ATF 2026: cooperação e desenvolvimento no Sudeste Asiático

Reportagem

09-02-2026

# tags: MICE , Eventos , ATF , Ásia , Turismo , Turismo de Negócios

Cebu, nas Filipinas, foi o destino anfitrião do ASEAN Tourism Forum (ATF) 2026, que juntou altos representantes políticos para definir estratégias de futuro.

A Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) desenvolveu um plano de cinco anos assente numa cooperação renovada em prol do desenvolvimento turístico da região, que tem apresentado uma recuperação positiva e contínua do turismo. Em 2025, foram registadas cerca de 144 milhões de chegadas de visitantes internacionais.

O Plano Setorial da ASEAN 2026-2030 orienta ações coletivas e descreve a visão de futuro e os planos da região para um turismo sustentável, resiliente, inclusivo e de qualidade. A ideia é promover os Estados-membros da ASEAN (Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Myanmar, Filipinas, Singapura, Tailândia, Timor Leste e Vietname) como um destino turístico unificado e diversificado, oferecendo natureza, aventura, cultura, património, gastronomia e experiências.

Para dar conta da oferta variada, a ATF promove anualmente a ATF Travex, uma feira de negócios que junta fornecedores da região e buyers internacionais, além de dar a oportunidade a alguns dos destinos ASEAN para se apresentarem aos jornalistas de todo o mundo.

Resiliência perante as adversidades


Orgulhosa por acolher a ATF 2026, Maria Margarita Nograles, COO do Tourism Promotions Board Philippines, referiu que, apesar de 2025 não ter sido um “ano fácil”, o país manteve-se resiliente perante as adversidades. Lembrando as 7.641 ilhas que compõem as Filipinas, destacou a capacidade de recuperação das comunidades e da continuidade da atividade turística.

As orientações estratégicas nacionais para 2025-2028, que reúnem governo, setor privado e comunidades, estão assentes em quatro prioridades: um marketing “baseado em evidências”, com um plano que permite compreender melhor os viajantes e comunicar “com autenticidade e clareza”; o reforço do alcance nacional e internacional da marca turística filipina através de parcerias com influenciadores locais e globais; o posicionamento das Filipinas como um destino MICE de excelência, capaz de acolher reuniões, incentivos, conferências e feiras de nível mundial; e a construção de parcerias “fortes e significativas” que promovam práticas turísticas sustentáveis, sensíveis às questões de género e assentes nas comunidades.


Filipinas com bom crescimento turístico


No pós-pandemia, as Filipinas têm registado bom crescimento turístico: 6.484.060 de turistas internacionais em 2025, mais 9% do que no ano anterior; gastos turísticos no valor de 694 mil milhões de pesos; e mais de 11 noites de duração média das estadias (em comparação com nove noites em 2019).

No capítulo das intervenções estratégicas para impulsionar o turismo nas Filipinas, destaque para a entrada sem visto para cidadãos da Índia, Taiwan e China, bem como a isenção de visto para passageiros de cruzeiros; o Digital Nomad Visa, para quem pretende trabalhar remotamente no país; e o reembolso do IVA para turistas, que pretende aumentar os gastos dos visitantes de alto valor.

Para além da expansão aérea prevista, foram também introduzidos dois programas (HOHO Transit Tours e Medical Tourism Concierge) para posicionar estrategicamente Manila como um importante centro turístico. Estão ainda abertas em todo o país 12 áreas de descanso; foram formados 412.564 trabalhadores do setor; há financiamento acessível para empresas de turismo; e um programa de ‘Filipinização’ assente em quatro componentes: arquitetura e design, gastronomia, música e performance, e operações e atividades comerciais.

Faz ainda parte da estratégia a promoção das Filipinas como um destino para os amantes de golfe e de eventos desportivos, como local de filmagem para produtoras cinematográficas internacionais, como destino de excelência para mergulho, cruzeiros e bem-estar, e ainda como centro para eventos MICE internacionais.

Exemplo do investimento em infraestruturas para eventos é o Mactan Expo Center, um complexo para eventos de grande dimensão, que foi recentemente inaugurado em Cebu e que acolheu a edição deste ano da ASEAN Tourism Forum.


Experiências diversificadas no Vietname


No Vietname, depois da pandemia, a recuperação e crescimento do turismo têm sido significativos em termos de visitantes internacionais. Em 2025, o país recebeu cerca de 21,2 milhões de visitantes estrangeiros (mais 20,4% do que no ano anterior) e 137 milhões de turistas domésticos. A meta para este ano passa por atingir os 25 milhões de turistas internacionais.

O acesso facilitado ao país (90-dias, multi-entry e-visa para todos os países), a forte conectividade aérea (ligações diretas para várias cidades do mundo com mais de 75 companhias aéreas e o Long Thanh International Airport inicia este ano as suas operações), a hospitalidade, a segurança e o desenvolvimento de infraestruturas e serviços de qualidade são fatores de atratividade do destino.

O Vietname apresenta diversos produtos turísticos: cultura e património (conta com oito locais Património Mundial da UNESCO, tem várias tradições populares e culturas étnicas, museus e locais históricos); natureza e ecoturismo (montanhas, floresta, rios, grutas, paisagens de cortar a respiração, foco no turismo sustentável, responsável e com benefício para a comunidade); praias e ilhas (paraísos tropicais); aventura (desportos aquáticos, mergulho, trecking e caving); relaxamento e bem-estar (resorts de luxo, ioga meditação, terapias tradicionais); e gastronomia (pratos típicos e aulas de cozinha).

Destaque ainda para as experiências citadinas – onde a história se encontra com a modernidade – e para a aposta no golfe e no turismo de luxo. Além disso, o Vietname apresenta-se como um destino MICE de excelência: Hanoi, Ho Chi Minh e Da Nang contam com infraestruturas de classe mundial e venues luxuosos para eventos internacionais de grande escala, e na ilha Phu Quoc vai nascer um novo centro de congressos para acolher já em 2027 a cimeira da APEC (Asia-Pacific Economic Cooperation).


Indonésia aposta no turismo de qualidade


A Indonésia voltou este ano aos níveis pré-covid. Entre janeiro e novembro do ano passado recebeu 13,98 milhões de turistas internacionais e 1,09 mil milhões turistas internos, resultando em 13,82 mil milhões de dólares em receitas. Para este ano, as expectativas são atingir os 16-17,6 milhões de visitantes internacionais.

As estratégias de marketing passam pelo aproveitamento da inteligência artificial para melhorar a experiência e expandir o alcance, pela colaboração integrada com os stakeholders, pela promoção do país em feiras de viagens, pela realização de familiarization trips, pela criação e distribuição de revistas, vídeos promocionais e conteúdos nas redes sociais, e ainda pela promoção do turismo para nichos de mercado.

O país procura turistas responsáveis. Os principais mercados a atingir são na maioria asiáticos, mas a Europa (em especial o Reino Unido, Países Baixos, França e Alemanha) também faz parte do público a alcançar. Há uma aposta no turismo de qualidade, com programas temáticos em torno da gastronomia, bem-estar, mar, têxteis, arte e design, no sentido de atrair turistas que abram os cordões à bolsa. Natureza e aventura, turismo eco-friendly, gastronomia, imersão cultural, turismo de bem-estar e bleisure são as preferências turísticas.

Casa de 76% das espécies de coral do mundo, de duas mil espécies de peixes, de mais de 100 espécies de tubarões e de mais de 30 espécies de raias, a Indonésia acolhe uma enorme biodiversidade, que pretende preservar. Ainda assim, o turismo marinho é uma aposta. Tal como o do bem-estar, com práticas tradicionais de há mais de dois mil anos, e o da gastronomia, sendo a ‘mãe das especiarias’, onde cada dentada pretende ser uma experiência. O país conta ainda com 6.074 aldeias turísticas, que oferecem uma experiência inclusiva, misturando cultura, natureza e autenticidade, e apelando à consciencialização e sustentabilidade.

Os eventos também são um fator atrativo, aumentando o interesse no destino. Em 2025, o país foi palco de 99 eventos no âmbito do Karisma Event Nusantara (um programa estratégico, que promove festivais ou eventos de música e arte para impulsionar o turismo), de 46 eventos nacionais, 29 eventos internacionais e 24 eventos MICE, atraindo 12,2 milhões de visitantes.

No ano passado, os países que fazem parte da ASEAN foram os mercados emissores mais importantes, seguido da Ásia e da Europa. E para todos os que procuram autenticidade, profundidade e imersão cultural, a Indonésia disponibiliza, recorrendo à inteligência artificial, uma assistente de viagem (Maia) que ajuda a melhorar a experiência dos visitantes, e lançou a app All Indonesia, que integra imigração, saúde e serviços alfandegários.


Singapura quer atrair visitantes MICE


Singapura, destino que vai acolher a ATF 2027, mantém uma trajetória sólida de recuperação e crescimento do turismo. Em 2025, o país registou 15,5 milhões de visitantes internacionais entre janeiro e novembro, com a previsão anual a situar-se entre 17 e 18,5 milhões. As receitas turísticas atingiram 15,7 mil milhões de dólares de Singapura (cerca de 11,6 mil milhões de euros) no primeiro semestre do ano, com uma estimativa total entre 29 e 30,5 mil milhões até ao final do ano passado. A estadia média situou-se nos 3,5 dias e a taxa média de ocupação hoteleira alcançou 82,4%, refletindo uma procura consistente e equilibrada.

China, Indonésia, Malásia, Austrália, Índia, Filipinas, Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido são os principais mercados emissores, e o gasto turístico distribui-se de forma diversificada, com destaque para as experiências de entretenimento e lazer. A aposta é também no turismo de qualidade e, com essa visão, Singapura traçou a estratégia Turismo 2040, para atrair visitantes MICE ou passageiros em trânsito, assegurando um desenvolvimento atrativo.

Há melhorias no aeroporto internacional e nas estruturas que acolhem eventos. Exemplo disso é a expansão do Marina Bay Sands, com conclusão prevista para 2030, que vai incluir uma torre de hotel de luxo, com uma área de entretenimento com 15 mil lugares e novos espaços MICE premium.

A atratividade do destino chega também através de novas experiências e, no ano passado, foram lançadas novas atrações, como Illumination’s Minion Land nos Universal Studios Singapore. Para este ano, está prevista a segunda fase do Mandai Rainforest Wild; em 2027, vai nascer o Porsche Experience Centre; e, em 2030, o Therme Singapore. E tudo isto além dos eventos de lazer já existentes como a Singapore Art Week, os concertos internacionais que o destino acolhe ou o Waterbomb Festival. Há, portanto, oferta para todos os gostos.

No capítulo da hospitalidade, este ano vai ser inaugurado o Parkroyal Collection Orchard e, em 2027, os Mövenpick Singapore e Mövenpick Living Singapore. Singapura também apresenta melhorias no turismo de cruzeiros, sendo casa para novos navios no ano passado. Este ano, vai acolher a Disney Adventure da Disney Cruise Line e, em 2027, o Explora III. A estratégia passa também por conteúdos de marketing com maior ressonância e impacto nos principais mercados, atraindo ícones da música e do cinema.

Mas há mais novidades: Singapura codesenvolveu o Travel Agent Roadmap para capacitar os agentes de viagens; tem trabalhado com as empresas de turismo, através do Data Analytics Shift, para aprimorar capacidades digitais e otimizar processos; e continua a reunir startups tecnológicas e organizações turísticas para testar soluções tecnológicas inovadoras, através do Singapore Tourism Accelerator.


Malásia tem nova campanha de promoção turística


À semelhança dos anos anteriores, a Malásia lançou uma nova campanha de promoção turística, a Visit Malaysia 2026, para atrair novos turistas ao país. A nova campanha inclui publicidade, pacotes turísticos, novos produtos, incentivos para o prolongamento das estadias e um calendário com 318 eventos em todo o território. Singapura, China e Indonésia foram os mercados emissores que mais se destacaram no ano passado. Este ano, na Europa, os mercados mais apetecíveis para o país são o Reino Unido, a Alemanha e a França.

Para 2026, os responsáveis do turismo da Malásia identificaram cinco tendências de viagem: as viagens movidas pela autenticidade e por experiências locais imersivas; o aumento da conectividade entre a região Ásia-Pacífico; a integração da inteligência artificial na melhoria da experiência dos visitantes, com recomendações à medida; as viagens sustentáveis; e a procura por qualidade e conforto.

A Malásia faz este ano uma aposta forte no turismo médico, tendo a ambição de ser o destino preferencial para este segmento em todo o mundo. Para tal, a estratégia passa por promover a proposta de valor dos cuidados de saúde da Malásia, por proporcionar experiências holísticas e integradas aos pacientes e por mostrar que a cura que vai para além do tratamento, integrando a diversidade cultural do país antes, durante e após o tratamento.

A Malásia é um país competitivo, mas compreende a necessidade de trabalhar de forma empenhada lado a lado com os restantes países que integram a ASEAN. Afinal, para serem um destino de referência têm de trabalhar com os parceiros.


O Camboja como um oásis turístico


Apesar do conflito com a Tailândia, que se intensificou no ano passado, o Camboja é um destino seguro – fazem questão de reafirmar os responsáveis do turismo do país. Em 2025, o Camboja acolheu 5,54 milhões de visitantes, principalmente oriundos do Vietname, China e Tailândia, registando uma ligeira quebra no número de turistas relativamente ao ano anterior. A nível europeu, França e Reino Unido fazem parte dos principais mercados.

Para posicionar o Camboja como um oásis turístico exuberante, fresco e tranquilo, o país lançou a campanha Green Season, a decorrer entre maio e outubro, quando o país está mais verde, e uma campanha para mostrar que o país é amigo dos muçulmanos, que visa atrair visitantes da Indonésia, Malásia e Médio Oriente, através do lançamento do guia ‘Cambodia Muslim Friendly’, no passado mês de outubro, e da expansão das instalações de refeições e oração em aeroportos e centros comerciais

Em 2026, para cada mercado em vista há uma estratégia delineada. Para o mercado ocidental, que inclui a Europa (França, Alemanha e Reino Unido) e Estados Unidos, a aposta passa pelo turismo cultural e ecoturismo de alto valor. Já para a China, Japão e Coreia, há programas-piloto de isenção de vistos e expansão dos voos diretos. Para atrair turistas da Austrália, o foco muda para os viajantes de luxo e de longa duração. E para as Filipinas, Vietname, Indonésia, Malásia, Laos e Singapura, que integram a ASEAN, a estratégia passa pela campanha ‘muslim-friendly’ e pela promoção do turismo MICE.

Fatores de atratividade são os festivais e eventos que se realizam ao longo do ano, as Fam Trips previstas com delegados, jornalistas e influencers para 2026 e o vídeo promocional ‘Camboja: Reino das Maravilhas’. Uma das grandes novidades no país é a entrada em funcionamento do Techo International Airport, aberto em setembro de 2025, na província de Kandal.




*A jornalista viajou a convite da ATF 2026

© Maria João Leite Redação