Sofia Pascoal: “Acredito que o mundo oferece lições valiosas”
25-02-2026
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Depois das experiências em Espanha, Bélgica, China, Angola e Moçambique, Sofia Pascoal rumou ao Catar.
Sofia Pascoal é hoje MICE Senior Business Development & Sales do Visit Qatar. Mas, até aqui chegar, há anos de experiências e desafios. Formada em Hospitality Management, desde cedo percebeu que, para se “desenvolver verdadeiramente na área, precisaria de experiências internacionais”, sendo essa uma das razões que a levaram a escolher o mundo da hotelaria, refere à Event Point.
Conta que, nesse sentido, procurou sempre oportunidades de aprendizagem com “diferentes culturas e realidades de mercado” e que, sempre que a oportunidade surgiu, realizou estágios fora do país. E assim entrou na área comercial e de eventos.
“Os meus primeiros passos fora de Portugal começaram na Europa (Espanha e Bélgica), onde pude expandir a minha visão e adaptar-me a diferentes mercados e formas de trabalhar, embora relativamente semelhantes a Portugal. Em seguida, tive a oportunidade de trabalhar na China, onde a dinâmica dos negócios e a diversidade cultural me desafiaram de formas que nunca tinha imaginado”, afirma.
Depois, rumou a África, para Angola e Moçambique, países distintos, com as suas especificidades, “o que me permitiu ampliar ainda mais as minhas competências”. Atualmente, está no Catar, “uma experiência totalmente nova, mas que me tem permitido crescer e continuar a desafiar-me”, adianta.
Sofia Pascoal acredita que todas estas experiências a ajudaram “a desenvolver não só as competências técnicas, mas também a resiliência, a flexibilidade e a capacidade de me adaptar rapidamente a novos contextos. Cada etapa foi uma lição e uma oportunidade de me tornar mais completa como profissional e pessoa”.
“Flexibilidade e empatia são fundamentais para gerar experiências bem-sucedidas”
Os pais incentivaram-na “a explorar o mundo e a procurar novas experiências”, algo que nunca hesitou fazer. “Eles sempre me ensinaram que o sucesso vem não só da competência técnica, mas também da capacidade de nos adaptarmos às diversas situações, a sabermos fazer de forma independente, e de lidarmos com os outros de forma genuína e respeitosa. Noutras palavras, a sermos lutadores”, conta.
A nível pessoal, trabalhar em diferentes países trouxe o desenvolvimento da confiança e capacidade de comunicação. Percebeu que tinha de se expressar “com clareza e assertividade, sem receios de cometer erros”. “Isso ajudou-me a tornar-me uma pessoa mais segura de mim mesma, sem receio de me expor, e a aprender a lidar com situações e desafios de forma mais descontraída.”
A título profissional, Sofia Pascoal aponta que estar exposta às diversidades, “ensinou-me a perceber as nuances de cada mercado e a adaptar as minhas abordagens para obter os melhores resultados. A flexibilidade e a empatia são fundamentais para gerar experiências bem-sucedidas, e essa experiência internacional permitiu-me entender as necessidades de diferentes públicos e liderar com mais eficácia equipas multiculturais”, sublinha.
Sofia Pascoal sempre teve uma forte vontade de viajar e de conhecer diferentes culturas. “Acredito que o mundo oferece lições valiosas, e quis que a minha carreira fosse uma extensão disso.” Assim, “trabalhar em diferentes países tem sido uma forma de combinar a minha paixão por viajar com o desenvolvimento da minha carreira, adquirindo uma visão mais ampla na indústria”, frisa.
E apesar do facto de estar rodeada de pessoas com visões distintas ser “extremamente enriquecedor” – sendo até “uma das maiores vantagens dessa experiência” –, a diferença de mentalidades é um dos maiores desafios que enfrenta. “Há sempre aquele momento em que percebes que o que para nós parece senso comum, noutro contexto não faz sentido algum. E, claro, a comunicação e a adaptação a essas realidades podem ser um desafio. No entanto, encaro isso como uma oportunidade de crescimento e, no final, ficam boas memórias”, explica.
“Cada projeto é único”
A diversidade e a dinâmica do trabalho são o que mais a atrai no setor dos eventos. “Cada projeto é único, o que significa que nunca há um dia igual ao outro”, e contactar com pessoas de diferentes áreas e origens enriquece a experiência e permite uma aprendizagem contínua. E estar envolvida “em projetos interessantes e desafiantes” mantém a sua motivação “sempre em alta”, acrescenta.
São vários os projetos que marcaram a sua carreira. Um deles ocorreu no Catar, durante o pico da pandemia de covid-19, enquanto trabalhava no departamento de vendas e eventos de uma cadeia hoteleira internacional. Percebeu “uma oportunidade no meio da crise”, fechando um negócio com um cliente corporate, garantindo “alojamento (em estilo de quarentena) para os hóspedes” em vários hotéis da cadeia na mesma cidade.
“Este projeto foi particularmente marcante, porque não só exigiu uma capacidade de adaptação muito grande, como também me mostrou a importância de manter a calma e a visão estratégica em tempos de incerteza. Senti que consegui fazer a diferença num momento crítico, o que para mim foi uma grande realização”, afirma Sofia Pascoal, para quem os contratempos são “inevitáveis” na indústria dos eventos, mas que são também “oportunidades de inovar e agregar valor”.
O orgulho de ser portuguesa
“Levo sempre com orgulho o facto de ser portuguesa”, sublinha. “Acredito que a nossa forma de abordar desafios e problemas, com vontade de resolver as situações, é algo que nos distingue. No geral, somos pessoas de fácil trato, simples e estamos sempre dispostas a fazer o esforço de aprender a língua dos outros para estabelecer uma ligação genuína”, aponta Sofia Pascoal, que diz, em tom de piada, que “não somos perfeitos, mas andamos lá perto”.
Sofia Pascoal entende que Portugal se tem “destacado cada vez mais no setor dos eventos, especialmente na área de MICE, e é visto como um verdadeiro exemplo a nível internacional”. Mas há melhorias a fazer: na acessibilidade, no reforço de incentivos financeiros para eventos MICE e na integração de mais inovações tecnológicas.
No fundo, considera que, “combinando um apoio financeiro mais robusto com um foco maior na tecnologia, Portugal teria um grande potencial para se destacar ainda mais no mercado internacional de eventos”.
“Uma experiência que, embora desafiante, é altamente recompensadora”
Aos que pretendem trabalhar internacionalmente em eventos refere que “basta manterem-se abertos a novas experiências e serem flexíveis. Cada mercado tem as suas especificidades e a capacidade de adaptação é essencial”.
Recomenda que procurem “sempre aprender e absorver as melhores práticas de cada lugar em que trabalha, pois isso só fará com que se torne mais completo e competente. No fim, é uma experiência que, embora desafiante, é altamente recompensadora”.
Embora Portugal tenha um lugar especial e cativo no seu coração – além de todas as saudades que se somam –, há um desafio: a competitividade salarial e financeira. Sofia Pascoal pensa cada vez mais em regressar, mas entende que, embora o país tenha muito para oferecer, “a nível financeiro e salarial, ainda existem algumas áreas onde os incentivos e a competitividade dos mercados internacionais são mais vantajosos”.
Daí que a decisão vai depender, “em parte, de como o mercado português evoluir e de oportunidades que possam surgir que sejam compatíveis com o nível de experiência e os desafios que procuro”. Ou seja, “Portugal é sempre um destino de coração, mas o fator financeiro e as oportunidades no mercado de trabalho são atualmente determinantes para a minha decisão”, conclui.
© Maria João Leite Redação
Jornalista
