Nos Alive 2026: Música, literatura e ativações de marca ao mesmo ritmo

Reportagem

13-07-2026

# tags: Festivais , Eventos , Nos Alive

O Nos Alive regressou no passado fim-de-semana ao Passeio Marítimo de Algés para a sua 18ª edição, num ano em que dois dos três dias esgotaram meses antes da abertura de portas e o terceiro ultrapassou os 70% de lotação.

Entre nomes maiores como Foo Fighters, Nick Cave & The Bad Seeds, Twenty One Pilots, Florence + The Machine e Lorde, e o regresso muito aguardado dos Buraka Som Sistema, o festival voltou a confirmar-se como um dos pontos altos do verão musical.

A programação de 2026 manteve a fórmula que tornou o Nos Alive um dos festivais mais equilibrados do circuito europeu: cruzar headliners globais com uma escolha de artistas eclética, distribuída por sete palcos. Para além do Palco Nos e do Palco Heineken, o recinto contou com o WTF Clubbing Stage (dedicado à música eletrónica), o Coreto, mais voltado para talento nacional emergente, o Palco Comédia, o Galp Fado Café e ainda um novo palco literário, que este ano recebeu conversas com Valter Hugo Mãe, Afonso Cruz e Luísa Sobral, entre outros. No total, realizaram-se mais de 120 atuações, ao longo dos três dias, com uma afluência de 160 mil espetadores.

O recinto como montra de marcas

Se a música continua a ser o motor do Nos Alive, o recinto do Passeio Marítimo de Algés consolidou-se, edição após edição, como uma das maiores plataformas de ativação de marca em Portugal. As presenças vão muito além do naming de palcos ou da distribuição de brindes: são espaços devidamente preparados, experiências imersivas e conteúdos pensados especificamente para o público do festival. Este ano, mais de trinta marcas ocuparam o recinto com stands, experiências e dinâmicas próprias — do banco à cerveja, da moda à alimentação.

A Heineken, cerveja oficial do evento e responsável pelo naming do Palco Heineken, continuou a apostar na Heineken® Star Experience, sessões diárias conduzidas por um beer sommelier vindo da Heineken® Experience de Amesterdão, para ensinar a servir "a Heineken perfeita". A marca mantém também a aposta em sustentabilidade energética, com dezenas de painéis solares e baterias de armazenamento a converter parte da cerveja servida em energia limpa, e o sistema de copos reutilizáveis, cuja devolução reverte em donativos para associações como a Brigada do Mar, a Apoiarte – Casa do Artista e o Mundo Feliz.


A grande estreia da Heineken House este ano é o Clinker, uma pulseira inteligente apresentada em exclusivo no Nos Alive depois de passagens por Coachella e por festivais em Itália. Catarina Ferraz, responsável de marketing da marca, explica que o dispositivo nasce da campanha global "os fãs que têm mais amigos" e funciona de forma simples: "quando uma pessoa faz login, linka-se diretamente com o perfil do Spotify" e, a cada brinde com outro utilizador do stand, o sistema cruza os gostos musicais dos dois. Segundo Catarina Ferraz, o objetivo é traduzir em experiência real a ideia de que "quando há uma paixão que une as pessoas, há mais predisposição para fazer novas ligações". A responsável admite que a tecnologia está ainda "em modo piloto" à escala global e que o Nos Alive é a primeira paragem onde o Clinker vai funcionar de forma consistente ao longo de todos os dias de festival, o que deverá permitir à marca reunir os primeiros dados sólidos sobre o comportamento do público português. Para Catarina Ferraz, o investimento tecnológico faz parte do ADN da marca: "queremos trazer experiências sofisticadas, e tudo o que seja mais tecnológico traduz também esse pioneirismo".


Entre as novidades de 2026, destaca-se a presença da Skechers, que assina a sua primeira grande campanha integrada no festival, desenvolvida pela Garra sob o conceito "Leveza que se sente. Energia que se vive". O espaço combina design, interação e contacto direto com a coleção ao longo dos três dias, numa estratégia que se estende também às lojas aderentes em todo o país, amplificada por rádio, redes sociais e criadores de conteúdo digitais. Eduarda Monteiro, gestora de eventos da Garra e responsável pela ativação, resume o stand a duas dinâmicas centrais: a Dancing Machine, em que os festivaleiros são desafiados a fazer passos de dança e os três melhores do dia ganham um par de Skechers, e um photobooth que atribui desconto para uma compra em loja — além de um piso superior reservado a convidados da marca. A ligação entre dança e produto, explica, decorre diretamente do conceito da campanha: "as Skechers dão uma leveza no caminhar, no andar e no saltar. A dança, porque obriga a saltar, obriga também a sentir essa leveza". Em termos de conceção do espaço, a equipa optou por uma linguagem visual simples, com uma sapatilha gigante a servir de elemento central de destaque, seguida de uma pequena exposição de produto e das próprias animações. Os resultados são medidos através do ranking da Dancing Machine, do número de participações e fotografias captadas no photobooth e do controlo de acessos ao piso superior. Questionada sobre a montagem do stand, Eduarda Monteiro elogia a colaboração com a organização do festival: "são super acessíveis, super atenciosos e não complicam — ajudam".

Ciência em modo festival: o "speed dating" do GIMM

Nem todas as presenças no recinto vendem produto. Desde 2008 que o Instituto Gulbenkian de Ciência e Medicina Molecular (GIMM) — resultado da fusão recente entre o Instituto Gulbenkian de Ciência e o IMM — mantém um stand no NOS Alive, fruto de uma parceria em que a Everything Is New patrocina bolsas de estudo a investigadores da instituição. Este ano, a ativação foi reforçada com a agência iMotion, responsável pelo conceito e produção do espaço.


Filipa Pinote, da iMotion, explica que o stand perseguiu dois objetivos: apresentar a marca GIMM ao público geral do festival e atrair visitantes para o GIMFest, evento científico da instituição marcado para Setembro. A ligação entre os dois universos é feita através de uma "micro rave", que estabelece um paralelismo lúdico entre o movimento aleatório dos micróbios e a dança, e de um formato batizado "speed dating da ciência", em que investigadores do instituto respondem a perguntas do público duas vezes por dia. Carmo Só, responsável pela comunicação do GIMM, descreve o objetivo do formato: a instituição reúne "600 investigadores que fazem investigação científica nas mais diversas áreas" e o stand serve para "esclarecer as dúvidas do público" sobre temas que vão da investigação oncológica a doenças neurodegenerativas, num esforço deliberado de "sair um bocadinho dos laboratórios" e mostrar à sociedade civil o impacto real da ciência. Este ano, garante Carmen Só, o investimento no espaço foi reforçado precisamente para consolidar a nova marca GIMM, ainda recente. Joana Antunes, também da iMotion, resume os desafios técnicos de montar um stand científico num festival — "o contentor vem mais empenado do que aquilo que nós achamos", ou o sol que "queimou a alcatifa" — mas destaca a boa relação com a organização: "não houve nada que eles não nos ajudassem".

O novo pórtico de entrada no recinto

Antes de qualquer concerto, a primeira experiência de marca do festival acontece ainda na fila de acreditação: o pórtico de entrada, desenvolvido este ano pela empresa de arquitetura efémera Feeders em conjunto com a Everything Is New e a Nos. Maria Tiago, da Feeders, explica que o desafio partiu de uma vontade de romper com a solução do ano anterior — “um logótipo extrudido e completamente exposto desde o primeiro momento” — para criar antes uma "experiência" progressiva, quase um túnel, onde a marca só se revela por completo a meio do percurso. Segundo Maria Tiago, a estrutura foi pensada para que quem está na fila veja primeiro "Nos Alive" por inteiro e, à medida que avança, perceba a tridimensionalidade do pórtico: as letras "Alive" alongam-se progressivamente até se transformarem nos característicos "spikes" da identidade visual da NOS, revelando a marca apenas quando o visitante já está dentro da estrutura. Entre os principais desafios técnicos esteve a coexistência do pórtico com a passagem de camiões, camionetas e viaturas de emergência, e a fixação de um monobloco de grandes dimensões com muitas letras suspensas. Para a responsável, o resultado traduz uma opção deliberada de a marca "ser vivida e experienciada", em vez de simplesmente exibida: "que as pessoas sintam, quando passam pelas nossas estruturas, que é uma experiência — e que marque".


© Nuno Cruz

O palco literário: quando os livros também fazem parte do cartaz

A grande novidade estrutural da edição de 2026 não teve amplificadores nem luzes de espetáculo: foi o palco literário, o oitavo palco do festival e o primeiro espaço da história do Nos Alive dedicado inteiramente aos livros, à escrita e à reflexão criativa. Situado junto ao Coreto, o novo espaço juntou, ao longo dos três dias, autores portugueses contemporâneos em conversas que cruzaram literatura, música e processo criativo — uma extensão natural da lógica multidisciplinar que já tinha levado o festival a incluir comédia, podcasts e fado no seu recinto.

A programação reuniu cinco sessões em três dias. No dia 9 de julho, o palco literário abriu com "A Que Soam os Livros?", conversa entre o escritor Valter Hugo Mãe e a radialista e escritora Ana Markl, seguida de "Greatest Hits", com Pedro Chagas Freitas, também moderada por Markl. No dia 10, a ponte entre escrita e composição musical ganhou destaque em "Das Letras à Música", que juntou a cantora e compositora Luísa Sobral e o escritor Afonso Cruz, com moderação de Pedro Boucherie Mendes. O último dia, 11 de julho, encerrou o ciclo com "Ensaiar a Escrita", conversa entre Ana Bárbara Pedrosa e Francisco Guimarães moderada por David Azevedo Lopes, e fechou com "Isto Não Tem Nada a Ler", apresentação de Hugo Van Der Ding.

A iniciativa contou ainda com uma parceria com os CTT, que garantiram o envio para casa das compras de livros feitas no recinto — um detalhe logístico que reforça a intenção da organização de tratar a literatura não como um extra decorativo, mas como uma experiência de consumo cultural tão real quanto um concerto ou um brinde de marca.

O que distingue o NOS Alive de outros festivais de grande escala é precisamente esta convivência entre cartaz e ativação: as marcas deixaram de ser um pano de fundo discreto para passarem a fazer parte da própria narrativa de experiência do festivaleiro. A próxima edição já tem data definida: 8, 9 e 10 de Julho de 2027.


Jorge Ferreira

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