Miguel Carneiro: “Sou uma pessoa muito motivada pela tela em branco”

Entrevista

22-08-2023

# tags: Apps , Eventos , Congressos , Tecnologia , ShakeIt

Apaixonado por ligar pessoas e resolver problemas, Miguel Carneiro, aka “mágico do software”, criou a ShakeIt com o propósito de desenvolver mobile apps e cedo percebeu que os eventos seriam um mercado interessante.

Nesta conversa, que decorreu nos estúdios da ShakeIt, no Porto, falou-se de pandemia, do estado dos eventos e das tecnologias que os vão revolucionar.

O que é que faz um “mágico de software”?

[risos] Acho que comecei a colocar isso no subtítulo das minhas redes sociais e na assinatura do meu e-mail por representar aquele sentimento dos clientes que não estão tão confortáveis com a tecnologia quando, depois de uma conversa de levantamento de requisitos, a programação os faz dizer “era mesmo isto!”. É das coisas que mais me atraem na programação, é o impacto que isto tem em quem depois utiliza o software. Acho que me identifiquei bastante com esta magia, até quando trabalhei na Porto Editora. Tínhamos uma piada interna, de que os bocadinhos de software que eu fazia eram as ferramentas mágicas, e acho que foi isso que depois inspirou o “mágico de software”. Resolver um problema é uma paixão minha, profissional, e é daquelas coisas que me motivam.

Como é que começou o teu percurso e como é que chegaste à área dos eventos?

Na faculdade estudei Inteligência Artificial e Ciência dos Computadores na Universidade de Edimburgo, na Escócia. Na altura, obviamente, os eventos não estavam na minha cabeça, mas na verdade não tinha muito bem definido um percurso para mim mesmo. Na altura, a inteligência artificial era uma coisa que me atraía muito, principalmente pela ligação ao modo como o cérebro funciona. Mas também percebi que gostava de voltar a Portugal depois do curso e, portanto, quando chegou ali um momento de especialização, entre este dual degree, escolhi Computer Science, a parte de programação. Quando voltei, trabalhei dois anos na Wipro, como analista de sistemas. Era um trabalho que me obrigava a viajar muito. Nesses dois anos, estive seis meses em Scunthorpe, que é nos arredores de Leeds, no Reino Unido, e também estive um ano entre Boston e Harrisburg, que é a capital da Pensilvânia, a fazer o software que permitiu depois dois grandes supermercados juntarem-se.

Talvez este percurso, ou esta experiência na Wipro, não tenha a ver com o mundo dos eventos, mas tem claramente com a compreensão do que são sistemas de informação e há uma parte dos eventos que assenta nos sistemas de informação. Ao fim de dois anos, decidi fazer um mestrado de Engenharia de Serviços e Gestão, na FEUP -Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, que, olhando agora para trás, acrescentou muito valor para aquilo que foi depois a história da ShakeIt. O curso estuda genericamente os serviços e os processos de serviços e como eles assentam em tecnologia, e aqui sim já consegues ver um paralelo muito claro com aquilo que são os eventos. Depois deste mestrado, trabalhei como Gestor de Projeto na Porto Editora para conteúdos multimédia, e acho que também contribuiu para a caminhada, porque foi a primeira oportunidade que tive de participar o mais próximo possível daquilo que é a organização de trabalho, gestão de equipas. Estas pecinhas todas juntas foram aquilo que me colocou na posição de criar a ShakeIt.

E inicialmente qual foi o propósito da ShakeIt?

O objetivo era apenas fazer apps. Apaixonei-me pelo momento iPhone do Steve Jobs, aquele ‘slide to unlock’, e pensei: isto sim, é uma coisa tão intuitiva que pode ter um impacto muito grande no mundo. Ter computadores na mão de toda a gente é uma coisa que de facto mudou o mundo. A primeira app que nós fizemos foi, por acaso, na área da medicina, que acabou por ser a nossa primeira área nos eventos. Antes de programar qualquer código fazia uma proposta, mas ainda por cima, na altura, as apps eram praticamente inexistentes, portanto era mais a questão de conseguir convencer as pessoas de que aquilo era realmente necessário. Por outro lado, não era um dado garantido que toda a gente tinha smartphone, e também naquela altura normalmente escolhia-se: ou se desenvolve para iPhone ou se desenvolve para Android -as apps que funcionavam nos dois funcionavam muito mal ou exigiam muito esforço de quem programava. No início da ShakeIt andámos a procurar clientes, mas não é um momento que deixe muitas saudades, porque cada projeto que fazíamos demorava muitíssimo tempo e acabávamos e encostávamos para o lado. Não fazíamos nada com aquele projeto em específico, estava entregue ao cliente e ficava naquela lógica de manutenção -se tiverem algum problema nós ajudamos de futuro.

Tropecei na parte dos eventos porque costumava fazer uma prospeção de apps, e vi uma aplicação em específico, creio que era uma versão antiga do Congresso de Pneumologia, se não me engano, e pensei: isto se calhar podia ser um bocadinho mais. O Congresso de Pneumologia foi um congresso que só vários anos depois acabou por ser nosso cliente, mas esta foi a app que me disse: isto podia ser mais. E então tomei ali a decisão de transformar este esforço cliente a cliente numa lógica mais de produto, ou seja, ia fazer um protótipo - não havia cliente nesta fase -, que tinha aquilo que eu achava que faltava na app que tinha visto e fui tentar apresentá-lo.

As primeiras vendas que nós fizemos na área dos eventos, que foram apps mobile, foram feitas com um powerpoint e uma demonstração com cinco ou seis funcionalidades, mas que causavam algum impacto a quem via.

Em vez de fazermos uma app com informação genérica fizemos uma app – o Human Body Congress -de demonstração com informação fake, mas que era informação que poderia ser real. Ainda me lembro que estávamos em dezembro de 2013 e foi a Dra. Luísa Teixeira, da Mundiconvenius, quem nos adjudicou quatro apps em dezembro de 2013 -e elas viram a luz do dia no segundo semestre de 2014. Essa foi, efetivamente, a primeira adjudicação, mas acabou por não ser a primeira app que fizemos. A primeira foi no Congresso de Nutrição e Alimentação, em maio de 2014. E depois a bola de neve começou aí. Fizemos a primeira em maio, a segunda em junho, que foi a Semana Digestiva e, depois disso, caiu-me um bocadinho aquela ficha de que uma das coisas atrativas da parte dos eventos é de que quando nós conquistamos um cliente, se fizermos um bom trabalho, conquistamos todos os anos.

Esse foi claramente um marco na história da ShakeIt, que outros consegue identificar?

Um dos maiores marcos foi a contratação de outro programador. Nesta altura que estou a descrever era só eu, e a contratação de mais um programador, o Ricardo [Tavares], ajudou-me a estar mais liberto para falar com clientes e para pensar na coisa um bocadinho mais estrategicamente. Outro dos grandes marcos da ShakeIt foi a conquista do Congresso de Cardiologia, porque tem uma relevância diferente, aconteceu logo em 2015 e foi importante por várias razões. Em primeiro lugar, porque a maior parte dos congressos que nós fazíamos não tinham apps e nós estávamos a vender uma coisa que eles não tinham. O Congresso de Cardiologia tinha uma app internacional, a mais bem estabelecida da altura, e portanto foi uma substituição de uma app internacional já estabelecida pela da ShakeIt. Claro que pesou, obviamente, o facto de sermos portugueses e de estarmos ali ao lado, de nos poderem telefonar quando quisessem e reunir presencialmente. Esse foi um dos grandes momentos de conquista, porque depois de fazermos o Congresso de Cardiologia, em 2015, houve um efeito de cascata para outros congressos na área da cardiologia, mas não só.

Nessa altura havia muita concorrência?

Não. Todas as que existiam na lógica de produto eram soluções internacionais. Com os primeiros congressos que conquistámos, apercebi-me de que a oportunidade de mercado não era tanto fazer melhor do que as [apps] internacionais, mas fazer com o mesmo princípio, ter uma base e acompanhar as pessoas de uma maneira diferente. Ou seja, estas soluções internacionais eram o tipo de soluções em que se ia ao site, colocava-se o cartão de crédito e a compra daquele software significava o acesso a configurares a informação toda do evento. Nós nunca tivemos como estratégia principal fazer as coisas desta forma. Na maior parte dos nossos eventos, temos a base pronta e somos nós que configuramos e decidimos a estrutura, em conjunto com o cliente, embora o cliente também consiga fazer a estruturação. Portanto, nós nunca estivemos a tentar ser estas soluções internacionais. Em Portugal havia empresas que faziam apps à medida, de vez em quando faziam também para um congresso, mas se não pensares numa lógica de produto também ficas estagnado no tempo, sem acrescentar novas coisas. Mais ou menos a partir do terceiro ou quarto ano, era engraçado, porque eu entrava numa reunião e as pessoas diziam-me: “tenho aqui uma ideia, as pessoas podiam utilizar a app para colocar questões e o orador que está em palco recebê-las”. Eu dizia, “sim, sim, nós já fazemos em outras apps”. Ou seja, neste ecossistema de clientes estão todos a contribuir uns para os outros e cada vez que alguém pede uma funcionalidade nova, todos os outros congressos beneficiam.

Houve um cliente que chegou à vossa beira e disse que queria a app com um fundo preto...

Sim, foi na verdade o Congresso de Cardiologia, mas dois anos depois do primeiro que fizémos.

E isso obrigou-vos a uma maior flexibilidade...

Nós sempre pensamos nesta lógica de acrescentar funcionalidades. Uma das coisas que é perfeitamente normal quando se começa um produto, principalmente software, é chegar, dares o primeiro passo e a meio perceber que há alguma coisa em que não pensamos. E não é que não tivesse havido pistas antes, mas nós sempre pensámos em flexibilizar em termos de funcionalidades e até em termos de menus, ou seja, sempre acreditamos que nem todos os congressos precisam das mesmas funcionalidades. Não tínhamos bem a noção do quão personalizável graficamente é que precisavam de ser as apps. No Congresso de Cardiologia de 2016, a key visual do evento era preto com coração vermelho em chamas, quando nos disseram isso [fundo preto] nós não entramos em pânico, mas pensamos que a rentabilidade desse projeto iria ser nula. Nem me passava pela cabeça, dois anos depois, fazer alguma coisa que fizesse com que o Congresso de Cardiologia pensasse em adotar outra solução que não a nossa e, portanto, o nosso instinto foi resolver o problema. A consequência foi tornarmos tudo mais configurável. À medida que começaram a aparecer mais soluções, essa é aquela que, ao longo do tempo, me parece a nossa maior vantagem competitiva, no sentido de ser a mais difícil de replicar. Além de flexibilizarmos, aquilo que aprendemos ali foi: temos que nos preparar para não ser o fim do mundo alguém querer mudar aqui alguma coisa. Hoje em dia, os nossos gestores de projetos têm o objetivo de perceber o que o cliente quer e ver além daquilo que o cliente quer e como é que nós conseguimos que a app seja ainda melhor. Começou em 2016 com o Congresso de Cardiologia esta flexibilidade.


Um white board que mudou o curso dos acontecimentos

Esta flexibilidade de que fala foi importante durante a pandemia?

Talvez um marco ainda maior, até de estabilidade financeira da empresa e de crescimento, foi a pandemia.

Em março de 2020, nós tínhamos 20 apps mobile, que era a única coisa que fazíamos na altura, de eventos que aconteciam naquele mês. Foram cancelados e fomos de 20 para zero.

Na altura, não éramos quantos somos agora, mas já não éramos poucos e foi extremamente preocupante, até porque tínhamos uma decisão a tomar: as apps de março de 2020 já estavam feitas, como é que lidamos com os clientes? E ainda mais pressão financeira se colocou na altura quando tomamos a decisão de que não íamos sequer insistir, não íamos fazer parte do problema: vamos dizer que elas estão em stand-by e, se organizarem o evento outra vez, nós adaptamos o que for preciso na nova fase.

Tivemos um momento em que dissemos: não sabemos se as apps voltam, o que é que vamos fazer? O maior ponto de sorte foi que, um ano e meio antes, tínhamos feito um trabalho, por causa de um projeto, de passagem da maior parte das coisas da nossa mobile app para uma versão web, ou seja, a nossa app podia ser utilizada num browser. E esse trabalho, agora olhando para trás, foi o que nos salvou, porque era colocar a app ao lado do streaming. Os eventos virtuais eram transmitidos, nós tínhamos 70% do ecrã atribuído ao streaming e era como se as pessoas estivessem a ver o streaming com a app ao lado. Isto era uma ideia que parecia incrivelmente básica na altura, mas a verdade é que com algumas das funcionalidades que nós tínhamos desenvolvido até ali percebemos: isto é capaz de fazer sentido num evento que seja online. E as primeiras vendas que fizemos foi de uma versão muito básica.

Qual foi o primeiro evento que fizeram?

Foi um evento corporativo, em maio [de 2020]. Eu estava numa situação muito diferente daquela de 2013, quando ligava: “olá, o meu nome é Miguel Carneiro, queria fazer uma app”. Em 2020, a ShakeIt já tinha muita gente com quem falar e toda a gente precisava daquilo que nós estávamos a resolver. Aquilo que nós fizemos, à semelhança do Human Body Congress, foi um Time to Grow is Now, que era uma app de demonstração. Foi muito fácil também fazer o paralelo para os congressos médicos, que quase que tinham que acontecer. Os congressos médicos têm uma grande importância na estabilidade financeira das associações e, portanto, têm que acontecer ou não há patrocínios. Muito rapidamente, e acho que isso também é importante dizer, porque justifica o crescimento da ShakeIt, tínhamos uma solução que fazia exatamente o que as pessoas precisavam.

Entre setembro e dezembro de 2020, fizemos mais projetos do que aquilo que a nossa equipa conseguia suportar. Toda a gente que trabalhava na empresa estava ou fins de semanas ou largas horas a trabalhar e, quando estamos tão debaixo de água, não há sequer tempo para contratar. A contratação é um processo moroso, principalmente a contratação com pés e cabeça. Mal acabou o ano, fizemos contratações rápidas, com um bom critério. Depois de contratar as pessoas ainda tens de as formar para uma coisa que não é uma profissão que existe em todo lado: é mexer no nosso backoffice, num cargo em que é suposto perceber o que é que está por trás e o que é o evento, o que é que o cliente realmente quer. Foi um desafio, mas aquele ciclo natural para os eventos, ao longo do ano, também nos ajudou e depois, quando voltou a loucura outra vez, já éramos mais três pessoas, e depois no outro ciclo de eventos já éramos mais duas pessoas. Conseguimos respirar, conseguimos levantar a cabeça, costumo até usar muito esta expressão com a equipa, tivemos um ano em que fizemos muita coisa, mas nem conseguimos levantar a cabeça. E até tivemos um momento, quando ainda não conseguíamos contratar, em que aquilo que é a regra da ouro da ShakeIt, o cliente não pode ficar na mão, se podia ter comprometido. Estávamos tão sobrecarregados, para a equipa que tínhamos, que sou capaz de admitir que tivemos ali um período de três meses em que estávamos a fazer a coisa demasiado em cima da hora. Foi a primeira vez que me passou pela cabeça de que a coisa podia não funcionar, não por trabalho a menos, mas por trabalho a mais.

E depois desse período complicado, mas ao mesmo tempo de crescimento, como é que foi regressar aos eventos presenciais?

Prefiro, e sempre preferi, os eventos presenciais por causa daquilo que falta aos eventos virtuais, no ponto de vista da satisfação de quem os organiza. Eu não organizo eventos, mas sinto-me envolvido com aquilo que é a base da organização dos eventos, a base tecnológica, e é muito diferente ver as pessoas a usar a nossa tecnologia. Voltar aos eventos presenciais significou também uma quebra no que estávamos a faturar nos últimos dois anos. Foi uma transição que, não vou dizer que foi muito difícil, mas foi uma transição à qual nos precisámos de adaptar. As pessoas que trabalhavam há um ano, um ano e meio na ShakeIt nunca tinham feito a gestão de projeto daquilo que é uma mobile app. Foi um novo processo de formação, tivemos de tirar algumas soluções do baú, que eram muito estratégicas em 2019, mas que depois ficaram completamente abandonadas em 2020: as ativações para expositores, por exemplo. Agora, como é que eu me sinto pessoalmente? Lá está, eu gosto muito mais da lógica do balanço, e não estou a falar de eventos híbridos, estou a falar de eventos virtuais, aqueles que têm que ser virtuais, aqueles que fazem sentido que sejam virtuais, ou porque têm muita gente, ou porque têm pouca gente, ou porque têm pouca duração, acho que eles têm o seu lugar, mas acho que os eventos não são iguais ao resto do marketing, chamemos-lhe assim, por causa da componente presencial -e não é por causa da componente ao vivo, que os virtuais também têm. Sempre insisti muito na diferença entre virtual e digital, porque me parece que os presenciais também são digitais, e aquilo que é importante é que o presencial tenha cada vez mais a componente digital, ao ponto de, se as pessoas ao fim do primeiro dia tiverem que ir para casa, sabem que amanhã vão conseguir ver a gravação das sessões que não viram. Aquilo que sinto que está a acontecer, mas acho que ainda vai acontecer mais, é a poeira assentar nos sítios certos, ou seja, o mercado finalmente a aprender, ou a adaptar-se, quais tecnologias é que encaixam onde, e não tudo virtual ou tudo presencial. Acho que é o que temos pela frente.

E como é que vê agora o mercado? Há tendências que encontra muito claramente, como o last minute, por exemplo?

Nós só vemos uma pequena parte daquilo que uma agência organizadora de eventos vê, e já ouvi de várias agências que as coisas estão a ser decididas mais em cima. Os clientes estão mais exigentes no que toca ao timing. Na parte tecnológica, isso não é tão importante. Claro que preferimos trabalhar com mais tempo, mas ao mesmo tempo também preferimos trabalhar num momento em que o processo está mais definido. É um bocadinho confuso para nós quando nos pedem para construir uma app quase um ano antes do evento acontecer e não está nada definido. A app é suposto encaixar em processos existentes, a plataforma virtual é suposto encaixar em processos existentes. Se nós entramos demasiado cedo, também acho que confunde. Mas não é raro dizerem-nos na mesma semana, ou dizerem-nos numa quarta-feira que precisam para segunda-feira. Não é raro, e não é bem um ponto de desconforto para nós.


Inteligência artificial e velocidade da internet

Que tecnologias é que vão revolucionara indústria nos próximos tempos?

Pareço um bocadinho um disco arriscado, mas tem a ver com a formação que tive e já há alguns anos que ando a dizer isto: A inteligência artificial vai ter um impacto que não é nos eventos, é na sociedade em geral. E acho que o salto, do ponto de vista da organização de eventos, vai, em primeiro lugar, estar na parte de conteúdos. Já vemos demonstrações, em muito pouco tempo, desde que chegaram os GPTs desta vida, de criação de imagens, criação de scripts, criação de vídeos, edição de vídeos. Desde a logística à tecnologia, aos audiovisuais, acho que nenhum destes está isento daquilo que é o impacto da inteligência artificial.

Acho que outra das coisas, não tanto na minha área, mas que provavelmente vai impactar bastante, são as diferenças de velocidade. Tivemos aqui um salto exponencial na velocidade de internet e, se isto for traduzido para o dispositivo que cada um tem na mão -e se calhar daqui a uns anos pode nem ser o smartphone, pode ser outra coisa qualquer, um smartwatch, uns Apple Vision Pro, seja o que for -, acho que nos eventos pode ter um impacto como teve por exemplo a Netflix. Nós nem pensávamos há uns anos que conseguíamos abrir o nosso smartphone e lá dentro tivéssemos a Netflix e conseguíamos ver, sem delay nenhum, um vídeo em streaming. O exemplo maior que dão são hologramas, mas acho que o que está por trás, não é o facto de serem hologramas ou não, é o facto de quase instantaneamente conseguires transmitir tanta informação para um pequeno dispositivo. Há de facto um grande potencial de criar experiências muito diferentes nos eventos. Mas também é um bocadinho cedo para dizer exatamente quais é que serão essas experiências.

Acho que estas são duas das tendências que me passam pela cabeça. Na área da tecnologia, que é mais a minha área, temos recomendações, métricas que não são recolhidas explicitamente, mas sim implicitamente, e temos um enorme potencial para tirar novas informações de dados.

Daqui a dez anos o que andará a fazer o Miguel Carneiro?

Não tenho a certeza. O que eu gostava era de continuar a estabilizar a nossa presença neste mercado. O que é que nós vamos estar a fazer daqui a 10 anos, tenho quase a certeza de que não é aquilo que estamos a fazer agora. Por isso é que é uma pergunta difícil de responder, porque sem saber como é que vai mudar efetivamente, coloca-nos aqui, ou coloca-me a mim, que acredito nisto, num ponto em que aquilo em que me tenho que focar, e pedir às pessoas na ShakeIt para se focarem, é na atitude, na maneira como encaramos os problemas, como o fizemos durante a pandemia, como o fizemos em momentos difíceis, é flexibilizar um bocadinho a nossa resposta. Aquilo que eu tenho a certeza de que vai acontecer nos próximos 10 anos é que nós vamos ser confrontados com este tipo de ameaças. E, portanto, acho que o que eu gostava mesmo é que nós continuássemos ligados, se não aos eventos, à forma de ligar pessoas. É uma das coisas que me apaixonam nos eventos e naquilo que nós fazemos. Acho que um evento é muito diferente tendo ou não a nossa tecnologia, ou uma tecnologia semelhante à nossa. Liga mais as pessoas, dá-lhes mais voz dentro de um evento, e gostava que a ShakeIt estivesse na mesma envolvida em fazer esta ligação de pessoas através da tecnologia.

Para mim, pessoalmente, não sei. Nos últimos 10 anos o meu caminho foi muito de estar cada vez mais confortável em deixar que os problemas que eu queria resolver fossem resolvidos em equipa e acho que a tendência é cada vez mais essa.

O que é que o motiva, no trabalho?

Sou uma pessoa muito motivada pela tela em branco, de começar qualquer coisa de novo. E apesar de nós estarmos a fazer eventos há 10 anos, acho que conseguiria olhar para cada um dos anos e dizer isto foi aquilo que tivemos que aprender de novo. Aquilo que me dá um balão de motivação, é quando temos um projeto que é realmente um outlier em relação ao impacto que teve naquilo que foi o evento.


Temos agências com muita coragem”

E como é que avalia a indústria dos eventos em Portugal?

Não quero entrar aqui numa lógica de há Portugal e há o internacional, cada país é um país e tem as suas coisas. Efetivamente nós temos muitíssima mais experiência no mercado nacional, mas notam-se uma série de coisas. Uma delas é a antecedência com que se trabalha nos eventos. As agências com que trabalhamos são principalmente do Reino Unido, uma israelita, e temos algumas agências e alguns clientes finais que estão na Escandinávia. Há uma grande diferença na antecedência com que se trabalha para um projeto e também na importância que se dá à pré-definição do projeto.

O público também é diferente nos eventos. Noto que temos um público em Portugal que, olhando para as métricas, usa muito, mas contribui pouco. Basta nós termos um evento que não é em Portugal para vermos um live chat cheio, o mural cheio de fotografias, para vermos imensas questões colocadas através da app. Nota-se que é uma questão de visibilidade, uma questão de quero estar visível ou não quero estar visível, porque nas funcionalidades que são invisíveis, como por exemplo o televoto, aí já não se nota tanta diferença.

Também sinto que nós temos agências com muita coragem para fazer coisas diferentes e temos grande qualidade e capacidade de resolver problemas das nossas equipas de audiovisuais, em Portugal. Vejo também muito o conforto de imaginar coisas novas e de fazer eventos que não sejam só um ecrã num palco com uma pessoa a falar, mas fazer coisas que sejam realmente diferentes.

Então durante a pandemia viu-se muito isso. Vi eventos virtuais claramente ambiciosos e acho que isso se passou mais em Portugal do que fora. Quando falo da antecedência com que se trabalha as coisas, para nós não é necessariamente bom trabalhar com tanta antecedência e com tanto formalismo. Beneficia-nos não que seja em cima da hora, mas que seja ali num balanço com alguma antecedência, sem ser demasiado cedo. Por outro lado, demasiado formalismo, ou demasiada pré-definição, não fala à nossa flexibilidade. Se tem demasiada pré-definição e demasiado formalismo bloqueia a resolução mais espontânea de problemas.

Quais são os vossos planos em termos de internacionalização?

A minha crença, e a minha esperança, é que da mesma maneira que o Congresso de Cardiologia teve um efeito de cascata, que a nossa conquista do Kenes Group, que nos contratou 30 apps só num ano, tenha o mesmo efeito no que toca à validação da ShakeIt como um player para, pelo menos, congressos médicos, que é a área de atuação do Kenes Group.

No imediato acho que vamos continuar a internacionalizar da mesma maneira que crescemos em Portugal, que é organicamente, numa lógica de passa a palavra e fazendo às vezes umas abordagens naquilo que faz sentido. Agora é muito mais difícil conquistar o mercado, porque da primeira vez o mercado português era um blue ocean, ninguém tinha apps, os eventos não tinham apps. Agora não há ninguém que abordes no mundo dos eventos em que não estejas a pedir-lhe para abandonar o fornecedor atual dele. Portanto, é-me difícil acreditar que consigo competir a nível de marketing com empresas que recebem investimentos de, estamos mesmo a falar de dezenas de milhões de euros, porque sim, porque acreditamos que vamos crescer 20%. Acredito que o espaço que para nós há no mercado é um espaço de ser diferente disto. É uma lógica de referência. Costumo dizer imenso à equipa que o nosso maior comercial, que dá 20 a 0 a qualquer outra coisa, são as apps que fazemos. Vejo as métricas disso, vejo as visitas ao site e que as visitas ao site são a partir do link que estava na app que nós desenvolvemos. Temos sempre crescido de forma sustentada e, voltando aos próximos 10 anos, eu não via a coisa a acontecer de outra forma. Acho que o crescimento tem que ser fiel àquilo que foi a ShakeIt nos últimos 10 anos, enquanto o mercado achar que faz sentido nós fazermos as coisas como fazemos hoje.

© Cláudia Coutinho de Sousa Redação