IA Generativa: a Bela ou o Monstro?
10-04-2026
# tags: Inteligência Artificial , Agências , Eventos , Criatividade
Ultimamente, a criatividade ganhou um novo player: a Inteligência Artificial generativa.
Nunca estivemos tão bonitos no LinkedIn, todos temos selfies com os nossos ídolos e fazemos likes em reels inspiradores que nunca existiram. A IA entrou no nosso quotidiano sem pedir licença, e parece que todos ganhámos superpoderes.
Mas quando o assunto é produção de conteúdos, quando temos que entregar o que o cliente quer, como o cliente quer, a conversa muda. Aqui, o terreno é mais sério. Mais crítico. Mais exigente. A IA ainda é um tabu entre muitos criativos. Existe um receio difuso, quase instintivo. Como se aceitá-la fosse admitir que o nosso talento pudesse ser substituído. Mas a verdade é que a IA generativa não é um monstro de sete cabeças. Nem é uma máquina que vai roubar o trabalho a todos os profissionais criativos. A IA é uma ferramenta. Poderosa? Sim! Mas, ainda assim, uma ferramenta.
Para o leigo, ela é o fim: a imagem pronta, o vídeo que impressiona. Para nós, profissionais, é como um editor de imagem ou um software de 3D: serve um conceito. Não o cria. Com mais de duas décadas de experiência em pós-produção e grafismo, consigo ver com clareza tanto o potencial como a armadilha da IA. A IA obriga a uma mudança no processo criativo. Muda o ritmo. Muda o fluxo. E exige uma nova mentalidade, menos linear, mais exploratória. Mas vale a pena.
Depois de “descodificado” o processo, os resultados são surpreendentes. Ainda assim, importa desfazer um mito: não existe um botão mágico. Trabalhar com IA é uma coreografia. Saltamos de aplicação em aplicação, contornamos limitações, lidamos com bugs, com falhas, com frustração. E, claro, com o taxímetro sempre a contar. Por vezes, o processo para se chegar ao resultado pretendido exige tanta ou mais criatividade que o próprio conceito do projeto, mas os resultados são incríveis. Quando finalmente conseguimos que tudo fique como imaginámos, a sensação é de conquista pura.
Trabalhar com IA tem uma curva de êxito muito particular. Começa pela euforia, segue-se a frustração e se trabalharmos com método surge a conquista e o sucesso. Comparo-o muitas vezes com a sensação de quando era criança e ia a uma festa de aniversário: “vou comer os doces todos!!”. E depois, ao ver tanta coisa junta, perdia a fome.
Com a IA é igual. Começamos com euforia: tudo parece possível. Mas, quando começamos mesmo a trabalhar, surge a síndrome da folha em branco. Nada parece funcionar. De um dia para o outro, sentimos que deixámos de saber o que estamos a fazer. E depois... de repente... POW. Começa a acontecer. A imagem certa, a textura certa, o movimento certo. Tudo começa a alinhar-se. A visão torna-se concreta. E a satisfação final é viciante.
Neste processo, há também questões de ética e responsabilidade. Durante algum tempo, defendi que os conteúdos produzidos com IA deviam estar identificados como tal. Mas mudei de opinião. Numa formação recente, um realizador usou uma expressão interessante: “essa ideia é datada”. No início, estranhei. Mas depois percebi. Se fossemos a identificar todas as técnicas utilizadas em publicidade ou design, teríamos de incluir avisos em tudo: “essa não é a cor natural dos olhos da manequim”, “o hambúrguer que comprar não vai ser igual ao da imagem”, “os abdominais do jovem foram editados”. Não é isso que importa. O que importa é não atravessar a linha da legalidade e da ética. Não criar “não-verdades” em contextos sensíveis. Não simular depoimentos reais. Não inventar celebridades a validar produtos. Não gerar imagens que alimentem conflitos ou desinformação. Temos que ser responsáveis pelos conteúdos que criamos.
O verdadeiro inimigo da IA é o seu ritmo de evolução. Todas as semanas surgem novidades. Ferramentas que ontem eram essenciais tornam-se obsoletas. O que era impossível torna-se banal. Somos obrigados a reaprender constantemente. A ajustar processos. A redefinir fluxos. É cansativo. Mas, na maioria das vezes, compensa. Não sei o que aí vem, mas estou atento. E sei que o futuro da IA na criação de conteúdos vai passar por três palavras: controlo, coerência e direção. Direcionar a IA com intuição criativa, garantir consistência visual e coerência, é essencial para o storytelling.
Porque por mais que a tecnologia evolua, ainda não há prompt que substitua um bom sentido de ritmo, de espaço e de narrativa. A IA não é o fim da criatividade. É uma nova forma de exercê-la. Com outras regras. E outros encantos.
Nota: Este texto foi escrito sem recurso a IA… será que foi?
© Ricardo Guerra Opinião
CEO da Hello Movement
