Maria Teresa Martinho: “Ainda tenho muito para construir aqui fora”

Entrevista

15-09-2026

# tags: Eventos , Passaporte Português , Dubai

De Sintra, onde nasceu, para o Dubai, onde atualmente trabalha. Este é o Passaporte Português de Maria Teresa Martinho.

No ensino secundário, seguiu a área das Ciências Socioeconómicas, mas, no ensino superior, tirou a licenciatura em Direção e Gestão Hoteleira, no Estoril. Durante o período académico, “sempre conciliei estudos com trabalho em funções mais operacionais em hotéis e restaurantes e fiz também estágios em Lisboa e no Algarve com o Grupo Pestana, que foram experiências espetaculares”, conta.

Até que, uns meses antes de terminar o curso, foi contactada na rede LinkedIn por um recrutador do Dubai. “No início ainda tive algum receio de não ser uma proposta real, mas decidi arriscar e mudar-me, com a ideia de ficar só uns meses pela experiência e depois logo via se voltava ou se ia viajar”, adianta. No entanto, “a verdade é que já estou cá desde 2022 e nunca mais voltei”.

No Dubai, já mudou de funções profissionais, passando do trabalho nas ‘mesas’ para a receção. “E, como o restaurante onde trabalho sempre teve muitos eventos, fui crescendo nessa área até chegar de Hostess a Reception and Events Manager”, refere.

A área dos eventos tem vários fatores de atratividade: “o ritmo acelerado, o facto de termos de estar sempre a adaptar-nos e a resolver imprevistos no momento, e o desafio constante de superar expectativas, tanto as dos clientes como as minhas, como a dos meus managers e equipa”, indica.

Todos os eventos acabam por marcar um bocadinho Maria Teresa Martinho, “porque são todos muito diferentes e acabo sempre por aprender alguma coisa com cada um”. “Trabalhar com marcas de renome ou do setor de luxo marca-me sempre, porque sinto um orgulho enorme quando confiam em mim para organizar eventos dessa dimensão e importância”, diz, lembrando também os eventos “mais emocionais” – como aniversários, baby showers ou casamentos –, que também a marcam de uma outra forma. “Cada um à sua maneira.”

“Aprende-se muito a lidar com pessoas com diferentes formas de pensar e de trabalhar”


Maria Teresa Martinho conta que sempre teve “muita vontade de viajar e trabalhar fora pela experiência”. Mas, no caso, a oportunidade de trabalhar no estrangeiro surgiu de forma natural, “até sinto que não foi algo que persegui ativamente”, afirma. “Mas era algo que eu já queria há muito tempo, por isso, sinto-me mesmo grata por ter tido essa oportunidade”.

Segundo a profissional portuguesa, “a verdade é que as oportunidades fora de Portugal são muito diferentes, tanto a nível de crescimento pessoal como de experiência profissional e retorno financeiro”, reconhece.

Mas trabalhar além-fronteiras traz desafios e Maria Teresa Martinho não tem dúvidas de que esses passam pelas pessoas. “De uma forma geral, diria que são o maior desafio na hotelaria – tanto equipas como clientes. Atualmente, na minha equipa direta trabalho com sete nacionalidades diferentes e no meu local de trabalho há muitas mais, o que traz desafios constantes a nível de gestão”, aponta.

Por outro lado, esse contacto com a diversidade de nacionalidades “é também algo que me fez crescer imenso, tanto a nível cultural como pessoal. Aprende-se muito a lidar com pessoas com diferentes formas de pensar e de trabalhar”. Virem todos de “contextos tão diferentes é desafiante, mas também muito enriquecedor”, frisa.

Maria Teresa Martinho sente que “há uma ótima recetividade em relação aos portugueses”. “Existe aquele estereótipo de sermos simpáticos e descontraídos; quase toda a gente conhece o Cristiano Ronaldo ou já visitou Portugal e ficou apaixonada pelo país.” Conta ter sido sempre, no geral, muito bem recebida, mas não sente que ser portuguesa seja necessariamente “uma vantagem ou desvantagem”.

“O segredo também está nisso: querer sempre mais”


Sobre experiências desafiadoras, Maria Teresa Martinho conta que trabalha muitas vezes com clientes UHNWI (ultra-high-net-worth individuals), que têm “um poder financeiro muito elevado”, “expectativas altas e pedidos bastante específicos, onde o ‘como’ não importa tanto – o importante é apresentar soluções para ontem”.

E um dos casos mais desafiantes que teve em mãos foi um aniversário, um evento no qual marcaram presença artistas internacionais. “Os próprios artistas tinham preferências específicas, que também tinham de ser atendidas. Foi complexo, mas conseguimos encontrar forma de fazer acontecer”, afirma.

Aos que pretendem trabalhar internacionalmente em eventos, Maria Teresa Martinho diria que “é essencial ser extremamente organizado, ousado, extrovertido e confiante”. “Os clientes querem não ter preocupações, é por isso que nos contratam. O mais importante é mostrar que conseguimos pegar numa ideia e dar-lhe vida, com criatividade, organização e segurança”, explica.

Aos requisitos acrescenta que “ter paciência também é extremamente importante, mas ter paciência não é esperar passivamente, especialmente em cidades como esta, que são super-rápidas e onde tudo acontece num curto espaço de tempo. É mais sobre perceber que tudo leva o seu tempo”, indica, adiantando que, muitas vezes, quando a questão surge entre amigos, “explico que, quando cheguei, era empregada de mesa”.

Maria Teresa Martinho recorda que chegou onde está hoje “com trabalho, empenho e networking”, mas que ainda quer “muito mais”. “O segredo também está nisso: querer sempre mais. E esta cidade acaba por cultivar exatamente essa mentalidade nas pessoas, o que é incrível.”

Regressar a Portugal faz parte dos planos, “mas não tão cedo – talvez daqui a uns dez anos”, refere. “Portugal é sempre casa: família, conforto, raízes. Mas sinto que ainda tenho muito para construir aqui fora, seja no Dubai ou até noutra cidade, tanto a nível profissional como financeiro”, conclui.

IBTM World 2026

© Maria João Leite Redação