, planos de evacuação, etc.).
© Olga Teixeira Redação
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