Karla Thomas: “A energia de ver tudo ganhar vida é indescritível”

Entrevista

18-02-2026

# tags: Niu , Eventos , Vida de Eventos , Eventos corporativos

Karla Thomas chegou à área dos eventos “de forma inesperada”. Veio para Portugal em 2004 e é hoje account director da Niu Brand Activation.

“Sempre atuei na gestão de projetos, mas o meu percurso começou nas artes cénicas, após concluir um curso profissionalizante nessa área, ainda no Brasil. Mais tarde, migrei para as artes plásticas e participei na organização de algumas exposições, incluindo uma Bienal de Arquitetura em São Paulo. Em 2002, entrei definitivamente no mundo dos eventos e descobri que era o que gostava de fazer— desde então, nunca mais saí”, começa por contar à Event Point.

Karla Thomas veio para Portugal no ano de 2004, “a convite de um consórcio criado para a realização das cerimónias de abertura e encerramento do Euro’2004” – um projeto que foi um “marco” no seu percurso. “Tratava-se de uma equipa multidisciplinar formada por várias empresas portuguesas, um projeto de grande dimensão, que exigiu criatividade, rigor logístico e uma coordenação minuciosa. Foram dois grandes eventos, uma aprendizagem enorme e uma mudança pessoal: foi quando decidi que queria ficar em Portugal”, afirma. E assim foi.

Além das cerimónias do Campeonato Europeu de Futebol em 2004, soma vários eventos memoráveis, como a Parada dos 15 anos da SIC, “que ocupou a Avenida da Liberdade com seis horas de transmissão ao vivo e milhares de pessoas a desfilar, e uma logística bastante exigente em termos de licenças, gestão de pessoas e horários”.Também destaca a “primeira corrida dos sofás da Vodafone, para a distribuição de bilhetes para o Rock in Rio, que foi divertidíssima de fazer”. “É difícil escolher apenas um, porque já foram muitos e todos deixaram a sua marca de alguma forma”, explica.

“Cada evento é como uma gestação”

O que mais a encanta nesta indústria “é que, apesar de haver semelhanças entre os eventos, cada projeto traz desafios únicos”. Costuma mesmo dizer que “cada evento é como uma gestação: começa com a conceção da ideia, passa por um período intenso de trabalho e culmina com o ‘nascimento’ no dia da realização. A energia de ver tudo ganhar vida é indescritível e funciona como combustível para o próximo desafio”. Acrescenta que também a fascina “o poder que os eventos têm de criar conexões autênticas entre marcas e consumidores, transformando ideias em experiências memoráveis”.

Quando é necessário encontrar inspiração para apresentar soluções inovadoras e criativas, Karla Thomas junta vários ingredientes. “Vivemos num mundo repleto de estímulos e conteúdos, vindos de múltiplas fontes - desde a observação do quotidiano até às ferramentas mais avançadas, como a inteligência artificial. A inspiração surge dessa mistura, combinada com a experiência acumulada ao longo dos anos”, refere.

E quanto aos rituais antes de cada evento, diz não ter “uma superstição específica”, mas conta que mantém “sempre um ritual de revisão final: percorro mentalmente todo o evento, verifico os pontos críticos e só descanso quando sinto que tudo está tratado e assegurado”. Quem vive uma vida de eventos sabe que o dia da concretização de um projeto consegue ser um caldeirão de emoções, com muito stress e pressão à mistura. Karla Thomas confessa ser, por natureza, “uma pessoa ansiosa” e que, por isso, “a gestão do stress é um exercício constante - não apenas no dia do evento”. Contudo, “acredito que a ansiedade, quando bem direcionada, se torna uma aliada: ajuda-me a rever cada detalhe, confirmar se todos os serviços e equipas estão alinhados e garantir que tudo está pronto para correr da melhor forma. Mas também é importante salientar que quando temos uma equipa alargada em quem podemos confiar, o meu caso neste momento, é sempre mais fácil manter o stress em níveis comportáveis”.


Desafios e lembranças

Nesta área, são muitos os desafios. Para Karla Thomas, o maior, “mais do que um fornecedor que não cumpre, de um gerador que não liga, de um evento ao ar livre num dia de chuva torrencial, de um ecrã que desliga a meio de uma apresentação, entre tantas outras coisas, é a gestão do tempo entre vida pessoal e profissional dentro da área dos eventos”. “Se eu já aprendi a fazer esta gestão? Não, ainda não e tem sido um ponto em que tenho pensado bastante nos últimos tempos”, conta.

Esta é também uma área onde não faltam histórias para contar. E algumas que arrancam risos sempre que vêm à memória. “As lembranças mais engraçadas são de ‘personagens’ que acabamos por conhecer ou de momentos entre a equipa e que depois acabam por virar ‘senhas’ ou ‘referências’ para momentos de descontração.” Como exemplo, conta a história de uma colega, que, “para descomprimir a equipa no final de um evento grande, disse no rádio: ‘O palco está a cair’! Criou um stress momentâneo, mas logo se percebeu que não era verdade e toda a vez que alguém se lembrava desta história era uma risota”, recorda.

“É preciso muita resiliência e dedicação”

O mundo está em constante evolução. E os eventos também. “O tempo de atenção plena é cada vez menor, estamos online a maior parte do tempo. Acostumamo-nos com mensagens rápidas e muito facilmente perdemos o foco se o conteúdo não for interessante.” Assim, Karla Thomas acredita que “a aposta tem de ser em experiências que permitam uma aproximação real e que consigam transmitir emoções. Não basta um grande ecrã e um bom PPT para a plateia de um evento corporativo, é preciso ter algo mais para conseguir captar a atenção dos presentes”, frisa.

E às novas gerações dos eventos, a profissional da Niu garante que “ter o drive e gostar da área é importante, mas não é suficiente: é preciso muita resiliência e dedicação”. E remata: “Venham, tragam sangue novo, novas ideias, novas soluções, mas tragam também compromisso.”

© Maria João Leite Redação