Heloísa Gonçalves: “Gosto de antecipar e de pensar no imprevisto”

Entrevista

22-07-2026

# tags: Eventos , Vida de Eventos

Em criança, os seus sonhos passavam por várias profissões: jornalista, professora, ou ir para África em missão... A vida levou Heloísa Gonçalves para os eventos.

O jornalismo que estudou no ensino secundário deu-lhe “ferramentas para perguntar e, sobretudo, para ouvir”, capacidades também úteis na área de Psicologia que seguiu no ensino superior. Aí teve a certeza da missão a cumprir: “ajudar pessoas a encontrarem o seu caminho”. E “a vida deu-me exatamente isso… nos eventos”.

Em 2008, entre CRM, gestão de projetos e formação, no trabalho nas operações da Vodafone, Heloísa Gonçalves “vivia a adrenalina das telecomunicações” e, fora do horário de trabalho, integrava a área de Produção como voluntária. “Foi onde tudo começou de verdade: aprendi o rigor dos detalhes”, ao lado de grandes músicos e técnicos, explica.

Fez formação em Londres e esteve na produção de eventos nas grandes salas, com “palcos e logística bem desafiantes”. “Foi uma escola incrível e exigente, onde ganhei como inegociáveis a excelência e o coração na equipa. O voluntariado abriu-me portas e, ao longo dos anos, aliado ao percurso profissional, acabou por revelar o caminho: comecei no negócio, gestão de projetos e formação; passei pela gestão; e, mais tarde, decidi mudar de rumo para a comunicação, coaching e a mentoria, e especializei-me em comunicação executiva de palco”, aponta.

Heloísa Gonçalves é hoje diretora de Produção na Líder Events do grupo Líder, onde diariamente trabalha com “líderes de referência, pessoas de enorme valor que querem construir um mundo melhor”. No seu trabalho, “todos os detalhes contam, quando queremos que as mensagens cheguem com clareza, emoção e sentido prático”.

“O dia do evento é um ensaio perfeito”


O voluntariado evoluiu para uma profissão onde se sente “verdadeiramente privilegiada pelo que fazemos, como fazemos e, acima de tudo, pelo porquê de o fazermos. E isso não troco por nada”, frisa Heloísa Gonçalves, cuja motivação vem dos momentos em que tem “oportunidade de fazer algo que nunca ninguém fez antes”.

“Aí estou onde gosto de estar: na inovação, numa interação única entre o criativo e o impossível que se torna possível.” No dia-a-dia, fascina-a a realização do simples: conjugar ideias e meios, e com tudo pensado ao detalhe. “Ver equipas sincronizadas a transformar horas de trabalho que fluem no palco é gratificante. A motivação vem daí”, afirma.

Heloísa Gonçalves procura distinguir entre o que controla e o que não controla e valoriza “equipas autónomas e alinhadas”, onde todos sabem o seu papel. “Procuro não ser necessária e, se só eu sei alguns detalhes do dia, aí sim sinto stress”, reconhece, acrescentando dar “muito valor às horas dedicadas à preparação e ao ensaio, onde tudo fica claro e alinhado. Em tom de brincadeira, digo que o dia do evento é um ensaio perfeito”.

Antes de cada evento, tem o hábito de fazer uma ronda pela equipa. “É importante para mim perceber como cada pessoa está realmente. Tenho a convicção de que o cuidado e o respeito mútuo funcionam como a cola que mantém o trabalho unido.” Por isso, promove “um ambiente positivo, com boas palavras entre todos e elogios verdadeiros ao longo do dia”.

“Trabalhar em equipa não é opcional, é essencial”


Heloísa Gonçalves foi aprendendo que não podia fazer tudo sozinha. “Percebi que trabalhar em equipa não é opcional, é essencial”, afirma, sublinhando que é numa boa equipa que encontra segurança, rapidez e novas perspetivas. Hoje, acredita que “a verdadeira força está na rede que construímos”.

Num setor onde tudo acontece ao mesmo tempo, em sítios diferentes, a comunicação é importante. Entre rádios que falham e interferências inesperadas na frequência – como ouvir, em vez das instruções da equipa, o room service de um hotel nas proximidades do evento ou até a gestão de uma corrida de cavalos –, Heloísa Gonçalves não hesita no superpoder que gostaria de ter: “Telepatia, sem dúvida”. A capacidade de comunicar sem ruído ou botões seria, diz, “simplesmente perfeita”.

O seu kit de sobrevivência não é secreto, “é a cultura do grupo Líder: uma mentalidade de confiança nas pessoas com quem trabalhamos”. Gosta das perguntas que fazem, das ideias inesperadas que surgem e de como pensam soluções. “Isso resolve mais crises do que qualquer gadget”, garante. A par disso, conta com “uma lista mental de planos B, C, D… Gosto de antecipar e de pensar no imprevisto”.

Ao longo do caminho, somam-se vários momentos de orgulho. Recorda um deles, em 2023, na preparação de uma apresentação sobre liderança e o futuro da inteligência artificial, que tinha como orador convidado o filósofo Sebastian Sunday Grève. Ao perceber que o nome de referência para o seu trabalho era o matemático Alan Turing, falecido em 1954, a direção criativa decidiu dar-lhe vida.

“Decidimos ir além do convencional: usámos IA para recriar a sua presença. ‘Alan Turing’ abriu a apresentação, em Portugal, lado a lado com Sebastian, que mergulhou em questões que realmente importam: como garantir que as máquinas que criamos respeitam valores humanos? Como operar eticamente num mundo onde a IA está cada vez mais presente? Qual a verdadeira relação entre humanos e máquinas?”. Depois do silêncio, vieram os aplausos da plateia. “Não pelo efeito wow, mas pela mensagem: um lembrete vivo de que a tecnologia deve servir a humanidade, nunca substituí-la ou desumanizá-la”, refere.

“Cada falha é uma oportunidade de melhoria”


Para Heloísa Gonçalves, nos próximos anos, “os eventos vão ser cada vez mais integrados, imersivos e orientados para a hiperpersonalização”, com mais micro-eventos e experiências segmentadas para públicos específicos. A IA vai afirmar-se “como uma ferramenta operacional ao longo de todo o ciclo do evento”, a fusão entre conhecimento, entretenimento e microlearning vai ganhar “ainda maior relevância”, a sustentabilidade vai passar de “opção” para um “padrão exigido”.

“A grande mudança estrutural será a transição do evento enquanto momento pontual para uma ferramenta estratégica de longo prazo”, defende, apontando uma maior valorização do presencial. “Caminhamos para uma combinação inteligente entre escala global e emoção local, capaz de gerar impacto real nas pessoas e nas organizações.”

Às novas gerações, Heloísa Gonçalves aconselha: “Procurem estar com pessoas que sabem mais do que vocês. Aprendam a técnica, mas nunca se esqueçam de quem são e dos vossos valores.” E deixa uma dica: “Uma solução no timing perfeito sem emoção é vazia de significado. E uma emoção sem técnica é puro caos.” Diz ainda para serem “curiosos”, para multiplicarem as suas competências, para aceitarem rapidamente o erro – “porque cada falha é uma oportunidade de melhoria, já no próximo evento” –, e para, acima de tudo, se divertirem.

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