Festividade, liminaridade, o carnavalesco

Opinião

18-01-2023

# tags: Festivais , Eventos

Inversões e paradoxos, estrutura e anti-estrutura, na fantasia e no tempo fora do tempo da festividade, dos festivais e do carnaval.

Festividade

A festividade é uma área de consumo cultural que ressoa em todo o mundo moderno.

Como a música, a festividade tem uma universalidade que está mergulhada na história antiga, associada frequentemente com a religião, ritos da passagem, mecenato, ou mesmo como modo de resistência estrutural, ou de controle social. No seu cerne, a festividade reflete um coletivismo gregário, celebra o desejo carnal, e transmite a promessa de libertação libidinal. A fantasia da festividade exerce um fascínio magnético numa escala de massa.

Os festivais de música são um produto global das indústrias de cultura e, para além de serem um ponto de referência para a peregrinação juvenil, atraem mais segmentos demográficos e abordam temas atuais, espelhando uma juventude prolongada, sendo locais espetaculares de hiperexperiência e de hedonismo orgiástico. A ressonância e poder da festividade são antigos e culturalmente universais, tendo sido incorporados na consciência moderna, evocando ideias de libertação social, de fuga e de férias do self, assim como um paradoxo onde o comportamento sexualizado surge lado-a-lado com a diversão em família, conforme pode ser observado nos Carnavais do Rio e de Mardi Gras.

Atualmente, em vez de um local de liberdade espontânea, a festividade tornou-se um produto de fantasia manipulado de forma administrativa, onde a experiência é constantemente capturada e mediada viralmente para se tornar o capital de sustentação do campo, face ao crescimento dos social media (fundamental para a política moderna de identidade), o que sugere um movimento da fantasia da festividade, da gestão, para uma cocriação e uma convergência na sua construção. A fantasia da festividade é um constructo cocriado de sociabilidade que, ironicamente, depende das exibições digitais de um consumidor performativo autorregulado cuja experiência corporal exige uma presença virtual e viral.

No caso da festividade musical, existe uma conexão com a resistência, o neotribalismo, a cultura de clubs, a identidade pós-moderna e a cultura rave.

Liminaridade

O estado de liminaridade é caracterizado pela humildade, reclusão, testes, ambiguidade sexual e communitas em rituais, no entanto, para que se possa aplicar este estado a festivais, deverá ser utilizado o termo “liminoide” (profano e não sagrado). “Liminoide”, portanto, enfatiza a noção de separação, perda de identidade e estatuto social, e inversão de papéis, em que as pessoas estão mais relaxadas, desinibidas e abertas a novas ideias.

A liminaridade, ou o estado temporário de estar à parte do mundano (como numa experiência ritual, de viagem ou de evento) é um tema duradouro, com Turner como maior inspiração: “a passagem de um estatuto social para outro, (...), é (...) acompanhada por uma passagem paralela no espaço, (...) [ou peregrinação, através] de uma mera abertura de portas ou do cruzamento (...) de um limiar que separa duas áreas” relacionada com estatuto pré e pós-ritual ou liminal.

De acordo com van Gennep, uma fase liminar estendida nos ritos de iniciação das sociedades tribais é frequentemente marcada pela separação física dos sujeitos rituais do resto da sociedade. (...). Os símbolos rituais dessa fase, embora alguns representem a inversão da realidade normal, caem caracteristicamente em dois tipos: os de apagamento e os de ambiguidade ou paradoxo. (...). A inversão simbólica acentuada dos atributos sociais pode caracterizar a separação; obscurecer e mesclar distinções pode caracterizar a liminaridade. (Turner, 1974, pp.58-59)

No meio da transição, as iniciativas são levadas tanto quanto possível à uniformidade, à invisibilidade estrutural e ao anonimato. Como compensação, os iniciantes adquirem um tipo especial de liberdade, um “poder sagrado”. Os novatos são confrontados com os anciãos, em rito, música, instrução numa linguagem secreta, e vários géneros simbólicos não verbais, com padrões simbólicos e estruturas que se elevam a ensinamentos sobre a estrutura do Cosmos.

A liminaridade é uma série complexa de episódios no espaço-tempo sagrado, e também pode incluir eventos subversivos e lúdicos. Os fatores da cultura são isolados e podem ser reagrupados de várias maneiras, muitas vezes grotescas.

Situações liminares e liminoides são cenários em que surgem novos símbolos, modelos e paradigmas, como canteiros da criatividade cultural de facto. As ações liminoides podem recuperar o carácter de “trabalho”, e são um domínio independente e endógeno da atividade criativa. A “antiestrutura” pode gerar e armazenar uma pluralidade de modelos alternativos de vida, de utopias a programas, capazes de influenciar os domínios sociais e políticos na direção da mudança radical (tal como a própria ciência experimental e teórica).

A antiestrutura é a libertação das capacidades humanas das restrições normativas que, no entanto, tem um pré-requisito: a necessidade da existência de um intervalo entre o passado e o futuro, onde acontece a inovação posteriormente legitimada pela estrutura. Estes podem ser caracterizados pela liberdade na forma e no espírito, pela ênfase no sentimento e na originalidade, onde a transformação cultural, o descontentamento contextual e a crítica social são centrais e uma questão de desenvolvimento holístico.

As revoluções, quer sejam bem-sucedidas, ou não, tornam-se a limina, com todas as suas conotações iniciáticas, entre a estrutura. Apesar desse liminar poder ser metafórico, essa utilização pode-nos ajudar a pensar sobre a sociedade humana global, e sobre as convergências sociais históricas. Quer sejam ou não violentas, as revoluções podem ser as fases liminares totalizantes pelas quais a limina dos ritos de passagem tribais eram apenas prenúncios ou premonições.

É na liminaridade que é secretada a semente do liminoide. Apenas aguarda grandes mudanças socioculturais para que possa crescer ramificando-se em múltiplos géneros culturais liminoides.

Na alta cultura, o liminoide não é apenas removido do contexto do rito de passagem, é também individualizado. Enquanto o artista cria os fenómenos liminoides, a coletividade experimenta símbolos liminais coletivos.

A distinção entre liminoide e liminal pode ser vista como um jogo que é, por um lado, brincadeira, e por outro, trabalho. Nas sociedades arcaicas e tribais, o trabalho e o brincar faziam parte do ritual pelo qual os homens buscavam a comunhão com espíritos ancestrais. Os festivais religiosos incorporavam tanto o trabalho quanto o lazer.

Os festivais baseiam-se nas linguagens e técnicas de jogo para intensificar o espírito de diversão através da transformação espacial, o que legitima, de certa forma, o que pode ser considerado marginal fora deste contexto. Existe uma abertura e uma libertação por existir uma menor contenção na interação social.

A teoria de jogo de Roger Caillois divide o jogo em dois eixos: paidia e ludus. Enquanto paidia está associada a uma fantasia descontrolada, ludus está associada a obstáculos a serem superados nos jogos. Quatro conceitos adicionais (agon ou competição; alea ou chance; mimetismo ou simulação; ilinx ou vertigem) são usados para entender o jogo, explicando a estrutura dos jogos no mundo do “faz de conta”, enquanto o ritual está no mundo do “nós acreditamos”. Há um desenvolvimento evolucionário, um avanço civilizacional racional, da combinação profana entre o mimetismo e ilinx (caracterizados por jogos e performances culturais das sociedades primitivas ou dionisíacas, regidas por máscaras e posses), para o racionalismo e a luz de agon e alea (representado por sociedades civilizadas como incas, assírios, chineses e romanos).

Sem um teatro de máscara e transe, de simulação e vertigem, o povo perece.

O Carnavalesco

O Carnaval é o destino de um lugar que não é lugar, e um tempo que não é tempo. A cidade torna-se o reverso do seu eu diário.

Na construção carnavalesca de Bakhtin os festivais são uma libertação temporária da verdade vigente e da ordem estabelecida que oferece a possibilidade de excitação e entretenimento com o potencial para desenvolver novas formas de regulação necessárias para manter o controle social.

A liminaridade representa menos um local de fechamento ou apropriação do que uma extensão do quotidiano, uma celebração da normalidade vista e contruída pela elisão do carnavalesco. O Carnaval torna-se o quotidiano. Os festivais são reflexivos por natureza, proporcionando uma rutura legitimada do quotidiano, reforçam os valores subjacentes a essa rotina. Na construção heterotópica do festival, embora possa haver uma elisão temporária do quotidiano, os códigos culturais e morais permanecem intactos e dominantes.

O carnavalesco é uma inversão da ordem que proporciona uma fuga temporária da estrutura hierárquica e que legitimou uma reação utópica contra a ordem da “alta cultura”, estabelecendo os carnavais como sítios de transgressão e excesso. Havia uma necessidade de fornecer e legitimar esses atos de libertação e esses locais proporcionavam espaços apropriados para a prática de atividades mímicas, nas quais as pessoas são capazes de abandonar as restrições às suas emoções de forma relativamente controlada e num ambiente agradável.

Festivais e carnavais parecem quebrar o ciclo de contenção social.

Na preparação de fantasias, comida e do local, por exemplo, o carnaval legitima a estrutura social mais ampla enquanto permite a possibilidade de alguma libertação temporária, proporcionando um ambiente criado no qual as pessoas podem rejeitar a ordem social dentro de uma estrutura que lhes é familiar, numa rejeição que é uma ilusão socialmente construída e controlada.



Por João Carvalho, Mestre em Turismo, com especialização em Gestão Estratégica de Eventos (Beach Break®).



Bibliografia:

ABRAHAMS, Roger D. (1987) “An American Vocabulary of Celebrations”, In Alessandro Falassi (ed.) Time out of Time: Essays on the Festival, Albuquerque: University of New Mexico Press, pp.173-183.

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FLINN, Jenny e FREW, Matt (2013) “Glastonbury: managing the mystification of festivity”, Leisure Studies, 33:4, pp.418-433.

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TURNER, Victor (1974) Liminal to Liminoid, in Play, Flow, and Ritual: an Essay in Comparative Symbology, Rice Institute Pamphlet-Rice University Studies, 60:3, pp.53-92.

Imagem: SIEMIRADZKI, Henryk (1889) Friné na Celebração de Poseidon em Elêusis.