Impressões da ISE 2026: ideias, escala e desafio

Reportagem

11-02-2026

# tags: Eventos , Barcelona , Feiras , Tecnologia , Experiências

Na nossa primeira visita à ISE, em Barcelona, impressionam a escala, a avalanche de soluções para eventos, o peso da China e a ausência de agências portuguesas.

Visitar pela primeira vez a ISE, em Barcelona, é uma experiência quase avassaladora. Não apenas pela escala — oito pavilhões, mais de 100 mil metros quadrados, mais de 1.700 expositores — mas sobretudo pela sensação constante de que estamos a caminhar por um enorme laboratório de ideias para eventos. Mesmo quando muitas das soluções apresentadas não foram pensadas, à partida, para a indústria dos eventos, é impossível não fazer esse exercício mental: como é que isto pode ser usado num congresso, num festival, num lançamento de marca, numa experiência imersiva?

A quantidade da oferta é, literalmente, imensa. Tecnologias audiovisuais, sistemas integrados, conteúdos, software, hardware, estruturas, experiências interativas. Tudo à escala do grande espetáculo, mas também com aplicações muito concretas para eventos corporativos, culturais ou desportivos. A ISE é, nesse sentido, uma feira que obriga quem a visita a pensar mais à frente — e a pensar maior.

Outro detalhe curioso: ouve-se falar muito português nos corredores da feira. Técnicos, fabricantes, distribuidores, engenheiros, fornecedores. Mas, ao longo de vários dias, encontrei apenas uma pessoa ligada a uma agência de eventos portuguesa. Um colega de uma publicação espanhola comentava exatamente o mesmo: vem quase todos os anos à ISE e raramente encontra aqui profissionais das agências espanholas. É um dado que merece reflexão. Porque esta é uma feira onde as agências podem vir beber inspiração, antecipar tendências e ganhar vantagem competitiva.

Um dos temas incontornáveis desta edição foi o peso crescente da China. Já não estamos a falar apenas de soluções baratas. O que se vê hoje na ISE é uma oferta chinesa cada vez mais sofisticada, com níveis de qualidade elevados, design mais cuidado e uma relação qualidade-preço difícil de ignorar. Para quem produz eventos, isto abre novas possibilidades e pressiona todo o mercado a evoluir.

Também impressiona a evolução dos LED. A resolução continua a aumentar, mas o fator verdadeiramente transformador é a descida dos custos. Em muitos contextos, os LED tornam-se já claramente competitivos face à projeção, mesmo quando falamos de grandes áreas. Isto muda decisões criativas, orçamentos e formatos de evento — e muda-os agora, não num futuro distante.

A ISE é também um excelente exemplo de como um destino pode trabalhar de forma estratégica uma indústria. A aposta da Catalunha é evidente: dezenas de empresas presentes, incluindo várias startups, todas integradas numa lógica que cruza ferramentas, conteúdos, escolas, talento, empresas e eventos. A Catalunha, e Barcelona em particular, posiciona-se, assim, como um território onde a tecnologia e a criatividade se encontram de forma estruturada. Um exemplo claro para outros destinos que querem afirmar-se neste e noutros ecossistemas.

Há ainda pormenores que dizem muito sobre a organização e a visão do evento. O bilhete de transporte público — incluindo a ligação ao aeroporto —, válido por 72 horas para todas as pessoas registadas é um gesto aparentemente simples, mas altamente eficaz. Um exemplo de mobilidade inteligente e de cuidado com a experiência do visitante. Outro detalhe revelador da dimensão da feira: dois press rooms em pleno funcionamento, um no topo norte e outro no topo sul do recinto, numa Fira de Barcelona a operar no limite da sua capacidade.

E depois há o conteúdo. A oportunidade de assistir e participar em conversas com líderes globais da indústria dos eventos e do entretenimento é, por si só, um motivo para marcar presença. Responsáveis por alguns dos maiores eventos do planeta, do Campeonato do Mundo de Futebol nos EUA ao Cirque du Soleil, passando pelos grandes shows e tours de artistas pop e rock que percorrem o mundo, partilharam visões, desafios e bastidores de produções à escala máxima.

Os números oficiais confirmam aquilo que se sente no terreno: a ISE 2026 bateu todos os recordes, com mais de 92 mil visitantes únicos, quase 121 mil registos e um crescimento consistente face a 2025. Mas, mais do que os números, fica a energia, a criatividade e a sensação de estarmos perante uma feira que já não é apenas do audiovisual — é, cada vez mais, uma feira sobre experiências.

No final, fica um desafio claro. A ISE não é apenas para fornecedores. É, também, uma feira que faz sentido para agências de eventos que querem antecipar o futuro, testar ideias, descobrir soluções e repensar formatos. Quem produz eventos vai encontrar aqui inspiração prática, contactos relevantes e ferramentas concretas para os próximos projetos.

© Rui Ochôa Opinião