Os eventos dão felicidade?
07-10-2026
# tags: Eventos
A resposta pode parecer óbvia. Quem faz eventos pretende que os participantes saiam satisfeitos e, com mais ou menos stress, acaba por experimentar diferentes formas de felicidade ao longo das várias etapas do seu trabalho.
Quem vai a um evento procura sentir-se melhor, seja porque participou numa experiência intensa – caso dos festivais –, porque contribuiu para o sucesso da empresa ou porque aprendeu ou partilhou algo útil.
O senso comum diz-nos que sim, que eventos e felicidade são indissociáveis. Mas quisemos perceber porquê e se há dados que comprovem, de forma inequívoca, esta associação.
O que diz a ciência sobre felicidade e eventos?
Há, efetivamente, quem estude há vários anos esta relação aparentemente óbvia entre eventos e felicidade, embora muitas vezes estes estudos se foquem em eventos específicos, como um festival ou grandes eventos desportivos e religiosos.
O período pós-pandemia trouxe até uma nova abordagem. Os investigadores tentaram perceber se o nível de felicidade em eventos virtuais ou híbridos era igual ou menor do que no formato presencial tradicional.
Uma das conclusões foi que existe uma relação significativa entre a participação em eventos presenciais e as ligações sociais e combate à solidão. “A frequência de participação em eventos virtuais não apresentou um efeito significativo na ligação social ou na solidão”, concluem Kitchen et al. (2023) em “Can Events Impact on Social Connectedness and Loneliness? An Analysis of Face-To-Face and Virtual Events Attended in South Australia”.
Há, ainda, outras abordagens mais específicas, que estudam a relação entre eventos e felicidade em determinados grupos. Por exemplo, Yi Liu e Jason Draper estudaram a forma como levar crianças a festivais influencia o bem-estar familiar. Entre os 585 participantes inquiridos, “os que compareceram com crianças apresentaram níveis mais elevados de bem-estar subjetivo e qualidade de vida relacionada com a saúde em comparação com aqueles sem filhos”, concluíram.
Grande ou pequeno, há diferença?
Será que a felicidade se limita aos grandes eventos? Ou, como diz o senso comum, também pode estar nas pequenas coisas?
Um estudo da Anglia Ruskin University’s School of Psychology and Sport Science, publicado na revista Frontiers in Public Health, analisou os dados de inquéritos a 7.209 adultos, com idades entre os 16 e os 85 anos, residentes em Inglaterra. A análise foi abrangente, porque incluiu não só eventos desportivos amadores, mas também outros de maior dimensão, como os jogos da Premier League de futebol.
A investigação revelou que assistir a eventos desportivos ao vivo resulta em pontuações mais elevadas em duas importantes medidas de bem-estar subjetivo – a satisfação com a vida e a sensação de que “a vida vale a pena” – bem como em níveis mais baixos de solidão.
“Sabemos que ver desporto ao vivo de todos os tipos proporciona muitas oportunidades de interação social, o que ajuda a forjar a identidade de grupo e o sentimento de pertença, o que, por sua vez, atenua a solidão e aumenta os níveis de bem-estar”, explicou a investigadora principal, Helen Keys.
Felicidade e eventos em cinco métricas
Um dos estudos mais recentes sobre a felicidade nos eventos foi publicado em 2025 no International Journal of Tourism Research. “The Value of Events for Personal Well-Being: A PERMA Perspective”, uma pesquisa realizada por investigadores da University of South Australia, desenvolveu-se com base na abordagem PERMA, que tem em conta cinco pilares:
P – Positive Emotions (Emoções Positivas)
E – Engagement (Envolvimento)
R – Relationships (Relacionamentos)
M – Meaning (Significado)
A – Accomplishment (Realização)
O estudo avaliou a relação entre a frequência de participação em eventos e o bem-estar individual, bem como a forma como os eventos presenciais e virtuais impactam o bem-estar dos participantes.
Os resultados da investigação revelam que a participação frequente em eventos presenciais está significativamente relacionada com duas dimensões do bem-estar (emoção positiva e envolvimento), enquanto a participação frequente em eventos virtuais está associada a uma dimensão (realização).
Isto significa que participar em eventos presenciais com maior frequência pode levar a um maior bem-estar, proporcionando sentimentos positivos mais intensos, como alegria, entusiasmo e felicidade, bem como níveis mais elevados de envolvimento. Dados que confirmam conclusões de estudos anteriores, bem como a perceção praticamente generalizada de que os eventos trazem realmente felicidade.
Eventos virtuais vs. eventos presenciais
À primeira vista, o estudo da University of South Australia também parece esbater as diferenças entre eventos presenciais e eventos virtuais (EV): “Os resultados deste estudo indicam que a participação frequente em EV também pode promover uma sensação de realização”.
No entanto, os autores encaram estas conclusões com alguma cautela e avançam com uma explicação possível: “Apesar do relaxamento das restrições da COVID-19 em 2021, muitos eventos privados ainda foram realizados online, como casamentos e funerais no estrangeiro, o que fez com que os participantes se sentissem ligados e envolvidos em eventos significativos das suas vidas, mesmo à distância. Esta participação virtual em marcos importantes pode ter contribuído para o sentimento de realização observado”.
Além disso, a conclusão deste estudo – de que os eventos virtuais não afetam nenhuma dimensão do bem-estar para além da satisfação –, vai ao encontro dos resultados de investigações anteriores, que concluíram que a participação em eventos virtuais não reduz significativamente a solidão nem aumenta a ligação social.
“Os eventos virtuais e os eventos presenciais contribuem de forma diferente para o bem-estar dos participantes, tendo os eventos virtuais um impacto menor em comparação com os eventos presenciais”, afirmam os autores, concluindo também que uma interação mais esporádica pode não ter tanta influência nas relações como a interação em tempo real em eventos ao vivo.
Há ainda outro dado importante, salientado nas conclusões da investigação: a existência de associações positivas entre a Educação Interprofissional (EIP) e a Experiência Virtual (EV) com o bem-estar, independentemente de problemas de saúde mental preexistentes. “Esta descoberta é significativa, pois demonstra a eficácia e o valor dos eventos para o público em geral, independentemente dos problemas de saúde mental”, concluem.
Quatro razões da felicidade em eventos
A ciência parece comprovar a relação entre eventos e felicidade. Mas porquê? O que provoca essa sensação e quais os motivos do impacto dos eventos na sensação de pertença e realização pessoal? Há algumas explicações possíveis.
Viver a experiência
A ideia de que viver é mais importante do que ter – ou, por outras palavras, a valorização da experiência em relação aos bens materiais – tornou-se “mainstream” e há dados que o confirmam. “Verificámos que as pessoas obtêm prazer e satisfação mais duradouros ao investir em experiências de vida do que em bens materiais”, garante Leaf Van Boven, professora assistente de Psicologia na CU-Boulder, que há vários anos se dedica ao estudo deste tema.
Participar em eventos e ter experiências – musicais, gastronómicas ou de socialização, imersivas ou outras –, mesmo que tal implique um investimento significativo, acaba por ser mais importante do que usar o dinheiro para comprar bens materiais.
Ter e manter ligações pessoais
Mais uma vez, as memórias da COVID-19 são úteis para avaliarmos a forma como os eventos criam felicidade. Um dos aspetos mais difíceis de lidar com aquilo a que na altura se chamou “a nova realidade” foi justamente a falta de conexão com outras pessoas. Para além dos efeitos emocionais, que foram indesmentíveis e praticamente transversais, a ausência de relações pessoais pode ter afetado a própria saúde e a esperança de vida.
Investigadores da Universidade de Cambridge analisaram 148 estudos, com mais de 300.000 participantes, para avaliar a relação entre o risco de mortalidade e as relações sociais. A conclusão é que há um aumento de 50% na probabilidade de sobrevivência para os participantes com relações sociais mais fortes. Esta descoberta manteve-se consistente em relação a idade, sexo, estado de saúde inicial, causa de morte e período de seguimento. Ou seja, as relações pessoais, sejam familiares ou de networking dão, literalmente, anos de vida. O que significa que é possível dizer, sem exagerar, que os eventos fazem bem à saúde.
Fonte de bem-estar
Os estudos já citados revelam, sem margem para dúvidas, a importância dos eventos para alcançar felicidade, bem-estar e até uma sensação de realização pessoal. A participação em eventos de massas potencia o sentimento de pertença a uma comunidade com os mesmos interesses e valores, o que contribui para o bem-estar. Além disso, existe igualmente um efeito positivo em termos de saúde mental, reduzindo a sensação de solidão e questões como a ansiedade e a depressão.
Fuga à rotina
O que tem em comum um evento corporativo, um congresso médico ou um festival de música? O facto de serem momentos que escapam ao ritmo do quotidiano e às tarefas diárias. E esta é mais uma razão para a felicidade trazida pelos eventos e o motivo pelo qual tantas vezes se “contam os dias” para determinado acontecimento que permite escapar a rotina.
Felicidade
Etimologia: Do latim felicitate-, «idem»
1. estado de quem é feliz; contentamento; bem-estar
2. acontecimento feliz; bom êxito
3. boa fortuna; sorte; ventura
no Dicionário infopédia da Língua Portuguesa. Porto Editora.
Disponível em https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/felicidade.
© Olga Teixeira Redação
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