Francisco Serzedello: “Nós queremos ser trendsetters”
16-10-2026
# tags: Agências , Eventos , GR8
Há 30 anos que Francisco Serzedello vive os eventos a partir dos bastidores. Começou como hospedeiro nas corridas de automóveis, onde se apaixonou pela organização de eventos e, hoje, lidera a Gr8 Events.
Nesta entrevista à Event Point, fala do nascimento da empresa em plena pandemia, da importância de criar experiências que toquem as pessoas, do impacto da Inteligência Artificial, dos desafios da liderança e do futuro da indústria dos eventos em Portugal.
Qual foi o seu percurso até chegar à Gr8 Events?
Desde pequeno, sempre estive envolvido em eventos e tive a oportunidade de estar com pessoas que eram responsáveis pelos eventos e algumas de grandes empresas internacionais. Também desde muito pequenino fui exposto à competição automóvel e aos eventos automóveis. Tive a sorte de ir com o meu pai às corridas de Fórmula 1 no Estoril, estar dentro daquilo que era a organização na altura. Eventualmente, vem daí o bichinho.
Qual foi o passo seguinte?
Achava que Direito seria o meu caminho. Tive uma vida académica muito forte, uma vida como ginasta muito forte também. Com 18 anos, fui convidado para começar a ajudar neste mundo das corridas enquanto hospedeiro. E acho que foi aí que aconteceu, foi o voltar a esse mundo. Comecei como hospedeiro, rapidamente passei a ser coordenador, depois chefe da equipa. Sempre gostei muito mais dos bastidores e, na altura, era muito melhor ser hospedeiro do que ser gestor de eventos: trabalhava-se menos, era menos difícil, mas eu acho que muitos dos gestores de eventos que lerem estas palavras vão rever-se nisto – não é sobre o dinheiro, não é sobre o termos tempo para descansar, é sobre gostarmos de estar no backstage, de organizar, de fazer parte das decisões, e isso para mim é mesmo importante, fazer parte da decisão, fazer parte do pensamento que levou aquilo a acontecer, da resolução dos problemas.
Depois chegam as agências, onde também faz um caminho…
Comecei a trabalhar nas agências ligadas ao motorsport. Muito júnior, na altura, como é óbvio, mas fui ganhando destaque, até passar a ser responsável por tudo o que acontecia fora da pista. Foi uma escola muito grande, com pessoas que sabiam muito do que estavam a fazer, e ainda hoje são referências nesse mundo.
Nesse universo inicial ligado ao desporto motorizado, que ensinamentos tirou dessa altura e que o acompanharam no resto da carreira?
Primeiro, que os eventos acontecem naquele dia, àquela hora e não interessa quem é que falhou, não interessa quais foram as razões, vai ter que estar tudo pronto. Vai ter que acontecer e vai ter que acontecer o melhor possível. E, por isso, a última responsabilidade é minha. E aprendi que são mesmo importantes as relações que crias com as pessoas. É sobre o pensamento no longo prazo. Todas as vezes que as pessoas me pediram ajuda e eu ajudei sem pedir nada em troca, já recebi isso de volta tantas vezes.
Este ano comemora 30 anos de carreira nos eventos…
Sim, comecei como hospedeiro e depois foi tudo muito rápido. Muitas vezes, na minha carreira tive que decidir onde é que queria estar, porque gosto mesmo de fazer eventos. E, por isso, quando passei a ser diretor-geral e sócio da Action Plan, foi difícil sair para outra empresa, mas o meu pensamento foi: eu quero fazer eventos ainda maiores, quero crescer. Hoje, ser CEO de uma empresa, principalmente num grupo grande, com muitas coisas a acontecer, o CEO já não tem a sorte de…
De pôr as mãos na massa?
Acho que toda a equipa precisa de mim noutro papel. Acredito, tenho a presunção de que ainda acrescento valor quando ponho a mão na massa. Ainda há pouco tempo tive de ser eu a gerir um evento do início ao fim, porque não havia mais equipa, porque felizmente somos 40, mas ainda assim não chega para tudo. Tive oportunidade de fazer isso e deu-me mesmo muito gosto. Mas, na realidade, alguém tem que estar ao comando. É muito mais divertido fazer eventos, posso dizer…
Gr8 Events: para responder a uma necessidade do mercado
A Gr8 nasceu em 2021. O que é que sentiu que estava a faltar no mercado para arrancar com este projeto?
A Gr8 nasceu em 2021, mas nós já estávamos há seis meses a preparar o que íamos fazer e a perceber o que fazia sentido. Estudámos o mercado, falámos com clientes, com os players do mercado. E, foi claro para nós, que o mercado era dividido. Hoje está muito melhor, porque a Gr8 puxou para este lado, mas o mercado era mesmo dividido entre as empresas que eram muito boas a executar, mas que a criatividade não era o top of mind, o foco estava no fazer bem feito e em superar as expectativas na execução. E aquelas que, pura e simplesmente, não percebiam muito de eventos, mas que criativamente, porque vinham da publicidade, da comunicação e das grandes empresas multinacionais, grandes criativos a pensar em coisas extraordinárias, mas que depois, grande parte das vezes, não eram exequíveis ou defraudavam as expectativas dos clientes. E, por isso, quando nós criámos a Gr8, lançámos exatamente para satisfazer os clientes que queriam continuar a sonhar e a ter projetos espetaculares ao nível de criatividade, mas também ter alguém que entregasse o sonho que tinha sido prometido e que, por isso, superasse as expectativas. Juntámos a isso tecnologia e inovação. Nós não só procuramos as tecnologias, mas nós desenvolvemos dentro de casa. E isso, acho eu, foi aquilo que fez com que, nos dois primeiros anos, o telefone não parasse de tocar.
Nasceram em plena pandemia, isso exigiu mais coragem?
Sim, mas também existiu um conjunto de oportunidades para quem estava disposto a agarrá-las. Grande parte das empresas pararam e receberam subsídios para estar paradas. Ao abrir uma empresa nova na pandemia, não há apoio rigorosamente nenhum. Era um bocadinho loucura, porque ninguém sabia o que é que ia acontecer. As coisas abriram, depois voltaram a fechar, mas nós estivemos sempre a trabalhar. Os eventos corporativos, as reuniões de empresas, nunca estiveram proibidas, porque as empresas tinham o poder de se reunir. Esse foi um nicho de mercado que nós aproveitámos. Os boards das empresas, numa altura de crise, precisavam de tomar decisões, de se reunir com toda a gente em segurança. E nós ajudámos muitas dessas empresas a conseguirem fazer isso.
Mas, nessa altura, alguma vez vacilou?
Vou confessar que não estava rigorosamente nada assustado. Nós começámos logo com 14 pessoas. E empresas de eventos com 14 pessoas são muito raras. Tinha 25 anos de experiência. A equipa toda, acho que não havia ninguém com menos de 7, 8 anos de experiência. Éramos muito seniores. Todos nós sabíamos o que é que tínhamos que fazer, o que entregar. E sabíamos que havia mercado para isto. Excedeu em muito as nossas expectativas. Foi mesmo bom. Foi mesmo sentir que fazia sentido. E que fomos abençoados. E as pessoas gostavam daquilo que estávamos a entregar. E gostavam muito de trabalhar connosco. E o nosso crescimento, nos três primeiros anos, de quase 100% todos os anos significa que cada vez havia mais pessoas a querer trabalhar connosco. Também sei que quando aparece algo de novo, há o fator novidade que funciona. Hoje em dia, já não temos esse fator novidade tão forte. Também as empresas que já estavam há mais tempo já se adaptaram. E são um ótimo concorrente. E obrigam-nos a reinventar todos os anos.
O que é que distingue um evento memorável de um evento apenas bonito?
São aqueles que nos tocam. Nós mudámos o nosso lema de “Great Team, Great Events”. Não porque não acreditamos nele. Mas porque “Experiences You Can Feel” responde exatamente à tua questão. A diferença é quando tu sentes a experiência. Há eventos lindíssimos, super bem organizados, mas não ficam na nossa memória. Porque não nos trazem nada de novo. E por isso a grande questão é: como é que tocas nas pessoas? São precisos meios, ferramentas. Mas é preciso inteligência emocional. É um negócio de pessoas para pessoas. A IA é uma ótima ferramenta de ajuda nos eventos, mas como tocar nas pessoas… continua a ser a mente humana a servir de barómetro.
“Fazemos tudo para os clientes estarem satisfeitos”
Nos eventos há muita pressão, imprevistos, adrenalina. Alimenta-se dessa intensidade? Ou há momentos em que pensa: isto talvez não seja sustentável?
Nunca pensei que não fosse sustentável. É horrível quando nós não ganhamos um projeto, porque tu investes tempo, inteligência, pessoas, expectativas. Eu gosto de chamar coração. Pões amor em tudo aquilo que fazes. E quando vês que, por alguma razão, a tua proposta não é escolhida, o teu coração morre um bocadinho ali. Isso é mesmo difícil. Ficamos de ressaca uns dias. Não são as semanas ou os meses que pusemos nisso, nós acreditámos mesmo naquilo, que aquele era era o caminho. Este é o lado menos bom. O lado bom é que é mesmo recompensador ver os projetos no final. Quando nós materializamos aquilo tudo que sonhámos e aquilo que queríamos. E eu acho que todos os gestores de eventos são viciados em receber os parabéns dos seus clientes e com a satisfação dos seus clientes no final do evento. Porque nós fazemos tudo para os clientes estarem satisfeitos. É o nosso principal objetivo. Vou confessar que aqueles clientes que nao partilham essa emoção – são raríssimos – nos deixam um bocadinho dececionados.
Há muitos clientes difíceis?
Não. As experiências que eu tenho no mundo dos eventos é que corre sempre tudo bem. É raríssimo quando alguma coisa não corre bem. Também há, mas são resolvidos da melhor maneira. Mas isso é a realidade em algumas empresas. Que são espetaculares. Eu não tenho problema nenhum em dizer que os meus concorrentes são todos muito bons. Acho que o top das agências em Portugal é fora de série, em qualquer sítio no mundo. Mas há muitas empresas em que a teoria é: correu bem hoje, que bom que correu bem. Nós não é isso. O que nós queremos é a satisfação total do cliente no final.
Mas os clientes são desafiantes o suficiente? Arriscam?
Sim. Acho que até querem ser desafiados. Quando nós fazemos a promessa de inovação tecnológica, de criatividade, de execução, as expectativas estão altíssimas. E a exigência que tenho para comigo é altíssima. Eu gosto mais de clientes exigentes e que querem ser surpreendidos, que querem fazer coisas novas. E coisas novas não é sobre budgets, às vezes é só uma ideia.
Até que ponto a tecnologia está a transformar realmente os eventos ou acha que pode ser apenas ruído?
Acho que a tecnologia sempre mudou o mundo. Quando comecei, era difícil saber quem era o fornecedor de plantas, de tendas, em quem é que podíamos confiar. Hoje em dia, qualquer pessoa vai ao Google e tem tudo lá. Para quem quer fazer eventos todos os anos diferentes, isso é espetacular.
Mas às vezes não assusta ser só fogo de artifício e não ter um propósito?
Depende de como se usa a tecnologia. Mas antigamente também era assim. Podias pôr uma sala cheia de flores e não haveria nenhum propósito, não haveria uma história, não haveria uma narrativa. É só bonito. Desperta os sentidos e até pode marcar, se for mesmo bonito. Mas se contares uma história, as pessoas vão recordar. E, por isso, o propósito tem sempre de existir. Com ou sem tecnologia. Há eventos que não têm tecnologia e são fabulosos.
Há até uma corrente de tornar os eventos mais analógicos…
Os eventos começam com uma necessidade que o nosso cliente tem. E nós temos que encontrar o melhor evento para satisfazer aquela necessidade. Às vezes é tecnologia, às vezes é uma solução mais analógica, às vezes é algo no meio. Mas essa é a parte gira. Todos os dias tem desafios diferentes.
E as respostas a estes desafios, podem estar fora de Portugal?
Sim! O internacional ajuda-nos muito a crescer. Nós queremos ser trendsetters. Queremos estar à frente nas tendências. Quero ser eu a dizer aos meus parceiros que há esta nova tecnologia, e que ele devia comprar isto porque quero usar isto nos meus eventos. Quero mostrar aos meus clientes coisas que eles nunca viram. E é difícil desenvolve-las cá. É mais fácil tirar exemplos ou ir buscar inspiração em coisas que são feitas lá fora. Também gosto de ser júri em alguns prémios. Hoje em dia, vejo ainda mais coisas espetaculares a acontecerem lá fora. Acho que Portugal já esteve no topo dos eventos. Vejo eventos espetaculares a acontecer lá fora, que eu sei que não os conseguiria replicar aqui.
E isso preocupa-o?
Portugal tem dos melhores gestores de eventos do mundo e dos melhores profissionais na área dos eventos do mundo. E por isso fico com pena de estes fantásticos gestores de eventos, com visão e tudo, não terem as ferramentas ou a oportunidade de fazer aquilo de que todos gostamos e que é o melhor evento possível.
Mais venues
Qual é a sua reação ao ranking da ICCA, que colocou Lisboa como o primeiro destino para congressos do mundo, com o Porto a registar uma grande subida?
Fico mesmo muito orgulhoso. Nós vemos este setor a crescer todos os dias. E não há visibilidade para a minha parte, que é a área do corporate. Nós sabemos, por nós e pelos nossos parceiros, a quantidade de trabalho que temos, e todos os eventos que acontecem, mas isso está fora do radar. São todos privados. Fizemos agora o maior evento que foi captado este ano, no Porto. Não podemos comunicar, mas estamos a falar de um evento gigante. Há muitos que acontecem em Portugal, e há muitos anos, e que seria um grande orgulho se todas as pessoas soubessem, mas são à porta fechada e, até por motivos de segurança, ninguém nunca vai saber que eles aconteceram cá. Isto justifica totalmente esta posição. Não é uma surpresa para mim, mas é fruto do trabalho de muitas pessoas. Não é só daqueles que tem responsabilidades sobre isso. Empresas, agências, DMCs, PCOs, todos os dias batalham para captar negócios para Portugal e deixar uma imagem espetacular de Portugal lá fora. Queria só dar uma nota. Sei que há imensos planos para fazer crescer as infraestruturas que temos para este negócio. Alguns deles estão parados há muitos anos e nós precisamos mesmo deles. Porque aquilo que nos limita hoje em dia são as infraestruturas. Não vou personalizar, gostava de deixar o pedido a todos os responsáveis que é: por favor, olhem para isto como investimento no país. Com mais infraestruturas, nós damos um salto ainda maior e é bom para todos.
Acha que o setor está comprometido com a sustentabilidade?
Não sou político, nem tenho que comentar política, nem sequer geopolítica, mas parece-me a mim que o mundo está muito menos comprometido com a sustentabilidade do que estava. Temos guerras, temos situações tensas, e quando é assim a sustentabilidade passa para segundo lugar. É uma preocupação enquanto cidadão.
Qual é a importância nos vossos processos da Inteligência Artificial? Abraçaram-na?
Claramente. Abraçámos com as duas mãos, com a cabeça, com o coração, com tudo. Há muita resistência na Inteligência Artificial e, curiosamente, acho que a grande parte da resistência até costuma vir do topo das lideranças. No nosso grupo não é assim. Abraçamos a Inteligência Artificial e todas as ferramentas que nos ajudam a otimizar processos e a sermos mais ágeis. É isto que todos queremos. A IA é um produto que nós vendemos, porque nos permite, a nível de inovação tecnológica, fazer coisas espetaculares.
Novas gerações e liderança
Como é que se vão formar novas gerações apaixonadas pelo setor dos eventos?
É facílimo. Quando começo a dar as minhas aulas quase ninguém sabe o que são os eventos corporativos. Quase ninguém quer ir por esse caminho. Hoje em dia, já não é bem assim porque já há pessoas que se inscrevem só porque querem perceber mais daquilo. Mas grande parte das pessoas que se inscrevem não têm essa noção. E consigo “converter”, “seduzir”, fazer apaixonar pelos eventos algumas destas pessoas que queriam fazer espetáculos, concertos, festivais – é quase aquilo que toda a gente quer, e depois as pessoas ficam seduzidas e apaixonadas por este mundo. Eu senti a mesma coisa, adorava o motorsport e achei que era exatamente o que eu queria fazer, mas comecei a fazer corporativo e fiquei apaixonado. Adoro o corporativo, é o que gosto de fazer.
É fácil agora para vocês contratarem? É um grande desafio? Como vê as novas gerações?
Há gerações e gerações. Somos todos diferentes. Eu não sou igual a todas as pessoas na minha geração. É lógico que há tendências e as gerações são diferentes, mas é inegável: todas trazem algo diferente. O sentido de menor compromisso que é apontado a estas novas gerações e de quererem coisas novas, de quererem viajar mais e estar no escritório menos. Vejo isso no geral, mas no particular vejo pessoas muito novas que chegam muito comprometidas e a darem o mesmo que os outros, a quererem ficar no escritório até as 11 da noite, 2 ou 3 da manhã quando é preciso, porque às vezes é preciso, porque é isto que querem, é isto que gostam de fazer. Não é sobre geração, é sobre tu gostares, ou não, daquilo que estás a fazer.
Que lições de liderança tem retirado destes anos de Gr8?
Cresci muito, muito como líder. E uma coisa é quando tu és o líder que está no terreno, outra diferente é quando és o líder que já não está no terreno. Lidero por exemplo e quando se está no terreno as pessoas veem isso e quando não se está as pessoas não veem isso a acontecer e tens que mudar. O mais importante são as pessoas que, hoje em dia, têm outras dificuldades que antigamente não tinham. Há muito mais solidão, mais dificuldade em lidar com o stress, mais dificuldade e muito mais exigência em conciliar aquilo que é preciso fazer em casa com aquilo que é preciso fazer no escritório. E as pessoas às vezes sentem-se perdidas e precisam de apoio. E o meu papel como líder deixou de ser controlar a organização, deixou de ser controlar o outcome e passou a ser ajudar as pessoas, preocupar-me com as pessoas, perceber o que é importante para elas e nem sempre é fácil. E isso é uma mudança de chip. Mas quando tens uma empresa muito grande, já não chegas a todas [as pessoas]. Eu tenho que promover isso, estar mais presente. Outra coisa que muda muito numa equipa tão grande, é que já não estou a formar só pessoas, estou a formar líderes. E tenho muitos líderes dentro da equipa, tenho que os deixar falhar e de lhes dar espaço para eles conseguirem crescer e testar as ideias em que acreditam, mesmo eu sabendo que muitas vezes não vai correr bem. Nunca pondo em causa o evento, ou o cliente, mas sabendo que aquilo vai doer, mas era uma lição importante.
“Sempre tive um grande sentido de responsabilidade”
Como é que o Francisco se define como pessoa?
Os meus primos costumam dizer que eu já nasci velho. Eu não sou o mais velho dos meus irmãos, mas sou tratado por toda a família como se fosse o irmão mais velho. Porque sempre gostei de ouvir os mais velhos, de ter conversas mais maduras, sempre gostei de aprender e de fazer as coisas da forma certa, sempre gostei de regras, sempre gostei de cumprir regras e de não as cumprir, quando acho que é a altura de não as cumprir, mas saber quais elas são. Sempre tive um grande sentido de responsabilidade. Acho que tenho um sorriso fácil quando estou no meu tempo, mas acho que a imagem que passo é uma imagem mais séria, mais cumpridora, apesar de adorar patetice.
Como é que gere a sua vida pessoal com a vida profissional?
Quando era só diretor executivo ou só gestor de eventos, as coisas eram fáceis de conjugar. Quando fui pai, a complexidade subiu muitos níveis. E junto a isto o dar aulas, que é uma das minhas paixões, que nunca quis deixar, apesar de todas as loucuras em que me vou metendo. E, depois, estar presente em associações, poder ajudar causas que também considero excelentes. Faço parte do board da Gr8, da administração, sou CEO, não sou só diretor executivo. E faço parte de outros conselhos de administração. E isto tudo é muito exigente, e muitas vezes todos estes fiozinhos da teia chamam ao mesmo tempo. E é difícil tu escolheres qual é o certo para tocar. Na minha cabeça, desde que fui pai que eu falho em todos os campos. Estou sempre a falhar. Mas escolho quais é que são os sítios onde falho. O meu filho acha que eu estou presente em todos os momentos importantes, e não consigo estar em todos. Mas consigo estar em uma parte muito elevada. E as pessoas, o meu grupo de trabalho, tanto na minha equipa na Gr8, como pela parte da Cosmos, e da Olivedesportos continuam a acreditar que eu sou uma mais-valia para outros projetos, e, por isso, continuam a confiar em mim. Não deixei de fazer as coisas que considero importantes, com a noção de que vou sempre falhar, estou sempre a falhar em coisas. E todos os dias vou para casa a saber que deixei algumas coisas para trás. É isto que provoca stress, a quantidade de assuntos pendentes que temos. Mas quem gere eventos, quem está dentro deste mundo, sabe que nós podemos planear a semana toda, e estamos sempre a mudar, por causa de outras coisas que aparecem. E não é sobre assumir ou não compromissos, é sobre prioridades. E os eventos são naquele dia, àquela hora, eu não posso adiar. Se alguma coisa está a falhar no evento, nós temos que resolver agora.
No meio disso tudo, como é que arranja formas de descontrair?
A minha grande bolsa de oxigénio é o meu filho. Enche-me o coração e ajuda-me bastante a aliviar o stress. Adoro fazer desporto. Tenho aulas de padel com o meu filho e jogo padel imensas vezes. O desporto ajuda a limpar a cabeça.
10 perguntas a Francisco Serzedello
1. Comida de conforto no final de um evento?
Bife com batatas fritas.
2. O primeiro evento de que tem memória?
A Fórmula 1, no Estoril.
3. Cidade para viver?
Sou lisboeta, vivi 20 anos em Cascais. Tenho dificuldade em escolher.
4. Uma música obrigatória na playlist? Ou uma banda?
Eu sou super eclético e a música é importantíssima na minha vida. Mas como sou um pai babado, esta semana fui o caminho todo a ouvir músicas que o meu filho está a tocar. Vou variando.
5. Tem algum ritual antes de entrar num evento?
Não. Acredito que tudo vai correr bem.
6. O maior luxo depois de dias intensos de evento?
Agora, se calhar, vou alienar grande parte da população feminina (risos). O que eu mais gosto, quando tenho essa oportunidade, que é raríssimo, é não fazer nada. Deem-me uma tarde sem fazer nada.
7. Se não trabalhasse em eventos, o que estaria a fazer?
A dar aulas.
8. Alguém que admire neste setor?
Muitas pessoas. Seria injusto nomear alguém. Tive mesmo muitos líderes e aprendi com todos eles.
9. O maior elogio que alguém lhe pode fazer depois de um evento?
É provavelmente o elogio que mais me fazem: tens uma equipa espetacular. E não há nada que, profissionalmente, me deixe mais orgulhoso.
10. O que é que nunca pode faltar para que um evento tenha alma?
Coração.
Cláudia Coutinho de Sousa
Rui Ochôa
© Cláudia Coutinho de Sousa Redação
Editora

