Protocolo não é formalidade – é comunicação e estratégia

Opinião

04-09-2026

# tags: Protocolo , Eventos , APOREP

Durante muito tempo, o protocolo foi visto como um conjunto de regras rígidas e cerimoniais, herança de um passado (monárquico) distante da dinâmica das organizações contemporâneas. Esta é, porém, uma visão desadequada e redutora.

O protocolo não só constitui um pressuposto do bom funcionamento da vida em sociedade – na medida em que regula muitas das nossas interações sociais e profissionais –, como tem evoluído para acompanhar os novos contextos empresariais e institucionais, mais informais, rápidos e exigentes. Falar de protocolo no século XXI é, por isso, falar de comunicação e de estratégia.

No contexto da comunicação organizacional, o protocolo assume um papel muitas vezes discreto, mas decisivo: ajuda a gerir a forma como a organização se apresenta, se relaciona e é percecionada pelos diferentes públicos. Está presente nas interações com clientes e parceiros, moldando comportamentos, orientando práticas e definindo expectativas. Ao estabelecer códigos de conduta e formas de interação, contribui para a coerência das mensagens organizacionais. Em última análise, participa ativamente na construção da imagem e da reputação, funcionando como um elemento estruturante da comunicação.

Mas o seu impacto não se limita ao exterior. Dentro das organizações, o protocolo também comunica de modo intenso. Está nas formas de tratamento, nos modelos de condução de reuniões, na gestão das hierarquias e nos rituais do quotidiano organizacional, cuja estruturação pode ir da maior formalidade à informalidade. Influencia a comunicação interpessoal e pode facilitar a fluidez dos processos. Quando bem ajustado, promove clareza, previsibilidade, eficiência e um clima organizacional positivo.

Nos eventos e momentos institucionais, o protocolo ganha ainda maior visibilidade e impacto. A definição de precedências, a organização de rituais ou o modo como se acolhem convidados não são meros detalhes operacionais - são, antes, momentos-chave de comunicação. Cada escolha traduz posicionamento, atenção ao detalhe e respeito pelos interlocutores. Estes elementos transmitem profissionalismo, coerência e credibilidade, contribuindo para a construção de experiências significativas que permanecem na memória dos participantes, reforçando a ligação à organização.

Há ainda uma dimensão menos visível, mas igualmente relevante: o protocolo como portador de simbolismo. Cada gesto, cada regra e cada escolha comunicam algo sobre a identidade da organização, os seus valores e a sua cultura. O protocolo evoca o passado, através de práticas e rituais, ao mesmo tempo que estrutura o presente e orienta o futuro. Ao reforçar referências comuns e expectativas partilhadas, contribui para um ambiente mais coeso, estável e alinhado, sendo um recurso importante para a continuidade e sustentabilidade organizacional.

Importa, no entanto, não esquecer o outro lado. Quando mal gerido ou aplicado de forma acrítica, o protocolo pode tornar-se um obstáculo à comunicação e às relações. Pode criar barreiras desnecessárias, alimentar tensões, reforçar desigualdades e complicar o que deveria ser simples e funcional. Em vez de aproximar, pode afastar. O desafio está, por isso, no equilíbrio – entre estrutura e flexibilidade, entre regra e contexto, entre tradição e adaptação às novas realidades organizacionais.

Mais do que um conjunto de normas, o protocolo é, assim, uma linguagem silenciosa, mas altamente eficaz. E, como qualquer linguagem, pode - e deve - ser utilizada de forma estratégica para reforçar relações, alinhar comportamentos, reduzir ruído e dar consistência à comunicação das organizações num contexto cada vez mais exigente e competitivo.

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© Teresa Ruão Opinião

Professora da Universidade do Minho e Membro do Conselho Consultivo da APOREP

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