Menos pirotecnia, mais autenticidade, é um caminho?

Opinião

04-03-2026

# tags: Eventos

No mundo dos eventos, habituámo-nos a medir o impacto pelo número de decibéis, pela quantidade de luzes em movimento e pelo tamanho dos efeitos especiais.

Criámos a ilusão de que a intensidade do brilho é a mesma que a intensidade da memória. Mas será mesmo assim? Tenho dúvidas. Aliás, tenho cada vez mais a certeza de que não.

Tenho visto espetáculos que começaram com um estrondo e terminaram num silêncio vazio, onde nada ficou para além da fotografia partilhada nas redes sociais. E, pelo contrário, como músico profissional e produtor de centenas de eventos, já vivi momentos em que um simples acorde, tocado no instante certo, atravessou a sala como um sussurro cúmplice e ficou gravado na pele de todos os presentes.

Autenticidade não significa pobreza de meios nem nostalgia de um passado romântico. É, antes, a arte de alinhar cada gesto com um propósito, de dar sentido a cada nota, a cada cor, a cada palavra dita. É como compor uma peça musical: não basta tocar todas as notas possíveis — é preciso escolher as certas e deixá-las respirar. Digo-o na qualidade de compositor.

Quando conseguimos isso, o evento deixa de ser apenas um espetáculo e transforma-se numa experiência com alma. O convidado não se recorda apenas do fogo de artifício final, mas daquele olhar trocado entre artistas e público, do detalhe inesperado que parecia ter sido pensado só para ele, da história que continuou a ecoar muito depois de as luzes se apagarem.

Autenticidade é também escutar o lugar onde se está. É deixar que o território e a sua gente se tornem parte da narrativa, não como figurantes, mas como protagonistas. É substituir o cenário genérico pela paisagem viva, os adereços artificiais pelos elementos que já habitam o espaço. É deixar que o rio, a pedra ou o silêncio de uma praça sejam parte integrante da encenação.

Não defendo o abandono da tecnologia, nem a renúncia ao deslumbramento visual. Há momentos em que a grandiosidade é necessária e até mágica. Mas acredito que o futuro dos eventos mais memoráveis passará por um equilíbrio delicado: o da centelha que ilumina sem cegar, do som que envolve sem ensurdecer, do gesto que emociona sem precisar de se gritar.

No fim, a verdadeira “pirotecnia” não é a que explode no céu e se desfaz em segundos, mas a que acende por dentro e continua a arder, invisível, muito depois de todos terem regressado a casa.

© Miguel Oliveira Opinião

Diretor Artístico da Imagin’art– Performing Arts

LinkedIn